500 Dias com Ela
01/02/2010 | Categoria: DVDComédia pop explora o filão do homem carente, reforçado por diálogos espertos, intervenções gráficas e uma espécie de melancólica desencanada
Por: Rodrigo Carreiro
NOTA DO EDITOR: 




Comédias românticas sobre homens com dor-de-cotovelo depois de levarem um belo pé na bunda não são exatamente um fenômeno recente em Hollywood. Só para citar um exemplo, o delicioso “Jejum de Amor” (1940), de Howard Hawks, já tratava desse tema. A diferença é que, mais ou menos a partir de meados da década de 1990, o ambiente social passou a aceitar melhor a idéia de ver um homem rastejando explicitamente atrás de uma garota. “500 Dias com Ela” (500 Days of Summer, EUA, 2009) explora esse filão, reforçado por diálogos espertos, muito molho de cultura pop e uma espécie de melancólica desencanada.
Decerto “500 Dias com Ela” vai fazer a festa de marmanjos que curtiram ressacas amorosas assistindo a filmes como “Procura-se Amy” (1997), de Kevin Smith, e “Alta Fidelidade” (2000), de Stephen Frears. Esses dois longas-metragens são referências óbvias do longa-metragem de Marc Webb: ambos têm um timing de comédia filtrado por um pendor à melancolia bem-humorada, possuem trilhas sonoras lotadas de canções pop interessantes (tanto dentro quanto fora da diegese) e têm protagonistas que são homens crescidos na aparência, mas se comportam como adolescentes que precisam urgentemente amadurecer.
“500 Dias com Ela” consiste num filme milimetricamente planejado para virar objeto de cultura de uma platéia seleta de sujeitos sensíveis com um toque de timidez e alma feminina. A turma cuja adolescência rolou na década de 1980 vai encontrar momentos especialmente tocantes, como a festa em que o herói canta “Here Comes Your Man” (Pixies) num karaokê (Jesus & Mary Chain, The Smiths e PIL também estão na trilha sonora). Para espectadores que desconhecem as duas obras de referência, pode funcionar muito bem. Para os demais, é um filme de verão bacana (sem trocadilho com o título original), e só.
O enredo segue o ponto de vista de Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt), publicitário cujo trampo consiste em escrever slogans de auto-ajuda bem otimista para estamparem cartões de aniversário. Ele curte rock inglês, tem um melhor amigo bem nerd (Geofrey Arend), se acha incapaz de seduzir uma mulher, e está claramente encharcado de carência sexual e afetiva. Aí ele conhece Summer (Zooey Deschanel), a nova estagiária do pedaço, na agência em que ele trabalha. O filme documenta os 500 dias em que o romance entre os dois durou, dedicando tempo igual para bons e maus momentos do casal.
Como filme, parece ter sido dirigido por um designer gráfico. A narrativa é não-linear e dividida em capítulos; cada capítulo consiste num dia do relacionamento entre Tom e Summer, só que esses dias estão fora da ordem cronológica. O diretor recorre a todo tipo de técnica pintosa de edição para acelerar a narrativa e injetar um molho pop-cult, e isso inclui telas divididas (em que uma ação corresponde à realidade e outra à fantasia do protagonista, o que é talvez a melhor sacada de todo o filme), direção de arte repleta de detalhes a ponto de sufocar os atores, muitas intervenções gráficas na película, ótimos diálogos cômicos e até um número musical.
Se o roteiro não chega a ser inovador e muito menos sensacional, é correto, respeita a caracterização dos personagens e tem piadas ocasionais realmente boas. Por outro lado, incorre em erros tradicionais do gênero cômico-romântico, incluindo um “melhor amigo” do protagonista que é irritante e desnecessário (como de praxe). Vamos combinar o seguinte: “500 Dias com Ela” é um filme curto, engraçado e esperto (talvez um pouquinho além da conta), feito para gente jovem. Quem se encaixa no padrão e já levou um pé na bunda, tem a faca e o queijo na mão para criar empatia com o personagem principal – ou com a confusa e engraçadinha Summer – e se encantar. O casal principal tem química e se sai bem. E isso é um elogio.
O DVD da Alpha Filmes traz apenas o filme, com qualidade OK de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), mas sem extras.
- 500 Dias com Ela (500 Days of Summer, EUA, 2009)
Direção: Marc Webb
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend, Chloe Moretz
Duração: 95 minutos

(12 votos. Média de 4,33 em 5)


Abraços.
bom, eu gostei muito, mas confesso que sou adepta de comédias românticas que não têm no seu roteiro toda a receita principal.
Pra mim, “500 dias com ela” pode ser considerado o “Juno” desse ano.
Ah, Rodrigo, uma dúvida: tem alguma razão técnica pela qual o Box colocou Avatar 3D dublado? ou foi só falta de noção mesmo?
Ah ! E pra quem só gosta de rock pesado até que seu conhecimento de rock mais melódico é considerável Rodrigo! Não reconheci, embora goste de várias músicas, do Jesus & Mary Chain. Vc tem notícia sobre se a trilha vai ser lançada ?
Grande abraço !
Respondendo a pergunta: eu acho “Juno” uma farsa. E a roteirista “doidinha” parece que se apagou. Pelo menos o último filme roteirizado por ela ficou bem longe de qlq coisa parecida com o que foi a babação em cima de Juno. Vá entender…
assisti ontem e achei bem espertinho. =)
e paulo, qual foi a sua em: ‘detesta Transformers mas também não compreende Mizoguchi, Renoir… etc’?
abraço, rodrigo
em dialogo inteligente para comédia romântica, a série gilmore girls pra mim é um marco. tao rapidos os dialogos e tao inteligentes que até assustam! se nao conheces e puder dá uma sacada, é super interessante. quando alguem cita um dialogo inteçigentem fico com gilmore girls. tem tantas referencias pops que voce se perde.
bjos
belo filme e perfeito no que se compromete
e não é nada fácil resistir a Zooey Deschanel
Gostei tanto que vi 2 vezes seguidas