Vôo da Fênix, O

02/08/2005 | Categoria: Críticas

Filme de John Moore tem objetivo modesto, que cumpre com eficiência: entreter sem compromisso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Ambição é um traço quase ausente da aventura “O Vôo da Fênix” (Flight of the Phoenix, EUA, 2004), refilmagem de um clássico do gênero que data de 1965. A versão do cineasta John Moore não deseja mais do que atualizar algumas seqüências do longa-metragem que não puderam, por impossibilidade técnica, serem filmadas por Robert Aldrich, homem no leme do título original. Divertir o espectador sem ofendê-lo, durante pouco menos de duas horas, é o objetivo declarado da película. É um objetivo modesto, que o filme cumpre sem muito brilho, mas com competência.

“O Vôo da Fênix” é o tipo de obra que se apóia em um fiapo de trama para construir um enredo reto, raso. Tudo é muito simples, e o espectador não tem qualquer dificuldade para acompanhar a aventura, que se desenrola nos desertos da Mongólia, junto à fronteira com a China. Lá, uma empresa internacional decide fechar um posto avançado de prospecção de petróleo. Frank Towns (Dennis Quaid) , um piloto corajoso com pinta de mercenário, pousa o avião na base para levar o grupo de funcionários a Pequim, em uma velha aeronave Fairchild C-119, um modelo antiqüíssimo, algo como um Fusca voador.

No meio do vôo, a aeronave é apanhada por uma tempestade de areia, e cai no meio do deserto. Com pouca água e quase nenhuma comida, os ocupantes decidem que há somente uma chance de sobreviverem: construir um avião artesanal com os destroços do C-119 e voar para longe dali. A proeza só é possível por causa de um passageiro misterioso, Elliott (Giovanni Ribisi), que diz ser construtor de aviões e rapidamente desenha um modelo improvisado, com as peças disponíveis.

Elliott é a peça-chave do filme. Ninguém sabe quem ele realmente é, e seu comportamento não dá nenhuma pista: isolado, às vezes agressivo, o rapaz não inspira nenhuma confiança, mas o grupo não tem escolha. Ameaçados por tempestades elétricas, pelo calor e pela sede, além de um grupo de tribos nômades aparentemente arredias, os passageiros do C-119 se lançam à tarefa com vigor. O filme documenta o esforço desesperado do grupo, mas não foca muito nos conflitos inevitáveis que surgem dentro da equipe. Há brigas por água, pequenos desentendimentos e até fugas, mas essas cenas não desenvolvem os personagens.

De certa forma, isso não faz muita falta porque o diretor John Moore não tem mesmo intenção de criar um drama humano. Como um mestre de marionetes, ele põe obstáculos à frente dos personagens e filma-os resolvendo esses problemas. Nenhuma novidade nisso. “O Vôo da Fênix” não quer ser inovador, quer apenas entreter. Faz isso bem, com auxílio da fotografia dourada de Brendan Galvin e Donal Caulfield (responsável pelas cenas aéreas), evidentemente inspirada no clássico “Lawrence da Arábia”.

Há deslizes. Elliott tem uma cena particularmente cruel, em que vira uma espécie de psicopata. A seqüência, despropositada, lança dúvidas na cabeça da platéia: será que o segredo que ele esconde é algo terrível? Bem, não é. A expectativa aumentada pela tal cena faz com que, quando revelado, o segredo se torne uma grande decepção, quase cômica.

Outro problema é a edição. O filme foi montado de maneira a gastar quase 1h40 na construção do avião improvisado, mas uma vez que a aeronave fica pronta, não há tensão – o filme está no fim, e o roteiro corre em desabalada carreira para encerrá-lo de vez. O clímax acontece de maneira muito abrupta, muito rápida, algo ainda mais grave quando se sabe que o longa-metragem tem 113 minutos, uma duração excessiva para um filme de objetivo tão modesto.

Se há deslizes, também há acertos. Um deles é a ótima trilha sonora, que combina canções antigas (James Brown, Johnny Cash) e novas (Massive Attack e a irresistível “Hey Ya”, do Outkast, em um improvável e divertido segmento musical inserido na película) de maneira impecável. Há ainda um lindo plano em um cânion no deserto, provavelmente o mais importante de todo o filme, que praticamente encerra o longa-metragem. Aliás, os créditos de “O Vôo da Fênix” merecem uma menção honrosa, por mostrarem o destino de cada um dos passageiros do vôo fatídico através de fotografias. Eficiente – como o filme.

O DVD, lançado pela Fox, é apenas razoável. Um comentário em áudio acompanha o pacote (o diretor, dois produtores e o diretor de arte participam), um documentário de bastidores (41 minutos) e sete cenas excluídas ou aumentadas (de 1 a 3 minutos cada), com opção de comentário do diretor. O filme tem imagem original (widescreen) e trilha de áudio Dolby Digital 5.1.

– O Vôo da Fênix (Flight of the Phoenix, EUA, 2004)
Direção: John Moore
Elenco: Dennis Quaid, Giovanni Ribisi, Miranda Otto, Tyrese Gibson
Duração: 113 minutos

| Mais
Tags:


Deixar comentário