Zumbilândia

11/05/2010 | Categoria: Críticas

“Zumbilândia” cumpre o que o título promete: um filme de horror que vale por uma tarde intensa dentro de um parque de diversões

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Zumbilândia” (Zombieland, EUA, 2009) é um caso raro de filme cujo título carrega múltiplas dimensões que sintetizam o filme com propriedade, tanto do ponto de vista narrativo quanto estético. Trata-se de uma história sobre quatro sobreviventes de uma praga de zumbis que atravessam os Estados Unidos, devastados pela doença e quase sem habitantes livres do vírus, com o único propósito de visitar o mundialmente famoso parque de diversões que fica na praia de Venice, perto de Los Angeles. É o típico caso de longa-metragem que vale por uma tarde intensa dentro de um desses parques de diversões, objetivo declarado dos realizadores, que a obra alcança plenamente.

A estréia cinematográfica de Ruben Fleischer segue a trilha aberta por “Todo Mundo Quase Morto” (2004), mixando zumbis com humor negro aos montes e mantendo um nível surpreendentemente alto de sangue, vísceras e membros amputados. A estrutura narrativa lembra bastante a comédia britânica – grupo de humanos normais enfrenta vários incidentes para alcançar um lugar supostamente seguro – mas amplia o escopo geográfico, transformando “Zumbilândia” num autêntico road movie. Além disso, sai o cinismo tipicamente inglês e entra o humor autodepreciativo da produção independente dos EUA. O resultado não é obra-prima, mas conta com vários momentos divertidíssimos.

Os quatro personagens principais não falam seus nomes verdadeiros; preferem chamar a si próprios com os nomes das cidades de nascimento. Assim, Columbus (Jesse Eisenberg) é o narrador e protagonista, um autêntico fanático por videogames que conseguiu se manter vivo por seguir estritamente um conjunto de 31 regras, todas inspiradas por clichês ou convenções dos filmes de horror adolescente (manter-se em forma, dar sempre um tiro a mais do que o necessário, nunca bancar o herói, cuidado com banheiros públicos, jamais deixar de olhar no banco de trás do carro, etc.). Em meio à jornada para a costa oeste, ele encontra Tallahasse (Woody Harrelson), caipira durão cheio de vontade de matar zumbis e comer bolinhos Twinkies.

Os dois começam a viajar juntos e logo conhecem Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin, a garotinha de “Pequena Miss Sunshine”), que não são exatamente o que parecem ser. Entre encontros e desencontros, todos seguem para a direção oeste. Do ponto de vista do roteiro, a estrutura é bem frágil; os personagens não têm realmente uma meta – nem mesmo algo básico como “manter-se vivos” – a não ser se divertir o máximo possível antes da morte inevitável. Por outro lado, esse é o tipo de comportamento perfeitamente coerente para a maior parte do público-alvo do filme. Além disso, a direção esperta, o banho de sangue e as ótimas piadas fazem o espectador deixar preocupações com coerência narrativa e caracterização de personagens em segundo plano, e isso não demora nem 10 minutos para acontecer.

Usando com inteligência o batido recurso dos grafismos que interagem com as imagens (as 31 regras de Columbus riscam a tela sempre que os personagens as executam), Fleischer enche o longa-metragem de sangue e tripas, sem jamais esquecer de colocar o humor em primeiro plano. O desenho de produção econômico e eficiente jamais torna as cenas com zumbis realmente amedrontadoras (a não ser, talvez, certa seqüência envolvendo um palhaço, fobia do protagonista certamente compartilhada por muitos espectadores). É por isso que as melhores seqüências são sempre as mais engraçadas, inclusive a excelente abertura em câmera lenta (ao som de “For Whom the Bells Tolls”, do Metallica, motivo a mais para gostar do filme) e o clímax redondo que fecha o filme – onde mais? – num mega-parque de diversões, com direito a perseguição de zumbis dentro do trem fantasma (bela piada, admitamos) e na montanha-russa.

No entanto, sem sombra de dúvida, o melhor trecho do filme é aquele que conta a participação mais que especial do ator Bill Murray, em um toque genial de metalinguagem autodepreciativa – e é melhor parar por aqui, para não estragar algumas das piadas mais legais dos últimos tempos. De resto, vale a pena dizer que o elenco está muito bem. “Zumbilândia” cumpre o que o título promete, e isso é um baita elogio.

O DVD nacional sai com o selo da Sony Pictures. O filme aparece em boa qualidade de vídeo (widescreen anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1). Há dois featurretes de bastidores (30 minutos), cenas cortadas (5 minutos) e comentário em áudio do diretor.

– Zumbilândia (Zombieland, EUA, 2009)
Direção: Ruben Fleischer
Elenco: Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Emma Stone, Abigail Breslin
Duração: 88 minutos

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