Zona de Risco

05/12/2006 | Categoria: Críticas

Primeiro longa-metragem de Park Chan-Wook é thriller militar eficiente e complicado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A história é interessante. Em uma zona de fronteira militar entre as duas Coréias, dois soldados da porção comunista do país aparecem mortos a tiros. Um militar do lado oposto da fronteira foi capturado na cena do crime e é tido por todos como o assassino. Mas em que circunstâncias ocorreram os assassinatos? A Coréia do Norte diz que o acusado invadiu o país para cometer o crime, e foi preso lá. Já os sulistas garantem que os inimigos cruzaram a fronteira ilegalmente para capturar o sujeito. Quem está dizendo a verdade? A investigação do complicado caso militar é a peça de resistência de “Zona de Risco” (Gongdong gyeongbi guyeok JSA, Coréia do Sul, 2000), o bom filme de estréia de Park Chan-Wook.

Chan-Wook ficaria muito famoso depois, ao refinar seu estilo de absoluto rigor formal, na conhecidíssima trilogia sobre vingança que o fez famoso no Ocidente. É dele a obra-prima “Oldboy”, segundo volume da citada trilogia. Não seria exagero dizer que ele é um dos cineastas mais virtuosos, de domínio mais pleno da linguagem cinematográfica, em ação na atualidade. Neste primeiro trabalho, o diretor sul-coreano ainda não exibe a segurança que viria a desenvolver, mas já demonstra claramente o talento para tecer narrativas não-lineares e, principalmente, o olho apurado para composições visuais inventivas.

A primeira parte do longa-metragem focaliza a investigação do caso, por uma comissão independente formada por militares da Suíça e da Suécia. A chefe da missão é uma major de descendência coreana, mas nacionalidade suíça. Jovem e durona, ela enfrenta os comandantes dos dois exércitos para descobrir, sem muita demora, que as duas versões oficiais têm mais buracos do que os queijos fabricados no país dela. Começa, então, uma trajetória de checagem rigorosa de cada pedaço de informação relativo ao caso, a fim de desvendá-lo nos mínimos detalhes.

Se focalizasse apenas a investigação, o filme renderia um bom thriller militar, na linha de obras como “Violação de Conduta”, só que mais original e intrigante. Na obra de Park Chan-Wook, entretanto, as coisas não funcionam de maneira óbvia. Para começar, o diretor prefere narrar o caso de modo não-cronológico, disparando pequenos flashbacks que ilustram cada versão do caso. A estratégia atinge o objetivo de confundir o leitor, porque (1) o filme jamais nos avisa qual cena se trata de flashback, o que precisamos descobrir sozinhos; e (2) os flashbacks narram a mesma cena de maneiras diferentes, ilustrando cada versão, e por isso não temos condições de descobrir o que é verdade e o que não é.

As surpresas não param por aí. No meio da narrativa, os flashbacks se tornam subitamente mais longos e então o filme dá uma guinada radical, enveredando em uma trama insólita sobre amizade, que tece comentários brilhantes sobre o insólito da situação na zona de segurança do título. Afinal de contas, a chamada “área desmilitarizada” do título é um dos espaços mais armados do planeta, com milhares de homens de dois exércitos que se odeiam, convivendo juntos em um espaço que é separado apenas por linhas desenhadas no chão. Na melhor cena do filme, dois soldados jovens de lados opostos acertam cusparadas um no outro, com um grosso traço de giz rabiscado no chão entre eles. Uma cena surreal, mas próxima da verdade.

A escolha do tema é um acerto, mas Chan-Wook não nega seu status de estreante em longas-metragens. Apesar dos belíssimos enquadramentos e da fotografia nunca menos do que brilhante (as cenas noturnas que se passam no meio da selva são límpidas, refinadas e impressionantes), o roteiro dá algumas derrapadas. A principal delas é a personagem da major Sophie Jean (Yeong-ae Lee), cuja descendência coreana dá a entender que ela própria será emocionalmente envolvida na investigação, o que não ocorre, pelo menos não de maneira clara. Além disso, o excesso de reviravoltas depõe contra o filme, uma vez que a certa altura fica evidente que Park Chan-Wook está mais interessado em confundir do que em explicar – algo que jamais é uma boa característica em filmes de suspense. Mesmo assim, “Zona de Risco” é thriller de qualidade e merece uma conferida atenta.

O filme é um lançamento da Europa Filmes. A edição simples preserva o enquadramento da imagem (1.85:1, widescreen), o som é muito bom (Dolby Digital 5.1), e não há extras. A edição dupla contém um disco extra com documentário e galeria de cenas excluídas.

– Zona de Risco (Gongdong gyeongbi guyeok JSA, Coréia do Sul, 2000)
Direção: Park Chan-Wook
Elenco: Yeong-ae Lee, Byung-hun Lee, Kang-ho Song, Tae-woo Kim
Duração: 110 minutos

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