Curioso Caso de Benjamin Button, O
11/06/2009 | Categoria: DVDMesmo com problemas, filme proporciona viagem melancólica pelo século XX e medita sobre a maneira como as oportunidades moldam a existência humana
Por: Rodrigo Carreiro
NOTA DO EDITOR: 




A premissa em torno da qual é construído “O Curioso Caso de Benjamin Button” (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008) tem grande chance de dar ao público uma impressão errada sobre o filme de David Fincher. A história de um homem que nasce com a idade de 86 anos e envelhece ao contrário está muito longe de ser uma comédia hiperativa com um pé no absurdo, como os trabalhos escritos por Charlie Kaufman. Trata-se, na verdade, de um drama lento e intenso cujo tema central é o tempo. Ou melhor, a inexorabilidade da passagem do tempo e a inevitabilidade da mudança na vida dos seres humanos. Enquanto nos proporcionam uma viagem em tom melancólico por todo o século XX, Fincher e o roteirista Eric Roth nos oferecem uma ou duas oportunidades de meditar sobre a maneira como as oportunidades (aproveitadas ou não) moldam a existência humana, à revelia de nossa vontade.
Há uma seqüência no meio do longa-metragem de 159 minutos que ilustra com propriedade o tema central da história. Ela destoa tanto do resto do filme – no ritmo acelerado e no ponto de vista – que funciona como catalisador de idéias para o espectador atento. A cena mostra como uma série de pequenos atos e coincidências contribui para provocar um acidente de carro que altera por completo o rumo da vida de um personagem importante. A seqüência exemplifica com perfeição a chamada teoria do caos (uma borboleta que bate as asas em Berlim pode provocar um furacão no México, sabia?). A teoria do caos já forneceu material especulativo para inúmeros filmes, mas a abordagem de David Fincher em “O Curioso Caso de Benjamin Button”, cujo enredo foi inspirado pelo conto homônimo escrito em 1922 por F. Scott Fitzgerald, é inventiva e sombria. O cineasta fez um filme de idéias, não um filme de ação.
O longa-metragem celebra a terceira parceria entre Fincher e o astro Brad Pitt, que interpreta o papel principal. Os dois títulos anteriores (“Seven” e “Clube da Luta”) são endeusados nos círculos cinéfilos mais jovens. “Benjamin Button”, porém, se distancia de ambos, demonstrando que Fincher adentrou uma fase mais madura e serena, algo perceptível no superior “Zodíaco” (2007). O filme sobre o assassino em série que agia em San Francisco, aliás, tem pontos de contato bastante evidentes com o trabalho de 2008. Ambos têm enredos que cobrem longos períodos de tempo (e a passagem do tempo é trabalhada de forma cuidadosa ao extremo nos dois), e possuem nível anormalmente alto de atenção com os detalhes. Esta característica fica expressa de forma evidente quando se examina a meticulosa (talvez meticulosa demais) reconstituição de época efetuada nos dois filmes, inclusive com uso generoso de efeitos especiais. Fincher usa o CGI não para dar vida a seres ou cenários impossíveis, mas para realçar a cenografia com detalhismo extremo, sem jamais abandonar o realismo.
De certa forma, “Benjamin Button” pode ser lido como uma história de amor impossível que cobre oito décadas. O filme é estruturado em três grandes blocos narrativos, alinhavados por uma seqüência que se passa em 2005 e mostra Daisy (Cate Blanchett), uma mulher de 80 anos, no leito de morte, enquanto o furacão Katrina ameaça chegar a New Orleans (aliás, a presença invisível do furacão, sugerida através do criativo design de som, é outra pista a respeito da teoria do caos para a compreensão do tema principal). Fincher distingue os dois tempos da narrativa através da paleta de cores. As cenas no presente têm o tom frio e azulado de um quarto de hospital; a história de Benjamin Button, o homem que nasceu velho, é filtrada por uma tonalidade pastel, rica em laranjas e marrons. O primeiro ato mostra a infância/adolescência do protagonista; o segundo se passa durante a II Guerra Mundial e enfatiza as primeiras experiências sexuais e emocionais; o terceiro focaliza o personagem como um idoso preso num corpo jovem, tendo que tomar algumas decisões difíceis.
O filme não se pretende um panorama histórico do século XX, mas ao filtrar a época pelos olhos de um homem comum, tem sido freqüentemente comparado a “Forrest Gump” (1994), escrito pelo mesmo Eric Roth. As diferenças, contudo, são visíveis. “Benjamin Button” aposta num tom mais sombrio e tristonho, e trabalha com temas de maior sutileza. Nesse sentido, o filme de David Fincher se aproxima muito mais de “Entrevista com o Vampiro” (1994), em que o mesmo Brad Pitt interpretou um personagem cujo arco dramático é semelhante. Button, o protagonista, é essencialmente um observador. Sua condição singular lhe transforma em solitário crônico. Como está sempre sozinho, Button logo aprende a observar.
