Zaroff – O Caçador de Vidas

16/04/2008 | Categoria: Críticas

Apesar do elenco inexpressivo, aventura de 1932 marcou época pelo excelente uso de locações reais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A dupla Ernest B. Shoedsack (diretor) e Merian C. Cooper (produtor) adorava a natureza selvagem. Atuando em Hollywood na fase em que o cinema falado dava os primeiros passos, os dois decidiram que a melhor contribuição que dariam à arte cinematográfica seria tornar possível as filmagens em ambientes inóspitos, como selvas e mar aberto. Carregar o pesado e caro equipamento de filmagens profissionais para o mato ou para o oceano era difícil e arriscado, mas as duas locações estão presentes na intrigante história de “Zaroff – O Caçador de Vidas” (The Most Dangerous Game, EUA, 1932), espécie de ensaio de luxo que os dois realizaram simultaneamente à grande obra-prima de ambos, o primeiro “King Kong” (1933).

Lançado poucos meses antes da extraordinária aventura do macaco gigante, “Zaroff” acabou ganhando a obscuridade, eclipsado pela fama instantânea do irmão mais longo. Cultuado por uma legião reduzida de cinéfilos, o longa-metragem acabaria ganhando notoriedade a partir dos anos 1970, quando investigações policiais nos EUA demonstraram que a obra inspirou os crimes do Zodíaco, misterioso serial killer que agiu na região de San Francisco e nunca foi capturado. Uma das cartas enviadas a um jornal pelo assassino serial continha referências ao filme, que contou com a co-direção de Irving Pichel (responsável por trabalhar diretamente com os atores).

A história de “Zaroff” veio de um celebrado folhetim de aventura escrito por Richard Connell. O enredo do filme segue de perto o conto original, cujo protagonista é Bob (Joel McCrea), um renomado caçador. Ele é o único sobrevivente do naufrágio de uma expedição destinada a caçar animais em território selvagem. Depois de nadar para escapar de tubarões, ele vai parar numa ilha onde vive um excêntrico conde russo (Leslie Banks), o Zaroff do título. Aposentado desde a revolução que criou a União Soviética, Zaroff é um apaixonado pela caça – e fica eufórico quando descobre a identidade do náufrago. Com ele vivem um casal de irmãos (Fay Wray e Robert Armstrong, ambos no elenco de “King Kong”) que naufragaram alguns meses antes na mesma região. Juntos, todos vão descobrir que os hábitos de caçador de Zaroff são bem mais insanos e violentos do que poderiam imaginar.

O filme é organizado em três atos bem definidos, cada um acontecendo numa locação diferente: o mar, um castelo e a selva. Espectadores atentos irão observar que a equipe técnica aproveitou muitas locações desta obra no filme mais famoso de um ano depois – a floresta em que se passa a eletrizante caçada no terceiro ato é a mesma, e algumas posições de câmera são repetidas sem pudor (observe a tomada em que os atores atravessam um precipício sobre um tronco de árvore). Os atores contracenaram com animais reais, como crocodilos, e isto dá um ar de realismo raro nos filmes da época. Esta característica também pode ser observada nas seqüências de luta, coreografadas com energia incomum.

Os efeitos especiais (basicamente projeções em uma tela por trás dos atores) são modestos, mas eficientes. Em uma cena particularmente boa, um dos atores se atraca com um cão e cai em um precipício, numa das cenas mais lembradas do filme. O ponto fraco da produção fica por conta do trabalho dos atores, que soa artificial e canastrão. Os trejeitos bêbados de Robert Armstrong não convencem, assim como as caras e bocas de Banks e a inexpressividade completa de Fay Wray, que se limita a gritar como uma maníaca (algo que faria com ainda mais vigor em “King Kong”). Os diálogos, especialmente no segundo ato, também não ajudam muito; são forçados e artificiais. Comparados às qualidades, estes defeitos não chegam a atrapalhar os méritos da produção.

No Brasil, o filme foi lançado pela Magnus Opus. O DVD é simples, sem extras, e a qualidade de imagens (fullscreen 4:3, formato original) e áudio (Dolby Digital 2.0) é apenas razoável. Um texto do historiador Luiz Nazário acompanha o disco.

– Zaroff – O Caçador de Vidas (The Most Dangerous Game, EUA, 1932)
Direção: Irving Pichel e Ernest B. Schoedsack
Elenco: Joel McCrea, Fay Wray, Leslie Banks, Robert Armstrong
Duração: 63 minutos

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