Waiting for Guffman

14/03/2007 | Categoria: Críticas

Falso documentário sobre cidadezinha fictícia é um dos grandes momentos da carreira de Christopher Guest

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Curiosamente, o ator/roteirista/diretor/compositor Christopher Guest levou vários anos para encontrar um caminho criativo, após o estrondoso sucesso da comédia “Isto é Spinal Tap” (1984). Ele se estabeleceu como roteirista do famoso seriado de TV “Saturday Night Live”, exercitou os músculos dirigindo esquetes para o programa e atuou como ator em diversas produções menores. Mas foi só em “Waiting for Guffman” (EUA, 1996), longa-metragem de estréia de Guest na direção, que o artista finalmente confirmou as altas expectativas que craques do humor depositavam nele.

O filme é um digno sucessor de “Spinal Tap”. Trata-se de um falso documentário cômico que agrega elementos de teatro e música, cozinhados juntos em um formato livre, bem espontâneo, que incentiva o elenco a improvisar a vontade. O resultado é uma produção recheada de tiradas sensacionais, que tira sarro da já conhecida ignorância cultural dos moradores de pequenas cidades no interior dos Estados Unidos. Talvez seja o melhor de todos os falsos documentários dirigidos por Guest ao longo de uma carreira sólida e consistente.

Embora não traga nenhum aviso ao espectador sobre a natureza fake do filme, “Waiting for Guffman” não pretende se fazer passar por documentário real, já que reúne diversos rostos conhecidos do grande público. É o caso do próprio Guest, que interpreta o personagem principal: o efeminado coreógrafo Corky St. Clair, um nova-iorquino desiludido com a cidade grande cujo talento – bastante discutível – é reconhecido pelos habitantes de Blaine, minúscula cidadezinha do Missouri onde nada acontece. Pois é St. Clair quem recebe a missão de descobrir, no vilarejo, moradores com algum talento artístico, de forma a criar com eles um espetáculo musical cuja apresentação se torne o ponto alto das comemorações pelo aniversário de 150 anos do lugar.

Blaine, assim como todos os personagens, é um local fictício. Esta característica dá à cidade uma característica universal, que a torna identificável como uma paródia de virtualmente qualquer pequena cidade do interior dos EUA. Guest e o co-roteirista Eugene Levy (ator que aqui interpreta um dentista com dotes musicais, conhecido do grande público por ter feito o pai do personagem principal da série “American Pie”) dão a Blaine uma série de características hilariantes, como os detalhes bizarros que cercam a fundação, no século XIX, e uma suposta visita que discos voadores teriam feito ao lugar, algum tempo antes de Roswell. São as melhores tiradas de todo o filme, ao lado da primorosa e detalhista interpretação cômica do diretor, que arrasa no papel do sensível St. Clair (“a esposa dele nunca sai de casa”).

De fato, o ambiente nas filmagens foi tão bom que praticamente todo o elenco voltaria, com prazer, para interpretar pequenos papéis nos falsos documentários que Guest passaria a dirigir, a cada intervalo de três ou quatro anos. Com o improviso rolando solto e um elenco afiado, o longa-metragem deu trabalho para editar: Guest levou um ano e meio lidando com mais de 60 horas de filmagens, antes de conseguir deixar o filme com menos de 1h30. Aí está mais um acerto do diretor – ele sabe que o formato documental cansa rápido, e curta duração, aliada à edição ágil, determina um ritmo empolgante. Ou seja, é um filme altamente indicado a todos os fãs de humor simples e sutil.

O DVD norte-americano possui boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Traz, ainda, meia hora de cenas cortadas, selecionadas por Guest, e comentário em áudio reunindo o diretor e Eugene Levy. O filme não foi lançado no Brasil.

– Waiting for Guffman (EUA, 1996)
Direção: Christopher Guest
Elenco: Christopher Guest, Eugene Levy, Catherine O’Hara, Parker Posey
Duração: 84 minutos

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