Volver

07/03/2007 | Categoria: Críticas

Almodóvar retorna à Espanha rural do começo de carreira e narra bela história de mulheres sobre morte e amizade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um único grande filme não costuma dar a medida do talento de um cineasta. No mundo dos diretores, o que separa os gênios dos apenas talentosos é a capacidade de se reinventar a cada lançamento e criar, obra após obra, uma cinematografia consistente. Depois de ganhar dois Oscar (algo raríssimo para um cineasta que não faz filma em inglês) e conquistar respeito absoluto de público e crítica, Pedro Almodóvar poderia até mesmo se aposentar, e ainda assim seria reconhecido como um dos maiores cineastas contemporâneos. Para sorte nossa, ele continua presenteando o público com grandes exemplares de cinema gracioso, cheio de afeto, inteligência e total domínio narrativo.

“Volver” (Espanha, 2006) dá seqüência a uma longa série de filmes maravilhosos que Almodóvar vem realizando desde, pelo menos, “Carne Trêmula” (1997). Há uma década o espanhol enfileira obra-prima atrás de obra-prima, sem dar sinais de esgotamento criativo. “Volver”, como o nome indica (o verbo significa “voltar” em português), representa o já clássico retorno às raízes que todo grande artista sente a necessidade de realizar, aqui e acolá, quando a carreira é longa. Porém, mais do que simplesmente retomar as paisagens multicoloridas da ensolarada Espanha rural e o universo feminino que sempre lhe foram caros, Almodóvar dá mais uma demonstração clara de talento, ao criar uma bela história sobre morte e amizade, narrada por personagens tão vivos que parecem de carne e osso.

Elas são todas mulheres. Aliás, há uma cena curiosa que, de certa forma, tematiza com humor sofisticado o universo radicalmente feminino do filme; é a cena em que Sole (Lola Dueñas) chega ao velório da tia morta recentemente. Ela abre uma porta fechada e dá de cara com uma multidão formada exclusivamente por homens. “Sala errada”, conclui, fechando a porta e se dirigindo ao lugar correto; “Filme errado”, poderia ter dito. Como nos velhos tempos, Almodóvar fez um trabalho de alma feminina, excluindo quase por completo os homens da trama. Quando um personagem masculino se insinua de alguma forma no enredo, o direito logo dá um jeito de lhe atirar no congelador, às vezes até literalmente.

O filme é narrado do ponto de vista de uma típica personagem de Almodóvar. Raimunda (Penélope Cruz) é uma diarista que dá duro, cozinhando e fazendo faxina em várias casas, para sustentar um marido desempregado e uma filha adolescente. As outras personagens importantes circulam em volta dela, e são quase todas da mesma família: Sole é a irmã mais velha; Paula (Yohana Cobo), a filha adolescente; Irene (Carmen Maura), a falecida mãe. Há ainda Agustina (Blanca Portillo), antiga vizinha da família. Todas são mulheres forte, voluntariosas e decididas, mas também calorosas e intensas. Tipicamente espanholas.

Almodóvar inicia “Volver” com uma cena exemplar: no Dia de Finados, um grupo de mulheres limpa os túmulos de parentes num pequeno cemitério de um vilarejo do interior. A seqüência apresenta as personagens e também o tema do filme, a relação entre vivos e mortos, em uma série de tomadas ensolaradas que funcionam como assinatura visual do diretor. A seguir, o filme se divide em duas histórias paralelas, uma delas envolvendo Raimunda, a outra sobre Sole. Cada irmã precisa lidar com um cadáver sem contar nada para a outra. As duas histórias, que a princípio parecem diferentes, vão mais à frente se fundir magistralmente em uma só, através de uma narrativa simples e original, que usa o artifício do realismo mágico de forma bela.

Como de hábito, Almodóvar brinda o espectador com diálogos de leveza e calor humano contagiantes. “Volver” é um filme cheio de graça e afeto, de sensibilidade e delicadeza. Assistir a uma produção assim lembra uma visita à casa daquela tia cheia de energia e bom humor que você não vê há anos: a gente fica inteiramente à vontade depois de alguns instantes. Lá pela meia hora de projeção, você vai sentir que já conhece cada uma das mulheres de “Volver” há muito tempo. É uma característica do melhor Almodóvar: a platéia desenvolve rapidamente um senso profundo de empatia com as personagens. Ficamos à vontade entre elas, olhamos para tudo com curiosidade, torcemos para que se acertem entre si e com os outros. Como se elas existissem de verdade, e não fossem apenas personagens de uma obra de ficção.

Vale ressaltar que as mulheres de “Volver” venceram um prêmio coletivo de atuação no Festival de Cannes, e o prêmio cai no filme como uma luva. Os desempenhos de todas elas são extraordinários. Penélope Cruz, tão criticada nos filmes que realiza em Hollywood, tem aqui o papel de sua vida, e se agarra a ele com vontade (aliás, ela deveria se concentrar mais em filmes espanhóis, pois fica evidente que a língua inglesa é para ela um obstáculo difícil de transpor). A veterana Carmen Maura, reconciliada com o diretor após quase 20 anos, dá um toque de elegância a um papel intenso, e Blanca Portillo surpreende ao equilibrar dor e presteza em um personagem pequeno, mas emocionalmente complexo, e muito rico.

“Volver” é o trabalho invejável de um diretor plenamente consciente de seu talento e de sua capacidade narrativa extraordinária. A maturidade só fez bem a Pedro Almodóvar. Seus filmes nos anos 1980 já versam sobre os mesmos temas – o universo feminino, a perversão sexual – mas usando um humor feroz e histérico que afastava parte da platéia. Desde “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), contudo, o cineasta espanhol passou a investir em um estilo mais sóbrio e gracioso, valorizando menos as piadas e mais o calor humano entre os personagens. Há humor, sim, mas um humor finamente calibrado para fazer sorrir, não mais gargalhar. Em “Volver”, como já ocorria no já citado “Tudo Sobre Minha Mãe” e no maravilhoso “Fale com Ela” (2002), sentimos enorme vontade de abraçar aqueles personagens, virar amigos deles, sorrir e chorar com eles, permanecer perto deles após os créditos. E isso é uma qualidade que poucos cineastas no mundo têm.

O DVD da Fox é simples e sem extras. O filme aparece com ótima qualidade de imagem (widescreen 1.85: 1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Volver (Espanha, 2006)
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Penélope Cruz, Carmen Maura, Lola Dueñas, Blanca Portillo
Duração: 121 minutos

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