Winchester 73

27/09/2005 | Categoria: Críticas

Precursor dos faroestes psicológicos questiona mitos do Velho Oeste pela primeira vez

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Winchester 73” (EUA, 1950), de Anthony Mann, raramente é lembrado pelos fãs de faroestes como um grande clássico do estilo. Talvez esse desprezo aconteça porque Mann jamais logrou alcançar a fama de um John Ford, por exemplo. Mas os verdadeiros especialistas têm consciência da importância crucial do longa-metragem na renovação de um gênero que, após a II Guerra Mundial (1939-1945), entrara em franca decadência. No filme, Anthony Mann flerta com a mitologia do Velho Oeste sem romper com ela, mas delineia um novo tipo de personagem que se tornaria fundamental nos faroestes dos vinte anos seguintes.

A rigor, é possível dizer que o alicerce dos faroestes durante as primeiras décadas do cinema foi a construção e perpetuação de mitos e lendas do período. Até a grande guerra contra os nazistas, o Velho Oeste sempre foi retratado por Hollywood como um período de forja de grandes heróis e grandes vilões. Ou seja, era o preto contra o branco. Não havia áreas de sombra entre homens bons e maus. Os bons eram seres corajosos, altruístas, quase perfeitos. Os maus eram covardes, invejosos, verdadeiros canalhas. A contribuição de “Winchester 73” ao gênero foi acrescentar a ele uma boa dose de realismo, criando o primeiro herói amargo dos faroestes.

Ele é Lin McAdams (James Stewart), um caubói sem casa, acostumado a viajar sem parar pelas grandes pradarias, junto com o parceiro Waco Johnny Dean (Dan Duryea). Lin é um homem remoído pelo ódio e pelo desejo de vingança. Ele aporta em Dodge City, em 1876, à procura de um inimigo, que reconhece na figura de Dutch Henry Brown (Stephen McNally). O nome do vilão é falso, mas o resto é conhecido; os dois quase se esmurram ao ver-se pela primeira vez, em um bar. Logo ambos estão disputando o lendário e caríssimo rifle do título, em um concurso de tiro ao alvo.

Lin vence a disputa, após uma contagiante briga cabeça-a-cabeça com o inimigo, mas não fica com a arma durante muito tempo. Ele é emboscado no hotel por Dutch, que foge da cidade carregando o rifle que onze entre dez pistoleiros dariam um braço para ter. Passa, então, a ser perseguido por Lin, muito mais por um motivo que permanece um enigma para o espectador, e pertence ao passado em comum de ambos, do que pela arma. O filme não acompanha exatamente a trajetória de Lin, mas sim a do rifle, que troca de mãos várias vezes durante uma jornada imprevisível e excitante.

Um ponto que chama a atenção de imediato no filme é a maneira como Anthony Mann trata a mitologia do Velho Oeste. A mítica Dodge City, por exemplo, não é o templo de segurança que reza a lenda – senão, como um bandido como Dutch teria conseguido roubar Lin e fugir ileso? Da mesma forma, o xerife da cidade, o lendário Wyatt Earp, é retratado pelo filme como um homem distraído, que se apóia mais na aura mítica de que desfruta para se impor aos pistoleiros do que pela habilidade no gatilho, uma fama que jamais tem a oportunidade de comprovar. Em outras palavras, Anthony Mann foi o primeiro cineasta a questionar, ainda que de forma sutil, os mitos do Velho Oeste – e isso não é pouco.

Após lançado, “Winchester 73” ganhou fama por ter um dos pioneiros do chamado western psicológico, filão do gênero caracterizado pela composição de personagens mais densos e profundos do que o comum. É verdade. Lin McAdams pode e deve ser visto como um precursor do Ethan Edwards, de John Wayne, no futuro clássico “Rastros do Ódio”, outra história de vingança cometida por um homem solitário e amargo. Mesmo fora do faroeste, “Winchester 73” deixou frutos – o que dizer, por exemplo, de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, o primeiro e melhor filme do inglês Guy Ritchie, que acompanha o paradeiro de um par de armas valiosas nas mãos de uma série de personagens do submundo londrino? O recado é claro: “Winchester 73” pode ser relativamente desconhecido, mas permanece como um tesouro cinematográfico para cinéfilos de bom gosto.

O DVD do filme foi lançado no Brasil pelo selo Classic Line. O disco contém apenas o filme, preservando o formato da imagem (standard 4×3) e com som de qualidade razoável (Dolby Digital 2.0). É importante ressaltar que o lançamento nos EUA, da Universal, apresenta um extra interessante e ausente do disco brasileiro: um comentário em áudio, em formato de entrevista, com o ator James Stewart, gravado em 1989.

– Winchester 73 (EUA, 1950)
Direção: Anthony Mann
Elenco: James Stewart, Shelley Winters, Dan Duryea, Stephen McNally
Duração: 92 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »