XXY

11/06/2008 | Categoria: Críticas

Filme argentino trata a difícil história do despertar da sexualidade de um hermafrodita com delicadeza e inteligência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O tema do despertar da sexualidade em adolescentes foi, durante muito tempo, tratado de forma estereotipada e superficial no cinema. Nos grandes estúdios de Hollywood, por exemplo, ele quase sempre foi trabalhado em comédias grosseiras que invariavelmente mostravam garotos magricelas de óculos tentando desesperadamente perder a virgindade com mulheres peitudas que nem olhavam para eles. Pois é da Argentina que surge uma abordagem diferente, muito mais ousada, complexa e delicada. “XXY” (Argentina/França/Espanha, 2007) aborda, como o nome sugere, o drama de um hermafrodita de 15 anos.

Desde criança, Alex (Inés Efron) foi tratada pelos pais como uma menina. Ao entrar na adolescência, passou a tomar hormônios que lhe garantiam uma aparência feminina, com rosto sem pêlos e seios. O problema é que ninguém jamais pediu a opinião de Alex (observe como o nome foi escolhido pelos pais justamente pela ambigüidade, pois serve tanto para um homem quanto para uma mulher) sobre o assunto. Quando o filme começa, ela tem 15 anos. Se essa é uma fase em que até adolescentes normais têm conflitos acerca da sexualidade, imagine o turbilhão emocional em que se encontra a cabeça de Alex. O filme exprime isso visualmente numa cena não muito sutil, em que a adolescente, deitada na cama, afaga um camaleão de estimação.

A garota (ou garoto?) vive no litoral argentino, numa cidade pequena e afastada. O pai, um homem introvertido (Ricardo Darín), trabalha como biólogo marinho e estuda a migração das tartarugas, mas a razão de a família viver tão longe é apenas uma: proporcionar a Alex uma adolescência sossegada, longe de fuxicos e boatos. É neste contexto que uma tia de Alex chega ao lugar para passar as férias. O verdadeiro motivo da visita, porém, é um chamado desesperado feito pela mãe da adolescente. Acontece que o marido desta tia é cirurgião e pode, desde que os pais e a menina concordem, fazer uma cirurgia que transforme definitivamente Alex em menina.

A narrativa tranqüila e silenciosa dá espaço generoso aos atores para que desenvolvam os personagens se forma verdadeiramente cinematográfica, através de ações e não de diálogos. O elenco, aliás, está excelente – e a escolha da carismática jovem Inés Efron para o papel complexo se mostra acertada, já que ela equilibra carisma e energia juvenil com segurança de veterana, especialmente nas cenas em que contracena com Ricardo Darín, o maior ator argentino da atualidade. Mais conhecido pelo potencial cômico, aqui ele confirma mais uma vez a versatilidade, interpretando de forma extremamente contida o sofrimento do pai que quer ajudar a filha, mas não sabe como.

Aliás, uma das grandes sacadas da diretora Lucía Puenzo é contar a história de forma lenta, dosando as informações sobre os personagens. Sem jamais pronunciar a palavra “hermafrodita”, ela criar enorme expectativa no público em relação ao biólogo, enfatizando o medo que os demais personagens têm da reação dele quando souber os verdadeiros motivos da visita da cunhada. No meio do filme, porém, Puenzo realiza uma sensacional inversão de expectativas, quando finalmente revela as motivações ocultas de cada personagem adulto, no final do segundo ato da história, e muda completamente a forma como os vemos.

Enquanto isso, em paralelo, Alex e o primo da mesma idade protagonizam uma subtrama que amplia e ecoa, em diferentes direções, a temática da descoberta da sexualidade. Isso tudo com direito a uma cena de sexo das mais orgânicas, viscerais e surpreendentes já vistas no cinema argentino. O resultado é uma pequena e singela obra-prima, que honra a tradição do cinema argentino contemporâneo ao contar uma história universal, focada em personagens sólidos e em uma narrativa simples e sem enfeites. Muito bom.

O DVD da Imovision contém apenas o filme, sem extras dignos de nota. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) é boa, assim como o áudio (Dolby Digital 2.0).

– XXY (Argentina/França/Espanha, 2007)
Direção: Lucía Puenzo
Elenco: Inés Efron, Ricardo Darín, Valeria Bertuccelli, Germán Palacios
Duração: 86 minutos

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