Vôo United 93

28/11/2006 | Categoria: Críticas

Paul Greengrass usa estilo documental e filma perplexidade e desorientação do 11 de setembro com precisão

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Ben Sliney era o homem responsável pelo controle dos quatro mil aviões que sobrevoavam os Estados Unidos, no fatídico dia 11 de setembro de 2001. Chefe do centro de controle de tráfego aéreo de Herndon, no estado da Virgínia, ele lembra cada minuto daquele dia. Foi uma data que trouxe um turbilhão de emoções extremas: surpresa, choque, medo, excitação, pânico, perplexidade, e acima de tudo a sensação de que estava no olho do furacão de um momento que estará gravado nos livros de História Geral, daqui a muitos séculos. Seis anos depois, Sliney reviveu os mesmo instantes, mas agora no ambiente controlado de um estúdio de cinema. Ele interpretou a si mesmo em “Vôo United 93” (United 93, EUA, 2006).

O filme do inglês Paul Greengrass é o primeiro lançamento cinematográfico a abordar diretamente o ato de terrorismo mais negro da história. O diretor concebeu o projeto como uma obra quase documental, que tenta capturar a sensação de desorientação e urgência dos que viveram os acontecimentos sem ter idéia do quadro completo daquilo que estava, de fato, acontecendo. Foi para reforçar a idéia de que estava tentando se aproximar o máximo possível da verdade que Greengrass convidou Sliney para participar do filme. E não apenas ele: vários controladores de vôo que estavam trabalhando no dia 11 de setembro, inclusive militares que participaram do processo tortuoso de tomada de decisões naquela data, também interpretam a si mesmos.

Pode-se questionar a validade moral desse procedimento (se Greengrass queria fazer uma obra documental, por que não simplesmente filmar um documentário?), mas não as qualidades cinematográficas, que são muitas. “Vôo United 93” é um filmaço, um longa-metragem excitante e perturbador, objetivo e cru até a medula, que põe o espectador diretamente dentro de dois locais-chave para compreender o impacto do 11 de setembro: as torres de controle do vôo e um dos quatro aviões seqüestrados por terroristas. A aeronave escolhida foi a quarta e última, a única que não conseguiu atingir seu alvo e caiu em uma área rural da Pensilvânia, quando se dirigia à capital norte-americana, Washington.

Para escrever o roteiro do filme, Greengrass se cercou de múltiplas fontes. Entrevistou parentes dos passageiros que estavam no avião e obteve relatos dos telefonemas que eles deram aos familiares. Conversou com os controladores de vôo civis e militares. Teve acesso aos dados da caixa preta do avião e ouviu as conversas travadas dentro da cabine. Estudou minuciosamente o relatório da comissão que investigou o episódio. Depois, escreveu um roteiro com uma abordagem quase jornalística, construindo o relato mais próximo da realidade que conseguiu obter. Ainda assim, teve que assumir como verdades alguns detalhes cuja veracidade histórica não há como confirmar – ele assume, por exemplo, que os quatro terroristas que tomaram o avião desejavam derrubá-lo sobre o Capitólio (o Congresso Nacional dos EUA).

Do ponto de vista técnico, o filme emprega a mesma a estética de documentário que caracteriza a obra anterior do cineasta (“Domingo Sangrento”, “A Supremacia Bourne”). Greengrass filma com a câmera na mão o tempo inteiro. A imagem nunca pára quieta; treme, perde o foco, sai do enquadramento a todo momento. Vultos passam na frente da câmera, interrompendo a visão que se tem dos atores. Na banda sonora, os diálogos soam nervosos e inquietos. As vozes se sobrepõem, os atores interrompem as frases uns dos outros, brigam, chamam palavrões. Tecnicamente, todos esses detalhes são erros, mas tudo funciona perfeitamente no caso deste filme. É um caos orquestrado com eficiência assustadora. “Vôo 93” reproduz em minúcias a perplexidade e a sensação desnorteada que os envolvidos experimentaram naquele dia.

