Watchmen

23/11/2009 | Categoria: Críticas

Frio e sem garra, filme de Zack Snyder transpõe em minúcias o universo ficcional criado por Alan Moore para o meio audiovisual, mas peca pela falta de clareza e ritmo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A expectativa era grande. Nove entre dez leitores de quadrinhos de super-heróis colocam a novela gráfica “Watchmen”, publicada entre 1986 e 1987, no topo da lista das publicações mais interessantes do gênero. Filmando em um momento favorável às adaptações de HQs, com orçamento invejável de US$ 130 milhões e profundo respeito pelo material de origem, o cineasta Zack Snyder tinha tudo para criar um grande filme. As boas intenções são evidentes. Snyder recriou o mundo ficcional imaginado pelo escritor inglês Alan Moore nos mínimos detalhes. Reproduziu cenários com fidelidade canina, utilizou a mesma escala cromática dos gibis, copiou enquadramentos e composições visuais. Ainda assim, fez um filme sem alma, irregular e exagerado, em que boa parte das nuances que davam complexidade e humanidade à história ficaram pelo caminho.

“Watchmen” (EUA, 2009) prova que tratar uma adaptação com respeito absoluto à obra original não significa, necessariamente, uma garantia de qualidade. Pode-se admirar o esforço da equipe criativa liderada por Snyder (cujo “300”, baseado nos quadrinhos de Frank Miller, já era uma demonstração anterior do mesmo teorema, apesar do sucesso de público). As conquistas técnicas constituem uma proeza considerável, e o desenho de produção de Alex McDowell se destaca pela atenção meticulosa demonstrada para com a obra original, algo que pode ser facilmente constatado através de uma comparação entre filme e quadrinhos. Pena que Zack Snyder caiu na cilada de prestar mais atenção na recriação meticulosa do universo fictício imaginado por Alan Moore do que em se ater à tarefa essencial de todo diretor, que é contar uma história com clareza, drama e senso de entretenimento – em resumo, com pathos.

A rigor, o maior pecado de “Watchmen” está na ausência de emoção, na frieza da narrativa. O crítico Walter Chaw, do site especializado Film Freak Central, matou a charada em uma frase: “trata-se de um filme dirigido pelo Dr. Manhattan, quando deveria ter sido feito por Rorschach”, escreveu ele, referindo-se a dois dos principais heróis da história. A analogia é perfeita. A versão cinematográfica de “Watchmen” percorre a história escrita por Alan Moore como um turista que conhece uma nova cidade em dois dias, tirando fotos de tudo, mas sem prestar atenção em nada. Levando em consideração o respeito demonstrado por toda a equipe criativa diante do material original, o resultado final é uma decepção. “Watchmen” falha pelo excesso de estilo nas cenas de ação, falha na condução truncada da narrativa e, pior de tudo, falha pela inclusão de seqüências (como a pavorosamente brega cena de sexo entre o Coruja e a Espectral, dentro da nave que sobrevoa Nova York) que parecem ter sido escritas pelo autor de uma novela mexicana de baixo orçamento.

Não há dúvida de que a parte técnica do longa-metragem, sobretudo na concepção visual, merece elogios. A contratação do desenhista Dave Gibbons, co-autor da HQ original, como consultor da produção já é um indício claro da vontade de Snyder – um fã assumido – em respeitar o máximo possível a visão da obra original. O trabalho do desenhista de produção, Alex McDowell, impressiona positivamente. Ele criou quase 200 cenários, incluindo uma pequena cidade completa, atulhada de objetos cênicos, pôsteres, pichações e detalhes que ajudam a incluir a maioria dos elementos pensados por Moore e Gibbons. Além disso, respeitou a escala cromática da novela gráfica, eliminando da paleta as ensolaradas cores básicas (azul, amarelo e vermelho) e mergulhando de cabeça nas soturnas cores secundárias (verdes, laranjas, marrons e roxos), o que contribui para dar ao universo uma textura sombria e ao mesmo tempo levemente irreal, como uma realidade paralela àquela em que vivemos. Observe, ainda, como os figurinos vão sutilmente se tornando mais escuros durante a progressão da história rumo a um final apocalíptico.

A mesma abordagem é aplicada no roteiro, escrito por David Hayden (dos dois primeiros “X-Men”) e Alex Tse. Seguindo a trilha aberta por Alan Moore, os dois reutilizam boa parte dos diálogos originais, longos trechos da narração em off que percorre o gibi (o diário de Rorschach) e até mesmo a labiríntica estrutura cronológica não-linear, com a ação dramática indo e voltando no tempo durante um período de quatro décadas. O eixo central é a investigação promovida por Rorschach (Jackie Earle Haley) sobre a morte do Comediante (Jeffrey Dean Morgan), seguindo a teoria de que alguém poderosos está interessado em matar os antigos heróis mascarados, postos na aposentadoria por um Richard Nixon que transformou os EUA em uma quase-ditadura, com sucessivas reeleições. Diversas subtramas menores são mostradas em paralelo, todas convergindo para um clímax gelado e imprevisível.

