X-Men Origens: Wolverine

13/11/2009 | Categoria: Críticas

Aventura-solo do mutante das garras de metal deixa de lado subtexto político, mas cumpre aquilo que promete no território do cinema de ação

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A escalação do ator australiano Hugh Jackman como Wolverine, no primeiro exemplar da franquia “X-Men” (2000), funciona como ótimo exemplo do chamado “efeito borboleta” (a interferência do acaso na vida das pessoas). Ele havia testado para o papel, que acabou nas mãos de outro ator, Dougray Scott. Por causa de um ombro deslocado, contudo, Scott teve que ser substituído e Jackman, que cantava e dançava em um musical nos palcos da Broadway na ocasião, tirou a sorte grande. Sua versão sarcástica e musculosa de Wolverine, fiel à imagem do personagens nos quadrinhos, cativou os fãs e o transformou em astro internacional.

Primeiro longa-metragem da franquia após a trilogia cinematográfica original, “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, EUA, 2009) cumpre exatamente aquilo que o título promete: mergulha no passado e explica o surgimento do mais amado mutante da Marvel. Obviamente, a química impecável entre ator e personagem, vitaminada pela aprovação unânime dos admiradores dos quadrinhos, teve influência decisiva na escolha de Wolverine para iniciar um novo ciclo de filmes dos X-Men. Este novo ciclo, que deve narrar o surgimento de cada um dos mutantes mais populares entre os fãs, foi concebido em um formato de produção que torna os custos mais aceitáveis do que os gigantescos orçamentos propostos para o segundo e o terceiro filme da série.

O problema da grana, aliás, foi mera conseqüência do sucesso do primeiro filme. Com os salários dos atores inflados por causa da popularidade adquirida, as negociações nos contratos seguintes se tornaram mais problemáticas. A Marvellogo percebeu que não seria possível escalar oito ou dez atores com mega-salários a cada novo filme dos X-Men. Como solucionar o impasse? Substituindo o cardápio completo de mutantes a cada novo filme, que passa a ter um protagonista solo (este sim, com salário devidamente inchado). Ou seja, um formato que permitisse a produção de cada longa-metragem por valores entre US$ 60 e US$ 100 milhões, aceitáveis para filmes desse porte.

Tantas informações deixam evidente que as questões criativas ficam em segundo plano, quando se trata de um blockbuster para multidões de garotos na faixa dos 16 anos. O desafio do diretor Gavin Hood, portanto, seria entregar um filme para eles (muitas cenas de ação física, humor sarcástico, efeitos especiais caprichados, aparições rápidas de mutantes famosos) e ainda assim manter a veia criativa apresentada na trilogia original, notadamente nos dois filmes dirigidos por Bryan Singer, certamente dois dos melhores filmes de super-heróis já feitos no cinema. Uma tarefa que Hood alcança apenas parcialmente. Sim, “Wolverine” capta bem a personalidade do herói, tem um par de seqüências de ação instigantes e apresenta as habilidades de alguns novos mutantes. No processo, contudo, desapareceu o subtexto adulto que discutia questões de preconceito. Sobrou, apenas, uma aventura juvenil bem realizada, capitaneada por um ator talentoso e extremamente à vontade. Nada mais.

Sob certo aspecto, existe uma ligação direta entre este filme e “X2” (2003), o melhor longa dos X-men. Naquela obra, um Wolverine desmemoriado vivia uma aventura paralela em busca de suas origens, chegando inclusive a visitar as instalações militares onde havia sofrido dolorosos implantes de metal. O roteiro de “X-Men Origens: Wolverine” não poupa esforços para dirimir todas as dúvidas mantidas após a conclusão da aventura de 2003. As lacunas deixadas por aquela narrativa (inclusive o motivo pelo qual o mutante das garras de metal não lembra de nada do próprio passado) são preenchidas com lógica perfeita. Este é o aspecto mais positivo do roteiro, e um deleite para os fãs de longa data dos quadrinhos.

Da mesma forma, merece aplauso a escalação de Liev Schreiber para o papel crucial do mutante-irmão de Wolverine (Dente-de-Sabre). Sabe-se que o próprio Hugh Jackman foi o responsável pela escolha feliz – como produtor executivo do longa, ele tinha direito a tomar decisões criativas, e o fez colocando um amigo da vida real no papel do irmão de sangue e principal adversário. A química entre os dois atores faz do primeiro ato a melhor coisa do filme – uma longa seqüência que mostra o envolvimento de ambos em conflitos bélicos desde o século XIX, e vai ampliando a distância emocional entre eles, até a ruptura completa durante a Guerra do Vietnã. A direção de Gavin Hood abre espaço para os atores brilharem sem deixar de caprichar na parte visual, com citações e inúmeros filmes de guerra importantes (“O Resgate do Soldado Ryan”).

A partir daí, o filme se transforma numa aventura mais ou menos comum, com uma subtrama romântica improvável mas bem encaixada na trama, e pelo menos uma cena realmente empolgante: a visita de Wolverine à cidade de Nova Orleans (EUA), em busca de um mutante especialista em trapacear no jogo de cartas – Gambit é talvez o segundo personagem mais querido dos leitores dos quadrinhos, atrás apenas do próprio Wolverine. Aliás, o nome indígena do personagem também ganha uma explicação convincente. No geral, embora haja as inevitáveis seqüências estilo “já-vi-isso-antes-milhões-de-vezes”, a aventura-solo do mutante fã de charutos cumpre bem o papel de entreter com certa dose de inteligência.

O DVD simples da Fox traz o filme com enquadramento original (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1), mais dois comentários em áudio com o diretor (sozinho) e com dois produtores. O disco duplo traz dois pequenos documentários, cenas cortadas e trailers.

– X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, EUA, 2009)
Direção: Gavin Hood
Elenco: Hugh Jackman, Liev Schreiber, Danny Huston, Lynn Collins
Duração: 107 minutos

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