Year Of The Horse

30/09/2003 | Categoria: Críticas

Neil Young encara a estrada com a banda Crazy Horse e Jim Jarmush filma tudo com a câmera na mão

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Neil Young envelheceu, mas continua longe de enferrujar. Mais uma prova dessa afirmação pode ser encontrada em DVD, com um registro bem ao estilo do guitarrista: displiscente, espontâneo e ácido. Year of the Horse (idem, EUA, 1997) é um documentário de excelente qualidade, que enfoca a turnê feita pelo guitarrista canadense e sua legendária banda de apoio, a Crazy Horse, no ano anterior. E atenção, cinéfilos desinteressados em boa música.Antes de desistir dessa resenha, saibam que o cineasta responsável pelo documentário não é qualquer um – trata-se do norte-americano Jim Jarmusch, um dos cineastas independentes mais bacanas da atualidade.

A reunião Jarmusch + Young gera uma produto de muita qualidade, algo que o espectador menos atento jamais esperaria encontrar jogado nas prateleiras de uma banca de gibis, onde o disco foi lançado no Brasil. O DVD, como é possível antever, não se resume a capturar a banda do palco – embora o faça em muitos momentos, todos brilhantes. Há uma série de entrevistas e conversas de bastidores, numa compilação de momentos raros que flagram o grupo em diferentes estágios da carreira, de 1976 ao ano em que a maior parte das cenas foi gravada.

Entre essas seqüências, algumas impagáveis: num momento, a câmera Super 8 flagra Jarmusch e Young conversando cinicamente, dentro do ônibus da turnê, sobre a ira de Deus no Velho Testamento. Noutro, o guitarrista Manuel Francisco Sampredo, o Poncho, se irrita com Jarmusch e o manda parar de gravar: “você nunca vai saber o que é o Crazy Horse fazendo perguntas, menino mimado de Nova Iorque”. Se não é suficiente, o espectador ainda pode espiar Neil dando um esporro espetacular no baixista Billy Talbot, depois de um show, ou ver o quarteto fumando maconha nos camarins de um show, sem o menor pudor, em imagens de 1976.

Intercaladas com essas cenas hilariantes, é possível ver o Crazy Horse no palco, e entender porque Neil Young é idolatrado por gente de todas as idades. Somente as interpretações longas, lentas, repletas de improvisos, microfonia ensurdecedora e solos lancinantes das arrasadoras “Tonight‘s The Night” e “Like a Hurricane”, dois clássicos do rock‘n‘roll americano, já valeriam o disco, mas há bem mais do que isso, como a pouco conhecida pérola “Sedan Delivery”, de 1977. Poucas bandas no mundo geram tanta energia bruta quanto a Crazy Horse, no palco. Quem lembra do show do Rock In Rio de 2000 sabe disso.

Do ponto de vista cinematográfico, a proposta do documentário casa perfeitamente com a natureza crua do som de Neil Young. Jim Jarmusch filmou quase tudo em Super 8, com câmeras manuais, e umas poucas imagens de arquivo em 16mm. O resultado é um filme de imagem granulada, tremida, abrasiva, tosca, como não se vê nos cinemas normais. E isso não é defeito, mas qualidade. Junte ao material um som digital de boa mixagem e você fica com um DVD genial nas mãos. Aceite o conselho que Jarmusch dá logo no início do filme (‘crank it up’, aumente o som!) e vá fundo na viagem.

– Year of the Horse (Idem, EUA, 1997)
Direção: Jim Jarmusch
Elenco: Neil Young e banda Crazy Horse
Duração: 107 minutos

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