Vôo Noturno

14/02/2006 | Categoria: Críticas

Wes Craven entrega claustrofóbico thriller de suspense passado dentro de avião

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Depois de um grande filme de estúdio cheio de problemas de produção, nada melhor do que filmar um thriller de suspense curto, grosso e centrado em personagens sólidos. Joel Schumacher já aprendeu (e desaprendeu) a lição há muito tempo. O veterano Wes Craven mostra, com “Vôo Noturno” (Red Eye, EUA, 2005), que também conhece o ditado. Ele amargou o fracasso de público e crítica de “Amaldiçoados”, uma história boba de lobisomens juvenis, e deu seqüência a ele com uma claustrofóbica trama passada quase toda dentro de um avião.

O primeiro ato de “Vôo Noturno” seria capaz de convencer qualquer espectador de que o filme é uma comédia romântica, se não fosse a trilha sonora nervosa e cheia de notas dissonantes de Marco Beltrami. Lisa (Rachel McAdams) é a gerente de um hotel de luxo em Miami, às voltas com um vôo cancelado no aeroporto do Texas. Enquanto espera por uma solução, ela conhece Jack (Cillian Murphy), um estranho afável e bonitão. Os dois dividem um drinque, flertam e comemoram quando descobrem que sentarão juntos no avião para Miami. Por pouco tempo.

Assim que a aeronave sobe, o rapaz revela em uma conversa casual que é um terrorista. “Meu nome é Jackson”, diz ele. “Lisa. O que você faz?”, pergunta ela. “No momento, meu trabalho é você”, devolve ele. De modo calmo e controlado, ele explica que o grupo para o qual trabalha deseja que Lisa use o cargo para trocar o secretário de Segurança Nacional dos EUA de quarto. O homem está hospedado no hotel que ela dirige. Outros terroristas, ele avisa, têm o pai dela (Brian Cox) como refém. Caso ela se recuse a fazer o que ele pede, o pai dela será assassinado. Simples assim. Em poucas frases, o flerte promissor se transforma em pesadelo. A comédia romântica se tornou um thriller claustrofóbico e assustador.

Wes Craven dirige o filme com firmeza. Ele tem noção exata do reduzido espaço livre que existe dentro de um avião e usa esse detalhe para tornar o filme ainda mais claustrofóbico, abusando de enquadramentos fechados. Outro acerto – talvez o melhor truque de direção do filme – é apresentar meia dúzia de passageiros do vôo, de passagem, durante os 20 primeiros minutos, quando as coisas ainda parecem bem. Assim, quando a câmera focaliza de soslaio cada um desses passageiros coadjuvantes, a platéia sabe que algo vai acontecer – algum imprevisto, algum detalhe que pode complicar a situação de Lisa. O recurso, simples e eficiente, gera ainda mais tensão.

O segundo ato de filme, de natureza bem diferente do primeiro, capricha em uma espécie de duelo psicológico entre mocinha e vilão. É aí que outro acerto de Wes Craven se mostra – a escalação do elenco. Rachel McAdams está ótima, situando suas expressões entre o nervosismo controlado e o medo puro e simples. O irlandês Cillian Murphy é a perfeita mistura de charme e ameaça, beneficiado ainda pelo fato de ter aparecido no mesmo ano como um vilão de índole semelhante em “Batman Begins”. Praticamente sozinhos, eles desfilam os ótimos diálogos do estreante Carl Ellsworth e mantêm a tensão do filme até o momento em que o avião aterrisa.

Aí vem a terceira parte do filme, que quase estraga tudo. O ambiente claustrofóbico então se esvai e a trama investe na rotineira e burocrática dieta de explosões, tiros, correria e perseguições, incluindo o diálogo final mais previsível e chatinho que um cineasta poderia filmar. Como defeito evidente, pode-se apontar também o plano complicado e extramente implausível bolado pelos terroristas; como se sabe, nunca é bom depender de sorte (e da cooperação de estranhos) para fazer funcionar um plano que exige cronometragem perfeita.

No final das contas, quando somados acertos e erros, “Vôo Noturno” tem saldo positivo, posicionando-se como um filme diferenciado em uma temporada de filmes esquemáticos e exagerados, de “Sr. E Sra. Smith” até “A Ilha”. É provável que a fraquíssima safra de filmes de ação apresentada em 2005 por Hollywood tenha influenciado a excelente recepção de crítica que “Vôo Noturno” obteve, mas o cinema é assim mesmo. Um filme, como qualquer outro objeto de consumo, só pode ser classificado como bom depois que o público sabe o que é um filme ruim, certo?

Para encerrar, vale uma dica: quem gostou realmente de “Vôo Noturno” pode procurar pelo filme-irmão “Tempo Esgotado”, uma história superior de 1995, que trazia Johnny Depp como um pai obrigado a cometer um assassinato para salvar a vida do filho. Troque o sexo do protagonista e você vai ver que, na verdade, trata-se da mesma história.

O DVD é da Universal. O único extra contido nele é um comentário em áudio com o diretor e os dois atores. Em compensação, o formato de vídeo (wide anamórfico) e o áudio (Dolby Digital 5.1) estão OK.

– Vôo Noturno (Red Eye, EUA, 2005)
Direção: Wes Craven
Elenco: Rachel McAdams, Cillian Murphy, Brian Cox, Jack Scalia
Duração: 85 minutos

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