X-Men – O Confronto Final

05/09/2006 | Categoria: Críticas

Terceiro exemplar da franquia tem ótimas cenas de ação e choca a platéia matando gente importante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Apreensão, desconfiança, ceticismo. Eram estes os sentimentos dos fãs enquanto aguardavam o lançamento do terceiro exemplar da franquia cinematográfica dos X-Men. Por causa da mudança na cadeira de diretor, além das brigas declaradas que assolaram os bastidores do longa-metragem, não foram poucos os cinéfilos que deixaram de acreditar na possibilidade de “X-Men – O Confronto Final” (X-Men – The Last Stand, EUA, 2006) ser um bom filme. Por sorte, no cinema nem sempre – ou quase nunca – as expectativas se confirmam, e o pouco destacado cineasta Brett Ratner foi capaz de entregar uma das melhores aventuras da temporada de 2006.

Quase todos os cinemaníacos conhecem as confusões nos bastidores do terceiro “X-Men”. Primeiro, o diretor das duas primeiras partes, Bryan Singer, abandonou a Fox para dirigir o novo filme do Homem de Aço para a Warner. O inglês Matthew Vaughn (“Nem Tudo é o que Parece”) assumiu, mas desistiu nove semanas antes de começarem as gravações. Foi a vez de Ratner entrar no barco às pressas e correr para reescrever o roteiro a tempo. Ele ainda teve que driblar as pressões da atriz Halle Berry, que só assinou contrato para o filme depois que lhe prometeram uma participação de maior destaque na história. Mesmo assim, conseguiu cumprir o cronograma sem estourar o orçamento monstro de US$ 150 milhões.

Uma boa olhada em “X-Men – O Confronto Final” mostra que Brett Ratner tomou uma decisão acertada: como medida de segurança, ele adotou a mesma fórmula narrativa desenvolvida nos dois primeiros filmes, dedicando-se a aprimorá-la. Desta forma, o filme repisa e enriquece o mesmo tema dos outros dois, abordando a questão da diferença, do preconceito, com inteligência, e fazendo entretenimento com subtexto mais rico do que o normal. Ratner também não mexeu no que vinha dando certo e assentou o filme numa estrutura de batalha entre três lados: os mutantes pacíficos, liderados pelo professor Xavier (Patrick Stewart); os mutantes guerreiros, sob o manto de Magneto (Ian McKellen); e a humanidade comum, cheia de insegurança.

A maior ousadia do diretor foi a coragem de matar ou retirar os poderes de vários personagens importantes, em seqüências capazes de deixar muito fã chocado. Essa estratégia funciona a favor do filme, pois a partir da primeira morte surpreendente, a platéia percebe que pode esperar qualquer coisa da trama, inclusive protagonistas mortos, o que de fato ocorre. Além disso, Ratner aposta em duas tramas paralelas que convergem para uma única história. Mal usado, o recurso poderia criar um filme irregular, mas não é o caso; as duas histórias se entrelaçam naturalmente, de maneira fluida, desembocando em um clímax literalmente explosivo, pontuadas por seqüências de ação rápidas e incisivas.

O enredo parece um reflexo em negativo do primeiro filme da franquia, em que Magneto tentava transformar os humanos em mutantes, com a ajuda de um superdotado especial. Aqui, o movimento é invertido: os humanos desenvolvem um soro que cura mutantes a partir do DNA de um deles. Além disso, a batalha final, nos dois filmes, ocorre em cartões postais dos EUA (a Estátua da Liberdade deu lugar à Golden Gate, em San Francisco). Em uma das pontas da trama, observamos a ressurreição de Jean Grey (Famke Jansen), morta no final de “X-Men 2”, como a Fênix, mutante poderosíssima que é uma espécie de lado negro da dócil heroína de outrora. O personagem tem grande importância na saga do grupo nos quadrinhos. Do outro lado da trama, um laboratório farmacêutico anuncia que conseguiu desenvolver uma vacina para suprimir o chamado gene X, responsável pelas habilidades especiais dos mutantes. Na prática, o medicamento torna os mutantes pessoas normais. Isso gera reações inflamadas e muita discussão.

