Zona Verde

02/08/2010 | Categoria: Críticas

Paul Greengrass e Matt Damon visitam o Iraque e entregam filme em que a ousadia está não apenas na forma energética e vibrante, mas também no conteúdo politicamente forte

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Para muitos críticos e membros da comunidade cinematográfica, o melhor filme de 2007 – ou, pelo menos, o mais audacioso e visionário nos aspectos técnicos – foi “O Ultimato Bourne”, do diretor britânico Paul Greengrass. Boa parte desse pessoal também credita a Greengrass a transformação do estilo de atuação de Matt Damon, cada vez mais minimalista e contido, e que o ajudou a se transformar numa estrela de primeira grandeza. Assim, quando os dois se juntaram para filmar um longa-metragem que documentava a vida em Bagdá nas semanas posteriores à invasão americana ao Iraque, em 2003, a expectativa geral sobre o projeto era de que o filme poderia se tornar um novo clássico do cinema de guerra.

A expectativa era justificada. Afinal, em “O Ultimato Bourne”, Paul Greengrass havia alcançado um feito notável. Através de uma associação de técnicas arrojadas de edição de imagem (cortes rapidíssimos, quebras constantes de eixo), montagem de som (trilha de ruídos cuidadosamente articulada com as imagens, pouca música) e fotografia (câmera na mão, chicotes laterais rapidíssimos, lentes teleobjetivas, filmagens em locação e com película ultra-sensível), ele praticamente conseguia pôr o espectador no meio da ação física em que os personagens estavam envolvidos. A sensação de adrenalina máxima, sem perder a clareza narrativa, era o trunfo que faltava para que um filme de guerra no século XXI atingisse a platéia como um soco da cara. O filme parecia fadado ao sucesso instantâneo.

Pois bem: “Zona Verde” (Green Zone, EUA, 2010) demandou dois anos de produção, a um custo de US$ 130 milhões, acrescidos de mais U$ 100 milhões para a promoção comercial. Apesar do rolo compressor de marketing, o longa-metragem obteve uma recepção fria, quase desinteressada, quando finalmente chegou aos cinemas, em março de 2010. O resultado foi um fracasso monumental, com arrecadação mundial de meros U$ 60 milhões nas salas de exibição. Como explicar esse fenômeno? Ou melhor, como explicá-lo levando em consideração o enorme sucesso comercial do terceiro exemplar da franquia Bourne (US$ 441 milhões nos cofres do estúdio Universal)?

A resposta, em duas palavras: timing incorreto. Certamente por causa do tamanho da produção, que mobilizou equipes para filmagens na Espanha, na Inglaterra e no Marrocos, o diretor britânico precisou de dois anos para concluir o processo completo de filmagem e edição. Nesse intervalo, apareceu uma produção menor e muito semelhante, que acabou passando a perna em Paul Greengrass e dando ao público o que se esperava de “Zona Verde”. Esta produção menor se chamou “Guerra ao Terror” (2009), de Kathryn Bigelow.

Partindo da mesma proposta de captar a tensão sentida pelos soldados norte-americanos durante a mesma fase do conflito bélico, a diretora norte-americana ousou mais. Filmou in loco, na fronteira do Iraque com a Jordânia, com câmeras Super 16, e usou o mesmo diretor de fotografia de “O Ultimato Bourne”, o inglês Barry Ackroyd, para conseguir imagens com a mesma textura áspera e semi-amadora que se tornaram assinatura estilística do cineasta britânico.

O elogiado filme de Bigelow recebeu o Oscar de melhor filme no mesmo mês em que o longa-metragem de Paul Greengrass chegou aos cinemas. Em palavras, para o paladar do público de massa, “Zona Verde” já tinha cheiro de coisa velha antes mesmo de aparecer nos cinemas. O desinteresse do público foi flagrante. Também não ajudou muito o fato de parte da crítica internacional considerar que, desta vez, o trabalho vulcânico de montagem visual não havia conseguido alcançar o mesmo nível de clareza narrativa que “O Ultimato Bourne”.

Infelizmente, este parece ser um caso claro de estrela cujo brilho momentâneo e incandescente ofusca a luz vinda de outros lugares. Sem tirar os méritos de “Guerra ao Terror” (que são muitos), a obra de Paul Greengrass entrega tudo aquilo que prometia, e vai um passo à frente do premiado filme independente norte-americano. Se Kathryn Bigelow se esquivava de fazer quaisquer comentários político-ideológicos, preferindo se concentrar na tensão interior vivida pelos soldados envolvidos diariamente em situações de risco, Greengrass entrelaça as duas vertentes narrativas numa única narrativa coesa e envolvente. Ele faz a platéia sentir na pele a adrenalina da guerra, enquanto manda um duro recado à política externa norte-americana, posicionando-se claramente quanto às razões políticas e econômicas para a invasão.

Escrito por Brian Helgeland (“Los Angeles – Cidade Proibida”), o roteiro de “Zona Verde” acerta em cheio na escolha do protagonista: o subtenente Roy Miller (Damon), chefe de operações da equipe que busca armas químicas em Bagdá, nos primeiros dias após a invasão. Aos poucos, a adrenalina de Miller vai sendo substituída por desconfiança crescente, quando ele percebe que nenhum dos locais que integram a lista de supostos depósitos secretos de armas químicas (lista repassada por superiores hierárquicos) contém qualquer material bélico. Enquanto isso, o caminho do militar é cruzado por outros personagens importantes, como um ambíguo agente da CIA (Brendan Gleeson), uma jornalista investigativa (Amy Ryan) e um iraquiano disposto a colaborar com o Exército dos EUA para eliminar os remanescente do regime ditatorial (Khalid Abdalla).

A decisão de usar como herói um militar de média patente é sábia. Com ela, Helgeland pode transitar com desenvoltura em dois terrenos narrativos paralelos. Assim, “Zona Verde” se constitui como um thriller de espionagem que eventualmente se infiltra nos bastidores do poder e, ao mesmo tempo, funciona perfeitamente como filme de ação. Ou seja, o personagem de Matt Damon – que, mais uma vez, está muito bem – evita que o filme vire uma complicada e enfadonha trama de bastidores, e também foge da armadilha de tratar o explosivo material narrativo como mero veículo sem conteúdo, preocupado apenas em expor a platéia à sensação permanente de adrenalina.

O filme transita muito bem nas duas áreas. Há, aqui, uma preocupação evidente de associar as funções perceptivas da forma a um conteúdo sólido. Assim, o excepcional trabalho de fotografia de Barry Ackroyd (novamente abusando da câmera tremida, até mesmo nos simples diálogos em contraplano) e a montagem cheia de cortes abruptos de Christopher Rouse (vencedor do Oscar por “O Ultimato Bourne”) servem a um objetivo maior, que é expor uma segunda guerra – a batalha de forças políticas antagônicas e o jogo de bastidores – travada sob as sombras do poder (talvez por isso o terceiro ato seja encenada literalmente nas sombras), e que é absolutamente esquecida na maioria dos outros filmes que abordaram a guerra do Iraque. Em suma, um grande filme.

O DVD simples e sem extras tem o selo da Universal e traz o filme com imagem correta (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Zona Verde (Green Zone, EUA, 2010)
Direção: Paul Greengrass
Elenco: Matt Damon, Khalid Abdalla, Brendan Gleeson, Amy Ryan, Greg Kinnear
Duração: 115 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


5 comentários
Comente! »