Zodíaco

19/01/2008 | Categoria: Críticas

Mais drama e menos thriller, filme estuda a obsessão e demonstra amadurecimento na carreira de David Fincher

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Para os amantes do cinema de mistério, a simples idéia de ver o cineasta David Fincher no comando de um thriller sobre serial killer é motivo de expectativa alta. Como se sabe, Fincher dirigiu um dos títulos mais inteligentes e apavorantes do gênero – “Seven” (1995) é referência obrigatória para qualquer um que queira mergulhar no estilo. Por isso, é natural que os espectadores imaginem “Zodíaco” (Zodiac, EUA, 2007) como uma espécie de seqüência informal do filme de 1995. Quem cair nesta armadilha, porém, corre sério risco de ficar decepcionado. “Zodíaco” é um belo filme, evidencia uma clara evolução de Fincher como cineasta, mas pouco tem em comum com o maior sucesso da carreira dele.

Nascido em San Francisco, David Fincher tinha apenas sete anos quando o verdadeiro Zodíaco aterrorizou a população da região. Na virada dos anos 1960/70, o assassino serial atacou pelo menos sete pessoas, matando cinco delas e deixando outras duas seriamente feridas. Não foi a violência dos ataques, porém, que o transformou num dos mais famosos serial killers do EUA. O Zodíaco virou lenda porque enviava cartas aos jornais, contendo charadas, alfabetos em código e ameaças, além de desafiar abertamente a Polícia local. Durante várias semanas, a população de San Francisco foi aterrorizada com uma ameaça de ataque a ônibus escolares repleto de criancinhas. Sendo uma dessas crianças, Fincher desenvolveu na ocasião um interesse particular pelo assassino. Este interesse acabou virando combustível para o longa-metragem.

A abordagem do diretor, porém, pende mais para o drama de escala íntima do que para o thriller mirabolante. Há, claro, pontos de contato entre “Seven” e “Zodíaco”. Um deles é a atenção minuciosa que Fincher dedica aos aspectos forenses do caso, mostrando com nível impressionante de detalhes a caça ao assassino, do ponto de vista clínico de um investigador – ou melhor, de quatro dos detetives, dois oficiais e dois amadores. Ao contrário de “Seven”, contudo, a narrativa não segue uma trilha lógica, em que cada pista leva à próxima, até que o matador seja descoberto. Em “Zodíaco”, a investigação conduz a um beco sem saída atrás do outro. Vira, depois de algum tempo, um emaranhado de pistas que vão se acumulado e se anulando, sem levar a lugar algum.

Mostrando com habilidade e objetividade a confusão crescente que envolve os investigadores, devido ao excesso de informações desencontradas, o filme se transforma. Aos poucos, o que seria um thriller empolgante vira um drama criminal que traça um admirável estudo sobre obsessão. Fincher não se limita a reproduzir a investigação superficialmente. Ele vai além disso: aprofunda a psicologia dos personagens, traçando um retrato sombrio dos impulsos primais que guiam os quatro homens na caçada ao serial killer. Dois deles são os detetives responsáveis oficialmente pelo caso, e os outros dois são jornalistas que se envolveram na busca, quase acidentalmente. Fincher invade a vida privada de cada um, mostrando como a perseguição obsessiva ao criminoso os afetou, mental e fisicamente.

Os quatro personagens lidam com a obsessão de maneiras diferentes. Dave Toschi (Mark Ruffalo), o detetive principal, é um homem determinado, mas sabe deixar o trabalho na delegacia – ou pensa que sabe. O parceiro Bill Armstrong (Anthony Edwards), mais discreto, tem consciência do momento em que as coisas começam a ficar feias. O impulsivo Paul Avery (Robert Downey Jr), principal repórter de política do jornal San Francisco Chronicle, que recebia as cartas do Zodíaco, se lança à pesquisa com ímpeto quase suicida. O personagem mais fascinante é o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), que fica nas sombras durante toda a primeira parte do filme. Sem poder se envolver diretamente nas investigações, mas com a curiosidade atiçada devido ao seu interesse por códigos, o cartunista terminaria por “assumir” o caso depois que as investigações oficiais cessam, com a redução do interesse do público. O filme acompanha a perseguição ao assassino durante quase 30 anos.

Conhecido como cineasta virtuoso e afeito de malabarismos técnicos que dotam cada um de seus filmes de aura quase barroca, Fincher demonstra amadurecimento. A direção continua meticulosa e tecnicamente impecável, mas o tom geral é bem mais sóbrio. Em “Zodíaco”, a técnica nunca se sobressai ao conteúdo, permanecendo subordinada a ele. Diretor normalmente de sensibilidade estridente (e não apenas no sentido sonoro), Fincher abre espaços aqui para silêncios e sutilezas narrativas, demonstrando que aprendeu a dosar melhor o ímpeto pelo malabarismo, algo bastante nítido em “Clube da Luta” (1999) e “O Quarto do Pânico” (2002). Ao mesmo tempo, toda a reconstituição de época – direção de arte, cenários, figurinos, trilha sonora – é assombrosa, absolutamente espetacular. Fica claro que Fincher não perdeu o perfeccionismo; aprendeu a dosá-lo e aplicá-lo nas áreas que realmente interessam.

