Weekend à Francesa

09/04/2009 | Categoria: Críticas

Filme de Godard é um dos mais políticos e radicais da carreira do diretor francês

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Weekend à Francesa” (Weekend, França, 1967) tornou-se conhecido por cinéfilos do mundo inteiro por causa de um plano-seqüência espetacular. Antes mesmo de Jean-Luc Godard completar a obra, revistas do mundo inteiro comentavam o longo travelling lateral, em que a câmera acompanhava um congestionamento de aproximadamente 300 metros, sem cortes, percorrendo toda uma auto-estrada francesa. Godard precisou de uma autorização especial do governo francês para enfileirar 100 automóveis e filmar a tal cena. Ela impressiona mesmo, mas é o motivo errado para chamar a atenção das pessoas, já que o filme é um dos mais políticos e radicais da carreira do diretor mais iconoclasta da história do cinema.

Na época do lançamento, Godard era o cineasta-referência de todos os demais cineastas, o homem que estava revolucionando a linguagem clássica dos filmes. Ele criara uma nova técnica de edição (o jump cut – cortes que rasgavam a continuidade espaço-temporal dentro das cenas de modo radical), inseria a metalinguagem e empurrava as fronteiras do cinema narrativo. Com “Weekend à Francesa”, Godard não apenas se inseria dentro do contexto dos protestos estudantis que culminariam com os eventos em maio de 1968, em Paris, mas também rompia de vez com as narrativas convencionais, criando uma alegoria alucinada que anunciava o apocalipse (causado, é claro, pelos hábitos consumistas do capitalismo) e o retorno do ser humano à barbárie.

No início, o filme até tenta manter uma unidade narrativa mais próxima do convencional. A história acompanha um casal, Roland (Jean Yanne) e Corinne (Mireille Darc), tendo uma longa e explícita conversa a respeito de sexo extraconjugal. Eles decidem pegar o carro e viajar até a casa dos pais dela, mas a viagem nunca chegará até o final – porque Godard decide transformá-la numa metáfora para o fim da civilização como a conhecemos, devido aos hábitos consumistas gerados pela educação capitalista. Aí o filme vira um road movie aloprado, repleto de carros incendiados, cadáveres jogados na estrada, figuras históricas redivivas e terroristas canibais.

Parece loucura? E é. Na época do lançamento original, quando os filmes de Godard lotavam cinemas em todo o mundo com jovens ávidos por transgressão, “Weekend à Francesa” provocou verdadeiros pandemônios. O desbunde comportamental visto na telona freqüentemente ultrapassava a fronteira da ficção, sendo reproduzido na platéia de forma quase literal: gritarias, tumultos e cenas de violência se espalharam pelas salas de projeção como um rastro de pólvora (não por acaso, a revista Premiere elegeu “Weekend à Francesa” um dos filmes mais perigosos de todos os tempos). Tudo isso impulsionou Godard ainda mais rumo ao experimentalismo radical, uma trilha que levaria ao isolamento quase completo em meados dos anos 1970.

O longa-metragem em si é extremamente bem filmado, com um trabalho maravilhoso do grande Raul Coutard, o fotógrafo que colaborou com Godard durante toda a primeira fase da carreira do mestre francês. Além do travelling pioneiro, há pelo menos mais um plano-seqüência fenomenal, em que a câmera traça um giro de 360 graus em torno de uma cena fulminante, na qual um pianista que dá carona ao casal discursa sobre a importância de Mozart para a música contemporânea. No roteiro, Godard vira uma metralhadora giratória disparando em todas as direções, pontuando o filme com impropérios metalingüísticos (“que filme podre! Tudo o que encontramos é gente doida!”, diz Roland em certo momento) e diatribes dirigidas a tudo e a todos (“Estou aqui para informar o fim da era da linguagem e o início da era das extravagâncias, especialmente no cinema”, vocifera outro personagem). É uma influência-chave para “Clube da Luta” (1999). Cinema agressivo, engajado e esparrento.

O filme foi lançado no Brasil em DVD pela Silver Screen Collection. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) é boa. Não existem extras (nos EUA, a melhor edição inclui comentário em áudio do crítico David Sterritt e dois featurettes, um contendo uma entrevista com o fotógrafo Raul Coutard, colaborador de longa data de Godard, e outro trazendo as impressões do cineasta Mike Figgis, de “Despedida em Las Vegas”, sobre o longa-metragem.

-Weekend à Francesa (Weekend, França, 1967)
Direção: Jean-Luc Godard
Elenco: Mireille Darc, Jean Yanne, Jean-Pierre Kalfon, Valerie Lagrange
Duração: 105 minutos

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