Xeque-Mate

10/01/2007 | Categoria: Críticas

Diálogos rápidos e cínicos são destaque em filme pop que busca inspiração no gênero noir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Todos nós sabemos que a História se repete. Em pleno século XXI, cinco décadas depois de praticamente desaparecer após um período áureo em Hollywood, o gênero noir vive uma interessante revitalização. Há de tudo, desde homenagens metalingüísticas (“Beijos e Tiros”) até estilizações pós-modernas (“Sin City”). O caso de “Xeque-Mate” (Lucky Number Slevin, EUA, 2006) é curioso, pois o filme do escocês Paul McGuigan mantém à distância o característico visual de fortes contrastes do noir, embora abrace com força os diálogos cínicos que sempre foram um ponto forte do gênero.

Muitos críticos observaram que o longa-metragem apresenta influência clara da obra de Quentin Tarantino (fala-se bastante de “Pulp Fiction”, embora o filme tenha mais elementos de “Cães de Aluguel”). E é verdade, mas não podemos esquecer que Tarantino também sempre bebeu da fonte noir, especialmente no que tange aos diálogos, um dos pontos fortes de “Xeque-Mate”. Por outro lado, o filme é tão fortemente estilizado que chama mais atenção para sua direção pop (telas divididas, cronologia embaralhada) do que para a trama bem bolada. Ainda assim, apesar de lhe faltar sutileza no ato de berrar suas qualidades para o espectador, é um thriller acima da média.

Paul McGuigan é um desses cineastas modernos que dá mais importância ao modo de contar uma história do que à história em si. A tática narrativa que ele usa lembra um jogador solucionando um quebra-cabeça: apresenta todas as peças à platéia logo no começo, mas fora de sua ordem natural, de modo que elas pareçam desconexas. Aos poucos, então, vai revelando como elas se relacionam entre si. É uma opção engenhosa, mas infelizmente tem sido tão utilizada no cinema alternativo norte-americano que já se tornou uma fórmula – e filmes formulaicos sempre possuem um leve odor de mofo, de coisa velha. “Xeque-Mate” é OK, mas segue uma trilha que já foi aberta e explorada muitas vezes, e isso acaba depondo contra o longa.

O personagem principal é um homem comum que acaba de passar por uma série de desgraças. Slevin Kelevra (Josh Hartnett) perdeu casa, emprego e namorada. Tenta se recuperar viajando para uma temporada com um colega de infância, mas o amigo está desaparecido e Slevin acaba sendo confundido com ele. O sumido tem uma dívida com dois gângsteres rivais (Morgan Freeman e Ben Kingsley), e ambos tentam persuadi-lo a fazer trabalhos sujos, sem saber que Slevin não é o devedor. O rapaz ainda precisa lidar com um matador profissional (Bruce Willis) e um detetive desconfiado (Stanley Tucci), e conta apenas com a ajuda de uma vizinha curiosa (Lucy Liu).

“Xeque-Mate” é o tipo de filme que exige atenção máxima do espectador, pois todos os detalhes, mesmo os mais insignificantes, terão importância para que se possa compreender o quadro completo. Os diálogos estão entre os destaques: são abundantes (às vezes até excessivos), longos, rápidos e cheios do cinismo blasé roubado diretamente dos inesquecíveis personagens de Humphrey Bogart, nos anos 1940. Outra boa sacada é a direção de arte de François Séguin, que usa papéis de parede com estampas exóticas e interiores repletos de decoração yuppie/chique/supercolorida para “informar” o espectador que a ação se passa, na verdade, em um universo paralelo, regido por leis que não são as mesmas a que nós estamos submetidos, do lado de cá da tela. Ou seja, é só um filme, uma brincadeira de mágico.

Incorporando este espírito de diversão descerebrada está o elenco numeroso e cheio de rostos conhecidos. Bruce Willis encarna pela enésima vez o tipo durão com torcicolo que sabe fazer tão bem, enquanto Morgan Freeman e Ben Kingsley interpretam os gângsteres rivais com certo ar de preguiça. Stanley Tucci mais uma vez é subestimado, Danny Aiello aparece em uma ponta rápida, e Lucy Liu é dona de uma das frases mais engraçadas do longa (“sou muito baixa para a minha altura”). Quanto a Josh Hartnett, é interessante perceber que o rapaz anda emulando os tiques de Brad Pitt melhor do que o próprio. Em resumo, “Xeque-Mate” é um thriller divertido e escapista que funciona como um saco de pipocas: é gostoso, mas tem sabor muito conhecido, e a fome volta rápido.

O DVD é um lançamento da Imagem Filmes. O disco é simples e traz cenas cortadas e um making of como extras. O filme comparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1).

– Xeque-Mate (Lucky Number Slevin, EUA, 2006)
Direção: Paul McGuigan
Elenco: Josh Hartnett, Bruce Willis, Lucy Liu, Morgan Freeman, Bem Kingsley
Duração: 109 minutos

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