Optando por uma fotografia sem muitos contrastes, com uso abundante de tonalidades frias, verdes e cinzentas, Fincher tentou recriar a atmosfera da época sem exagerar nos elementos exóticos. Não há, aqui, os excessos de cores lisérgicas da fase flower power, ou as calças bocas-de-sino dos anos 1970, como vemos em produções que emulam a época. No entanto, a produção não economizou esforços para dar ao filme a textura daqueles tempos. A redação do San Francisco Chronicle, assumidamente inspirada nos sets do filme “Todos os Homens do Presidente” (1976), é praticamente uma cópia carbono de uma redação verdadeira da época. Para recriar o ataque do criminoso a um casal de namorados no lago Berryessa, numa área florestal próxima a San Francisco, Fincher se deu ao requinte de transportar alguns carvalhos centenários para a locação, de helicóptero. As árvores, que não existem mais, serviram de cobertura para que o matador se aproximasse das vítimas sem ser visto.

A ótima trilha sonora de David Shire também contribui bastante para que a reconstituição de época atinja nível tão alto de excelência. Veterano de produções dos anos 1970, e responsável justamente pelos sons do filme-referência mais importante para Fincher (o já citado “Todos os Homens do Presidente”), Shire usou o conceito de música concreta, muito popular entre músicos de rock da época em que o filme se passa (Pink Floyd, Frank Zappa), sobrepondo sons urbanos e trechos cíclicos de música orquestrada, sempre executada em padrões matemáticos com pequenas alterações. O resultado é uma ambientação ao mesmo tempo tensa e caótica. O uso de músicas incidentais, embora econômico, também é incomum e acerta em cheio, evocando thrillers policiais como “Perseguidor Implacável” através de sons de Miles Davis (quer algo mais “anos 1970” do que isso?), Vanilla Fudge e Marvin Gaye.

Como se não fosse suficiente, as atuações do elenco são coletivamente muito boas, com destaque especial para as performances intensas de Robert Downey Jr (menos verborrágico do que de costume como Paul Avery) e Mark Ruffalo (brilhante, no papel de Dave Toschi). Além disso, Jake Gyllenhaal é uma escolha que encaixa perfeitamente no papel do cartunista bom-moço, o escoteiro que vira um homem obsessivo e atormentado. O elenco de apoio inclui gente boa que tem normalmente menos reconhecimento público do que merece – Elias Koteas e Chloe Sevigny, em particular, estão muito bem, assim como o menos conhecido John Carroll Lynch, que compõe um aterrador Arthur Leigh Allen, professor que se tornaria o principal suspeito de ser o assassino serial.

Curiosamente, “Zodíaco” não é um filme autoral. O projeto foi acalentado durante mais de 10 anos pelo roteirista James Vanderbilt, que só conseguiu transformar a idéia em filme após atrair o interesse de Fincher. Como os grandes diretores de antigamente, contudo, o cineasta soube manipular o material até transformá-lo em algo que tem a sua cara. A própria temática da obsessão transparece nas entrelinhas do trabalho de Fincher, que carrega há anos a pecha de perfeccionista. Com um pouquinho de esforço, dá até para encontrar o pequeno David Fincher, um excitado pirralho de sete anos, dentro do filme. Ele está na talvez única cena com humor de todo o longa-metragem, quando Robert Graysmith organiza, na cozinha de casa, uma força-tarefa com os filhos, para tentar decifrar as mensagens em código de Zodíaco. Use a imaginação para ver o pequeno Fincher quebrando a cabeça diante de enigmas matemáticos e conseguirá entender melhor a alma deste que é um dos grandes cineastas norte-americanos do nosso tempo.

O DVD nacional da Warner é simples e tem um pequeno featurette promocional (20 minutos) como extra. A qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) está ótima. Mas quem gostou mesmo do filme pode encarar a edição dupla importada. O disco 1 traz a versão do diretor (com quatro minutos e duas cenas a mais), acrescida de dois comentários em áudio, um solo de Fincher e outro reunindo atores e pessoal da equipe técnica. No disco 2, dois documentários instigantes enfocando as investigações do caso (145 minutos, ao todo), mais dois sobre a produção do filme (71 minutos), um trailer e um featurette (6 minutos) comparando pré-visualizações (espécie de storyboards digitais) de algumas cenas-chave e a montagem final. Todos os extras têm legendas em inglês. Para aficcionados, um pacotaço.

– Zodíaco (Zodiac, EUA, 2007)
Duração: David Fincher
Elenco: Jack Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Robert Downey Jr, Anthony Edwards
Duração: 158 minutos

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