A opção narrativa de respeitar o vai-e-vem da novela gráfica acaba se mostrando um problema central. A técnica de intercalar diversos pontos de vista funcionava bem no gibi, mas no filme apenas contribui para roubar tensão e humanidade da história, impedindo-a de fluir naturalmente. Snyder inclui flashbacks de pelo menos seis personagens e a já citada narração em off, o que dá ao enredo o ritmo de uma viagem dentro de um carro com combustível estragado: ele arranca, anda um pouco, engasga, anda mais um pouco, o motor morre, arranca, engasga de novo, e assim sucessivamente. Apesar disso, há momentos realmente brilhantes, como a criativa montagem de abertura, ao som de “The Times They Are A-Changing”, clássico de Bob Dylan que encaixa no momento como uma luva.

Se o desenho de produção favorece o realismo, o estilo de montagem adotado por Zack Snyder, especialmente para as seqüências de ação física, segue uma veia diametralmente oposta. Esse estilo consiste em manipular o andamento da projeção, alternando momentos em câmera lenta e em alta velocidade, associado ao uso constante e radical de zoom (às vezes para frente, às vezes para trás). Esse recurso cria uma série de falsos cortes, estilizando a violência gráfica, retirando-lhe o senso de agressividade e a energia cinética, e deixando-a fria e azulada como a pele do Dr. Manhattan (Billy Crudup). Snyder também tem mão pesada para exageros visuais típicos de revistas que quadrinho, compondo cenas tão bregas quanto uma canção de Waldick Soriano. Lembra-se das aparições de Rodrigo Santoro em “300”? Pois a cena de sexo dentro da nave do Coruja consegue ser ainda mais constrangedora.

O uso do som no longa-metragem segue o mesmo estilo espetacular e hiper-real da estética visual. Viciado em jogos eletrônicos e aplicando ao trabalho um tratamento estético que muitas vezes remete a esses games, Zack Snyder explora as freqüências graves e exige o máximo dos auto-falantes, sem economizar no volume e, portanto, sem qualquer sutileza. Polêmica, também, é a decisão de alternar trechos de música orquestrados com canções populares. As músicas (“The Sound of Silence” de Simon e Garfunkel, “99 Luftbaloons” da alemã Nena) ajudam o espectador a localizar em que ponto da história do século XX a ação se encontra, e de certa forma as escolhas soam ousadas pela ausência de sucessos massivos, embora nem sempre as canções escolhidas capturem a atmosfera adequada para cada cena.

As atuações do elenco seguem o padrão irregular. São destaques naturais o Comediante (Jeffrey Dean Morgan) e Rorschach (Jackie Earle Haley), talvez mais por mérito do roteiro, que realça os aspectos ambivalentes de ambos, o que os torna mais humanos. Por outro lado, a Espectral (Malin Akerman) chama a atenção exclusivamente pela falta de expressividade, o que também se deve em parte ao texto – a garota é um dos personagens mais passivos já vistos em adaptações de quadrinhos. Merece destaque especial a versão digital de Billy Crudup (o CGI, aliás, é algo artificial). Mostrando compreender a alma do personagem, um cientista tornado semi-deus após um acidente de laboratório, o ator conta apenas com a voz para comunicar seu conflito íntimo, a perda progressiva da humanidade e no interesse pela raça humana. Nesse sentido, cabe aqui um elogio especial aos roteiristas pela alteração no final da HQ, completamente coerente com a história e com os personagens.

Embora não seja de todo ruim, é lamentável que a versão cinematográfica de “Watchmen” não chegue perto do nível de complexidade alcançado pela novela gráfica. Talvez Terry Gilliam e Darren Aronofsky, cineastas que se envolveram com o projeto e chegaram a desenvolver versões do roteiro, estivessem certos ao dizer que se tratava de uma obra infilmável. O maior problema parece ser, de fato, a quantidade descomunal de detalhes e nuances presentes na HQ. É preciso lembrar que o formato original de publicação – 12 fascículos em um ano completo – permitia que o espectador tivesse tempo para absorver tanta informação, algo impossível de acontecer em apenas duas horas e meia. Pelo visto, Zack Snyder não aprendeu a lição deixada por Peter Jackson em “O Senhor dos Anéis”. O diretor neozelandês não teve medo de deixar de lado minúcias e subtramas do livro para se concentrar nos personagens e na ação dramática, algo que parece ter ficado em segundo plano aqui.

O DVD de locação, simples, leva o selo da Paramount. O filme tem aspecto original (widescreen 2.35:1 anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). O único extra é um pequeno featurette (16 minutos) trazendo comentários de um físico sobre a realidade do filme. Na edição dupla, o primeiro DVD aparece repetido e o segundo disco traz um documentário (29 minutos), onze featurettes que cobrem aspectos específicos da produção (35 minutos) e mais um clipe musical.

– Watchmen (EUA, 2009)
Direção: Zack Snyder
Elenco: Patrick Wilson, Jeffrey Dean Morgan, Jackie Earle Haley, Malin Akerman
Duração: 163 minutos

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