É desse debate que vem a questão ética mais interessante do filme. Parte dos superdotados, como Vampira (Anna Paquin), fica feliz com a notícia. Eles acreditam que a vacina poderá ajudá-los a levar uma vida normal. Outros, porém, se sentem vítimas de preconceito e não aceitam a existência de uma vacina para uma condição que não é doença (“Doença? Nós somos a cura!”, brada Magneto). No caso, os mutantes funcionam como metáforas para qualquer minoria. Troque o vocábulo “mutante” por “homossexual” ou “negro”, e você tem o verdadeiro tema do filme: a dificuldade que as pessoas têm, mesmo dentro de democracias bem desenvolvidas, de aceitar diferenças.

É interessante perceber, também, que a motivação do cientista criador da vacina não é comercial ou política, mas pessoal, já que ele tem um filho mutante e teve que assistir, chocado, a horríveis tentativas de automutilação cometidas pela criança que mais amava. É um personagem tremendamente humano. Esse tipo de comentário sutil que o filme faz sobre a questão da diferença, que pontua toda a trama, dá ressonância moral à trama e enriquece a experiência de “X-Men – O Confronto Final”, transformando-o – como toda a série – em algo mais do que um simples filme de ação.

Com relação ao enredo, uma grande sacada é o acréscimo de vários novos personagens, como Fera (Kelsey Grammer), Anjo (Warren Worthington), Kitty Pryde (Ellen Page), Colossus (Daniel Cudmore) e Fanático (Vinnie Jones). Ao contrário do que pode parecer, o grande número de mutantes não embaça a narrativa. Brett Ratner consegue inserir todos eles no enredo sem grande esforço, pois eles trabalham para a trama, e não o contrário. O único detalhe que parece forçado é a liderança de Tempestade (Halle Berry), uma personagem que não foi muito participativa nos dois primeiros filmes e de repente acabou alçada ao primeiro escalão mutante. Claro que isso foi causado pelas exigências da intérprete, que só topou assinar para a continuação se a heroína tivesse mais tempo de tela.

O grande número de mutantes em cena possibilitou ao diretor criar cenas de ação ainda mais imprevisíveis e excitantes. Na verdade, trata-se de um aprimoramento das batalhas dos dois primeiros filmes: na hora da ação, cada mutante é obrigado a improvisar e utilizar os poderes que possui, o que impede o público de antecipar como a cena vai se suceder. Isso é muito bom. Exemplos excelentes da estratégia estão na simulação de batalha que abre o filme e, claro, no confronto final que dá o título em português à produção, quando os três lados do conflito quebram o pau entre si.

Mesmo com tantos acertos, “X-Men – O Confronto Final” tem alguns pecados. O maior problema está nos diálogos piegas construídos para ilustrar os momentos de maior voltagem dramática. O encontro entre Ciclope (James Marsden) e a namorada Jean é um bom exemplo, e o momento mais crítico do confronto apocalíptico entre o professor Xavier e a Fênix também sofre do mesmo mal. Esta última cena é o grande momento do filme, incluindo uma fantástica luta entre Wolverine (Hugh Jackman) e Fanático, que destroem uma casa enquanto os dois mutantes telepáticos ficam frente e frente. Mas as palavras adocicadas quase estragam a mágica.

Outro problema está na ausência do senso de humor dos dois primeiros longas-metragens, já que nem mesmo as tiradas politicamente incorretas de Wolverine funcionam a contento. Noturno, o melhor e mais interessante personagem de “X-Men 2”, ficou de fora e faz muita falta. E o final, apesar da excelência dos efeitos visuais (o momento em que a Golden Gate é arrancada para fornecer uma ligação entre o continente e a ilha de Alcatraz, em San Francisco, tem lugar reservado entre os grandes momentos do cinema de ação em 2006), é um tremendo lugar-comum.

De qualquer forma, o filme encerra com inteligência a primeira fase dos X-Men no cinema. E a bagunça criada nos dois lados dos mutantes, com o desaaprecimento de personagens importantes, sinaliza que as próximas aventuras dos mutantes na telona poderão encontrar os X-Men com equipes renovadas, compostas por novos personagens. E isso, além de deixar as produções mais baratas (já que atores de renome serão trocados por gente nova, com salários menores), é uma evidência concreta de renovação. Ou seja, bom sinal.

O DVD para locação, da Fox, tem apenas o filme, com boa qualidade de imagem (widescreen 2.40:1 anamórfico) e som (Dolby Digital 5.1).

– X-Men – O Confronto Final (X-Men – The Last Stand, EUA, 2006)
Direção: Brett Ratner
Elenco: Hugh Jackman, Halle Berry, Ian McKellen, Patrick Stewart
Duração: 103 minutos

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