Vozes do Além

17/07/2005 | Categoria: Críticas

Geoffrey Sax estréia em Hollywood fazendo filme sem lógica a partir de ótima premissa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Um tema intrigante e sedutor não é, nem de longe, o suficiente para que um diretor de razoável habilidade faça um filme bacana. Este é o caso de “Vozes do Além” (White Noise, EUA, 2005), filme de estréia do cineasta inglês Geoffrey Sax. O longa-metragem tem o mérito de ser o primeiro a ficcionalizar um fenômeno que vem sendo estudado por parapsicólogos há alguns anos: supostas tentativas de comunicação dos mortos com gente viva, através de artefatos tecnológicos como rádios e TVs ligados em freqüências desocupadas, que em teoria só deveriam mostrar estática. Infelizmente, a idéia do diretor não se sustenta, e o filme trilha um caminho completamente sem sentido.

Dois atores legais que andam sumidos comparecem em “Vozes do Além”: Michael Keaton e Deborah Kara Unger. Ela, outrora promissora (belo papel em “Vidas em Jogo”, de David Fincher, em 1999), acabou na vala comum dos filmes vagabundos. Já Keaton é um caso mais raro. O homem que já foi Batman, em dois bons filmes de Tim Burton, fez algumas escolhas erradas, ficou calvo e perdeu a chance de virar galã; por isso, viu os bons papéis ficarem raros. No papel do arquiteto Jonathan Rivers, ele mostra mais uma vez o bom interprete que é, acertando no tom com uma combinação de sofrimento, incredulidade e desespero que faz o personagem ser acreditável. Keaton é a melhor coisa do longa-metragem.

“Vozes do Além” começa simpático, embora cheio de clichês. É manhã, e o casal Rivers se despede após um café reforçado. Anna (Chandra West), uma escritora de renome, está saindo para ir buscas as provas da capa do novo livro. Ela anuncia que está grávida. Jonathan fica exultante. Encomenda flores e chocolates para comemorar. Ela vai embora depois de acenar duas ou três vezes, como uma musa inatingível. Qualquer razoável conhecedor de filmes de suspense sobrenatural sabe que Anna jamais voltará para casa, e é isso o que acontece: o carro dela é encontrado, à beira de um rio, na madrugada seguinte. Não há sinal de Anna.

Alguns dias depois, Jonathan é procurado por um estranho sujeito bonachão, chamado Raymond (Ian McFierce). Raymond lhe diz que Anna está morta, e garante que recebeu mensagens da mulher vindas do além. Ela estaria querendo se comunicar com Jonathan. Como o corpo ainda não apareceu e o arquiteto deseja muito rever a esposa viva, ele não dá muita bola para Raymond. Cinco semanas depois, porém, o cadáver finalmente é achado pela polícia, e alguns acontecimentos esquisitos convencem Jonathan que Raymond pode ter alguma razão no que diz.

A partir daí, o que se vê na tela é um estranho híbrido de horror sobrenatural e filme de aventura convencional. O diretor Geoffrey Sax mostra um certo talento para criar clima de medo, e consegue entregar três ou quatro cenas realmente arrepiantes, que dão susto de verdade. Neste caso, não seria inteligente citar exemplos para não estragar a surpresa de quem verá o filme pela primeira vez, mas acredite: há algumas seqüências que mantêm o espectador enterrado na cadeia facilmente.

O problema – um dos maiores que um filme pode apresentar – é que, a partir do momento em que Jonathan Rivers entra no mundo das pessoas que estudam a comunicação entre vivos e mortos, a trama simplesmente perde a lógica. A certo momento, por exemplo, o roteirista Niall Johnson faz um verdadeiro samba do crioulo doido, sugerindo que os mortos podem ver o futuro e mandar, de lá, mensagens (em vídeo!) para os vivos, no passado. Dá para acreditar nisso?

É difícil comentar, também, o final inacreditavelmente estúpido, que faz o filme descambar de vez para o ilógico. Durante o clímax, Geoffrey Sax faz o desfavor de quebrar toda a premissa que sustentava a hora e meia anterior: a crença de que os mortos não podem se comunicar diretamente com os vivos, pois precisam de uma interface adequada (no caso de “Vozes do Além”, aparelhos tecnológicos como rádios, TVs e telefones celulares) para isso. O fim do filme contraria inclusive a inteligente citação de Thomas Edison, de 1928, que abre o longa-metragem.

De alguma forma, Geoffrey Sax parece ter decidido que precisava de um vilão, no formato mais tradicional de Hollywood, para encerrar sua tentativa de meter medo. Mas ele sequer tem coragem de explicar esse vilão. Pior: faz isso utilizando a pior fórmula que a indústria cinematográfica possui para encerrar filmes que o roteirista não sabe como terminar, enfiando efeitos especiais extravagantes, que não combinam de maneira alguma com o tom desolador do longa-metragem. “Vozes do Além” é a versão de 2004 para “Os Esquecidos”, do ano anterior: um filme ancorado em uma premissa inteligente, com três ou quatro boas cenas, mas sem um mínimo de lógica narrativa que possa sustentá-las e tornar o filme aceitável àqueles que desejam algo mais do que sentir medo.

O DVD da Universal contém boa quantidade de material extra, incluindo comentário em áudio do diretor e de Michael Keaton, uma galeria de cenas cortadas e três pequenos documentários (que totalizam 40 minutos), todos enfocando experiências verdadeiras de pessoas que tentam se comunicar com mortos. O filme comparece com o corte original (widescreen anamórfico) e três trilhas de áudio Dolby Digital 5.1 (inglês, português e espanhol).

– Vozes do Além (White Noise, EUA, 2005)
Direção: Geoffrey Sax
Elenco: Michael Keaton, Deborah Kara Unger, Chandra West, Ian McNeice
Duração: 101 minutos

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