Woyzeck

12/04/2007 | Categoria: Críticas

Werner Herzog adapta famosa peça teatral alemão em surto criativo que reproduz sensações do protagonista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O cineasta alemão Werner Herzog é conhecido pelos métodos inusitados com que aborda todas as suas produções, seja no gênero documentário ou em filmes ficcionais. Baseado numa das peças teatrais mais conhecidas e importantes do romantismo alemão, “Woyzeck” (Alemanha, 1979) surgiu em um surto criativo quase impossível de ser igualado: foi filmado em apenas dezoito dias e editado em quatro. É um longa-metragem duro, difícil, cuja narrativa – composta por apenas 27 takes repletos de silêncio – reproduz com exatidão os sentimentos de opressão e desorientação experimentados pelo protagonista.

O caso da produção do filme bate perfeitamente com a história confusa da peça. O texto original, de Geörg Buchner, foi escrito no século XIX, e demorou décadas a ser decifrado por especialistas na obra do autor, porque não era um texto coeso, e sim um bando de segmentos escritos com tinta fraca. Ou seja, a história nunca passou de um amontoado de notas soltas, quase desconexas, que o dramaturgo pretendia utilizar numa peça, mas nunca levou a cabo a tarefa. Ainda assim, as primeiras montagens foram um sucesso tão grande que o texto acabou por se tornar primordial para entender a nostalgia e a desilusão com o mundo dos homens, características importantes do movimento romântico na Europa.

Na época da produção do longa, em 1976, Herzog vivia uma fase de acerto de contas com a cultura alemã que o antecedeu. Foi durante as filmagens de “Nosferatu”, remake do importante filme da fase expressionista alemã, que o diretor resolveu transformar a peça em filme. Convencido de que a melhor forma de capturar a urgência e a angústia do protagonista era eliminando o processo detalhista que costuma acompanhar a pré-produção de um filme, Herzog simplesmente decidiu improvisar tudo. Usou o mesmo elenco, a mesma equipe técnica, os cenários e figurinos de “Nosferatu”, e começou a registrar o texto da peça, em película, apenas cinco dias depois de completar as filmagens do filme de horror, numa vila medieval da República Tcheca.

O resultado é uma obra idiossincrática, irregular, de mise-en-scéne fundamentalmente teatral. A história é focalizada sobre o soldado Franz Woyzeck (Klaus Kinski), homem do povo que é humilhado pelo chefe no quartel, traído pela esposa e submetido a uma experiência científica bizarra pelo médico da aldeia: comer apenas ervilhas durante meses a fio. Exausto pelas filmagens duras de “Nosferatu”, Kinski utiliza este cansaço para compor com perfeição o quadro de esgotamento nervoso vivido pelo personagem. O método de Herzog, constituído de longas tomadas sem cortes e interpretações infladas, quase teatrais, faz o resto. O resultado é uma demonstração cabal do tumulto interior que é marca registrada deste cineasta genial.

Um dos menos conhecidos trabalho da fase mais febril de Herzog, “Woyzeck” não foi lançado em DVD no Brasil. A edição norte-americana, da Anchor Bay, tem qualidade apenas razoável de imagem (wide 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0). Não há extras além do trailer obrigatório e de uma galeria de fotos.

– Woyzeck (Alemanha, 1979)
Direção: Werner Herzog
Elenco: Klaus Kinski, Eva Mattes, Wolfgang Reichmann, Willy Semmelrogge
Duração: 82 minutos

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