Wolf Creek – Viagem ao Inferno

23/05/2006 | Categoria: Críticas

Pequeno filme australiano aposta no realismo para narrar um conto malvado de terror

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Os melhores filmes de terror são aqueles que deixam os espectadores com a sensação de que os acontecimentos vistos na tela poderiam estar acontecendo com eles. Foi partindo desse princípio que o cineasta australiano Greg McLean concebeu a história de “Wolf Creek – Viagem ao Inferno” (Austrália, 2005), um thriller de baixo orçamento que conta uma história simples, cruel e perturbadora sobre três jovens atacados por um maníaco de aparência tranqüila. O grande sucesso do filme no país natal acabou por garantir a distribuição internacional, o que é muito bom, pois é sempre bacana ver produções insignificantes e despretensiosas atraindo a atenção de grandes platéias.

“Wolf Creek” é um filme levemente baseado em fatos reais. Durante a década de 1990, pelo menos três pessoas foram presas, na Austrália, sob a acusação de assassinar mochileiros com requintes de crueldade e sem nenhum motivo aparente. Eram serial killers que atuaram durante anos, em diferentes lugares do deserto australiano, matando rapazes e moças sem que fossem descobertos. Baseado nos três casos, Greg McLean criou um assassino fictício e imaginou como teria acontecido um esses desaparecimentos, com riqueza de detalhes e muita crueldade.

A grande inspiração de “Wolf Creek” é outro filme independente que fez grande sucesso: “A Bruxa de Blair”. Isso fica evidente já a partir dos primeiros segundos de projeção, com um letreiro informando que 90 mil pessoas desaparecem, todos os anos, na Austrália. Ao todo, 90% desse pessoal voltam para casa. Nunca mais se ouve falar dos demais. “Wolf Creek” anuncia, então, que vai mostrar uma dessas exceções misteriosas. E nos apresenta a três jovens mochileiros: Ben (Nathan Phillips), Liz (Cassandra McGrath) e Kristy (Kerstie Morassi).

O rapaz é morador de Sidney. As duas moças são de Londres, na Inglaterra, e conheceram Ben durante a visita ao país dos cangurus. Eles decidem fazer uma viagem de carro ao interior do deserto australiano, com a intenção de conhecer as paisagens exóticas do lugar e farrear um bocado, em acampamentos improvisados movidos a álcool e música. Um programa normal para jovens na faixa dos 20 anos. A abertura promissora mostra os preparativos da viagem ao som de um blues eletrificado. Em outras palavras, trata-se de um road movie de terror. O ritmo do filme é lento e a atmosfera vai progressivamente se tornando claustrofóbica.

A primeira metade de “Wolf Creek” é dedicada à apresentação dos personagens. Funciona muito bem, pois faz a platéia conhecer os gostos e as expectativas de cada um para o futuro. De certa forma, esse trecho do filme é desconfortável, pois já sabemos de antemão que aquele trio vai ser atacado por alguém. Assistir aos últimos momentos das vidas de algumas pessoas é algo que provoca sempre um sentimento melancólico. Além disso, o cineasta dá um jeito de incluir pequenas discussões entre eles e até o encontro com um grupo de caipiras que parece bem ameaçador, o que ajuda a ir aumentando o clima opressivo.

Algumas pessoas que viram “Wolf Creek” comparam o filme australiano a “O Massacre das Serra Elétrica”, pela semelhança do enredo. O longa-metragem de Tobe Hopper mostra um grupo de jovens encontrando uma família muito doida, que parte para o massacre sem muita cerimônia. No entanto, Greg McLean evita maiores comparações, pois aposta no realismo extremo, realizando um filme que não segue a habitual seqüência discussão-fuga-morte, repetida em alguns ciclos de sangue até o final.

Nada disso. Aqui, tudo é ultra-realista, e quando o bicho finalmente pega para os três jovens, o terror não termina rápido, e nem numa explosão de violência. Quando o maníaco (John Jarratt) entra em ação, a dor dos três personagens pode quase ser sentida pela platéia, amplificada pela frieza e pela crueldade com que o sujeito trata os jovens. São poucas as cenas de violência gráfica, mas esses momentos são capazes de provocar um frio na espinha (expressão que poucas vezes soa tão literal e agoniante quanto neste filme) dos espectadores mais exigentes. “Wolf Creek” não é “Sexta-Feira 13”, e perturba muito mais porque o assassino é uma pessoa absolutamente comum, que poderia existir em qualquer lugar do mundo.

Greg McLean utilizou os preceitos do movimento Dogma 95 para filmar “Wolf Creek”: iluminação natural, câmera na mão, nenhum efeito especial. Desse modo, a técnica pobre desaparece por trás de uma história assustadoramente real, palpável, que acontece de verdade com gente de carne e osso. O efeito dessa simplicidade em um filme de terror é devastador para a audiência. “Wolf Creek” nos lembra mais uma vez que o número de mortes ou de cenas violentas não faz um filme necessariamente assustador. Com pouco sangue e muito realismo, McLean (que além de dirigir também produziu e escreveu o roteiro) filmou um pequeno conto malvado que perturba.

O DVD é fraco. O filme está com cortes laterais na imagem (formato 4:3), tem som OK (Dolby Digital 5.1) e, entre os extras, galeria de entrevistas com a equipe, com legendas em português. A distribuidora é a Imagem Filmes.

– Wolf Creek – Viagem ao Inferno (Austrália, 2005)
Direção: Greg McLean
Elenco: John Jarratt, Cassandra Magrath, Nathan Phillips, Kerstie Morassi
Duração: 99 minutos

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