Uma grande sacada vem de uma opção arriscada: o cineasta preferiu registrar a ação usando câmeras digitais comuns, do tipo que se pode comprar em qualquer supermercado ou loja de informática. Os pesados equipamentos profissionais foram deixados de lado para que fosse possível registrar imagens mais próximas de um documentário. É uma decisão sábia; se por um lado o resultado geral ganha uma textura imperfeita, de cores lavadas e sem profundidade, por outro lado o diretor consegue criar uma perfeita ilusão de realidade. Funciona, portanto, como se estivéssemos vendo a história se desenrolar à nossa frente.

“Vôo United 93” é estruturado em dois blocos bem distintos, ambos narrados em tempo real. A primeira parte se concentra nas salas de controle de tráfego aéreo espalhadas pela costa leste dos EUA. Estão nessa parte as melhores cenas do filme, uma seqüência eletrizante de acontecimentos de fazer parar coração de cardíaco. Vemos a tragédia se desenhando, enquanto os controladores de vôo iniciam o que parece ser um preguiçoso dia rotineiro de trabalho e vão, aos poucos, assistindo de posição privilegiada o terror ganhando corpo, enquanto peças de um jogo incompreensível vão desenhando uma ação de escala e ousadia inimagináveis.

Para completar, o diretor utiliza inteligentemente, como pano de fundo, imagens reais do World Trade Center em chamas, em diversos momentos. O instante da explosão do segundo avião contra a torre sul do complexo financeiro é o ponto culminante do longa-metragem – é impossível não se emocionar com a expressão boquiaberta dos controladores de vôo, que parecem não acreditar no que vêem. O background ainda ajuda a platéia a pôr em contexto os acontecimentos narrados, dentro da cronologia correta dos acontecimentos reais.

Após a colisão, quando já está claro que o país está sofrendo uma ação terrorista coordenada, o pânico se espalha e os homens nas torres de controle passam a olhar com horror para as telas verdes dos radares, como se os quatro mil aviões no ar fossem todos bombas voadoras em potencial. É neste momento, quando a tensão em terra parece insuportável, que começa o segundo bloco do filme. Greengrass muda o foco para dentro do vôo número 93 da United Airlines, concentrando-se lá a partir do instante em que os seqüestradores tomam o controle da aeronave.

Aliás, é louvável o retrato que emerge dos terroristas, humano e nem um pouco maniqueísta. Eles não são sujeitos malvados ou sádicos incontroláveis com sede gratuita de sangue. Não são vilões de Hollywood, mas homens jovens e ingênuos, que também têm dúvidas, medo e hesitação. O painel montado cuidadosamente trata de enfatizar que os terroristas acreditavam, sinceramente, que estava fazendo a coisa certa, dentro do ponto de vista deles.

Uma das seqüências mais geniais ocorre quando os passageiros e os seqüestradores se preparam para um confronto. Paul Greengrass tem a manha de mostrá-los todos rezando o Pai Nosso. Não há heróis ou vilões aqui, mas seres humanos que a situação política internacional pôs em lados diferentes. Para completar, o cineasta evita por completo o melodrama, editando o filme quase sem música (quando há trilha sonora, ela não passa de algumas notas que sublinham momentos-chave da narrativa, como a decolagem do vôo fatal e a explosão do segundo avião no WCT).

Outro grande acerto do cineasta inglês foi se recusar a abraçar qualquer um das teorias sobre o motivo da queda do vôo da United Airlines. Nos EUA, é muito popular a idéia de que os passageiros perceberam a intenção macabra dos terroristas e derrubaram o avião, em um ato heróico de auto-imolação. No resto do mundo, paira a desconfiança de que a aeronave tenha sido derrubada pelo Exército norte-americano para evitar uma tragédia maior. O filme recusa as duas soluções e opta por um final que é tão corajoso quanto perturbador. Está aí um longa-metragem para ser visto, refletido e estudado em aulas de História.

O DVD lançado pela Universal tem boa qualidade de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (widescreen anamórfica), e traz ainda um documentário de bastidores.

– Vôo United 93 (United 93, EUA, 2006)
Direção: Paul Greengrass
Elenco: Christian Clemenson, Trish Gates, Polly Adams, Cheyenne Jackson
Duração: 103 minutos

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