Wallace e Gromit – A Batalha dos Vegetais

27/02/2006 | Categoria: Críticas

Animação inglesa em stop-motion é deliciosamente engraçada e impressionantemente bem feita

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Wallace é um inventor de hábitos sedentários que tem verdadeira paixão por queijo. Gromit é o cachorro dele, um animal silencioso e inteligente que vive livrando o dono de problemas. A dupla criada pelo estúdio inglês Aardman já tem dois Oscar no currículo, por curtas-metragens, e é bastante popular entre as crianças inglesas. “Wallace e Gromit – A Batalha dos Vegetais” (Wallace & Gromit: The Curse of the Were-Rabbit, EUA, 2005) é o primeiro longa-metragem que protagonizam, e também um trabalho espetacular de animação em stop-motion, com visual de tirar o fôlego e uma história engraçada e cativante.

De certa forma, o filme dirigido por Nick Park e Steve Box era uma dívida da Aardman para com os fãs. Curiosamente, a primeira incursão do estúdio do terreno do longa-metragem não apresentava os dois personagens que lhe deram fama. “A Fuga das Galinhas”, de 2000, levantou as sobrancelhas dos cinéfilos para o esplêndido trabalho da empresa. “A Batalha dos Vegetais” representa, em termos de idéias, a manutenção do alto nível alcançado pelo filme anterior da Aardman. Em termos visuais, o resultado do filme é ainda mais brilhante, alcançando um nível de excelência superior.

Contando com uma série de referências a filmes clássicos de horror B, especialmente à safra da Universal nos anos 1930 e 40 (“O Lobisomem” e “Frankenstein” são citados várias vezes), a obra de 85 minutos representa um trabalho hercúleo dos animadores da Aardman. Como se sabe, a técnica de stop-motion consiste em trabalhar com bonecos, movendo-os levemente em cenários em miniatura e fotografando cada nova posição, para criar a impressão de movimento. A criação de um filme com a duração de “A Batalha dos Vegetais” exigiu nada menos do que 122 mil “fotografias”, um trabalho árduo e incansável que explica porque a Aardman demorou cinco anos para aprontar “A Batalha dos Vegetais”. O bom é que todo esse tempo valeu a pena.

O enredo é uma brincadeira deliciosa com os filmes de lobisomem. Através de invenções inovadoras, Wallace e Gromit montaram uma empresa especializada em livrar os moradores da cidade dos coelhos que invadem as hortas. A quatro dias de um importante concurso anual de vegetais gigantes, porém, uma experiência mal-sucedida conduzida pelo desastrado Wallace cria um “coelhosomem”, ou seja, uma gigantesca criatura peluda que devora hortas inteiras durante as noites de lua cheia. A dupla precisa dar um jeito na situação antes que o bicho arruíne o concurso.

O roteiro, escrito pela dupla de diretores, tem inteligência acima da média, e inclui uma grande quantidade de gags refinadas para o público adulto. Observe, por exemplo, a divertida cena em que um dos personagens procura abafar os ruídos dos relâmpagos, fechando as janelas, a fim de poder continuar a recitar um monólogo aterrorizante para o espectador; a brincadeira metalingüística (ou seja, momentos de filmes em que a platéia é lembrada explicitamente que está assistindo a uma encenação) não empata a narrativa, mas cai nela como uma luva. A fluidez e o tom uniformemente bem-humorado dos diálogos garante a qualidade geral.

Como se não bastasse, os trabalhos de fotografia e direção de arte do filme são verdadeiramente assombrosos. O nível de detalhamento dos cenários, quase todos contruídos em miniaturas, é realmente impressionante, merecendo destaque especial a igreja da cidade e a estufa do padre. As duas são locações belíssimas e repletas de superfícies espelhadas, técnica que dificulta bastante a captação de imagens. Tristan Oliver e Dave Alex Riddett, responsáveis pela fotografia, driblam esse problema criando um trabalho de iluminação sensacional, valorizado ainda mais pela grande quantidade de cenas noturnas, o que dá oportunidade para que Nick Park e Steve Box criem um visual sombrio. Há diversas cenas que brincam com as sombras dos personagens.

Além disso, o que dizer do incrível trabalho dos animadores, que conseguem expressar emoções com pequenas alterações nos rostos e corpos dos bonecos? O maior destaque nesse aspecto é o cachorro Gromit, verdadeiro protagonista da aventura. Por ser mudo, Gromit precisa manifestar suas emoções exclusivamente com expressões faciais e gestos. Tomando como base essa dificuldade extra, a seqüência em que o cão descobre a verdade sobre o misterioso “coelhosomem” já pode entrar na galeria dos grandes momentos de animações em stop-motion.

Para completar a festa, a galeria de personagens é inesquecível, e inclui a atrapalhada Lady Campânula, organizadora do concurso de vegetais e interesse romântico de Wallace, e o almofadinha Victor Quartermaine (na versão original, dublados com perfeição por Helena Bonham Carter e Ralph Fiennes, respectivamente). E se você ainda não se convenceu, saiba que o clímax de “A Batalha dos Vegetais” é empolgante, um triunfo de ação desenfreada com cérebro. Em resumo, o primeiro longa-metragem de Wallace e Gromit comprova que o estúdio Aardman se equipara à Pixar, em termos de qualidade no terreno da animação. Credencial melhor do que essa não existe.

O DVD nacional é da Universal. O disco preserva o aspecto de imagem (1.85:1, em wide anamórfico) e tem ótimo som (Dolby Digital 5.1). Há comentário em áudio dos diretores, cenas cortadas (com comentário), um making of e um documentário sobre os personagens Wallace e Gromit. Todo o material extra tem legendas em português.

– Wallace e Gromit – A Batalha dos Vegetais (Wallace & Gromit: The Curse of the Were-Rabbit, EUA, 2005)
Direção: Nick Park e Steve Box
Animação
Duração: 85 minutos

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