Pitt expressa a natureza do personagem com uma performance contida e discreta. Ele enfatiza a passagem do tempo (e seus efeitos físicos sobre o homem) com a expressão corporal. Benjamin Button é uma criança encurvada, que arrasta as pernas ao andar; à medida que o tempo passa, ele ganha mais vitalidade física e passa a se mover mais rápido e com mais vigor. Por outro lado, a opção pelas expressões faciais quase ascéticas, à maneira de um Robert Bresson, lhe impede de expressar a ambivalência essencial de Benjamin Button com o olhar. Não se pode esquecer, afinal, que este é um homem permanentemente preso num corpo que lhe é estranho – uma criança num corpo de velho, e depois um velho num corpo de adolescente. De qualquer forma, o desempenho do ator é tão sólido quanto o de qualquer outro membro do elenco, que Fincher conduz com maestria.
Um destaque importante deve ir para Taraji P. Henson, a desconhecida que interpreta Queenie, mãe adotiva de Button e governanta de um asilo de velhos onde ele passa a infância e retorna periodicamente. A interpretação dela, cheia de honestidade e energia, é uma das válvulas de escape por onde o humor abre espaço para dentro da história. Aliás, é obrigatório ressaltar o senso de humor insólito, peculiar do diretor, expresso em poucas cenas, como o funeral da interna do asilo que cantava Wagner todas as manhãs e na série de curtos esquetes protagonizados pelo homem que foi atingido sete vezes por um raio (cenas rodadas em preto-e-branco a 16 quadros por segundo e exibidas na velocidade de 24 quadros por segundo, o que dá a elas o ar cômico tradicional dos filmes do período mudo). Na verdade, todos os atores coadjuvantes fazem ótimo trabalho, em especial Jared Harris (o capitão do navio em que Button trabalha, durante o segundo ato) e Tilda Swinton (a inglesa com quem ele mantém um breve caso amoroso, numa das passagens mais fortes e de maior ressonância emocional de todo o filme).
Um aspecto técnico que chama a atenção pela complexidade é o design de som, em especial a mixagem de efeitos sonoros para construção de um espaço sonoro com o mesmo grau de detalhismo conseguido nas imagens. Nos filmes de Fincher, boa parte do senso de realismo é obtido com o uso de dezenas de camadas de efeitos sonoros mixados cuidadosamente, e o mesmo ocorre aqui. Nas seqüências que se passam no tempo presente, por exemplo, podemos perceber a evolução da fúria destruidora do furacão Katrina sem ver cenas da tempestade uma única vez – o crescimento da força do fenômeno é ilustrado através do ambiente sonoro. A cena de abertura oferece, ainda, um belo exemplo de como o som pode guiar a introdução de um flashback de modo elegante e quase imperceptível, quando os sons do hospital são gradualmente substituídos pelo ambiente sonoro da década de 1920, simulando a percepção da personagem de Cate Blanchett, prestes a submergir num mundo de lembranças.
Quanto aos efeitos especiais, David Fincher é provavelmente um dos diretores contemporâneos que os utilizam de maneira mais eficiente. Espectadores menos atentos podem pensar que a computação gráfica é utilizada apenas para criar os truques de perspectiva das cenas da primeira parte, em que Brad Pitt interage com atores que aparentam ser muito mais altos do que ele. Não é verdade. Boa parte da fantástica maquiagem utilizada para envelhecê-lo (e posteriormente, para rejuvenescê-lo, assim como a Cate Blanchett) foi criada através da manipulação digital das imagens. É verdade que há cenas onde o uso de CGI é perceptível e não atinge a perfeição habitual (boa parte das tomadas feitas com o rebocador no mar), mas ainda assim “Benjamin Button” se mostra um filme cujo uso de efeitos especiais é mais interessante do que a média.
Tudo isso nos leva ao final do filme, que pode parecer problemático para alguns e corajoso para outros. Com certeza não é um encerramento tradicional, e nem poderia ser, dada a condição singular do protagonista. Para encerrar a história, Fincher e o roteirista são obrigados a adicionar à trama uma mudança de perspectiva, passando a narrá-la do ponto de vista de Cate Blanchett. Esta operação, capaz de desagradar a algumas pessoas, proporciona uma conexão harmoniosa entre os dois tempos narrativos, o passado e o presente. Além disso, convenhamos, é bastante raro ter um filme em que o protagonista sai de cena justamente no clímax, uma ousadia enorme para um filme caro (US$ 150 milhões, tanto que foi bancado por dois grandes estúdios, Warner e Paramount, algo bastante incomum) e longo.
Mesmo com tudo isso, o trabalho fica longe de atingir o status de obra-prima. A narração em off, por exemplo, é excessiva em muitos momentos, em particular na seqüência final, que parece ter sido introduzida apenas para explicar o tema do filme para a turma que não o entendeu direito. Por vezes, a mesma narração escorrega no melodrama açucarado, em especial nas seqüências relacionadas ao beija-flor. Mesmo sem chegar a ser uma obra-prima, “O Curioso Caso de Benjamin Button” confirma a condição de autor inventivo e original de um diretor que consegue a proeza de remar contra a maré trabalhando dentro de Hollywood.
O DVD da Warner é duplo. No primeiro disco, aparece o filme com enquadramento original (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1), além de comentário em áudio com David Fincher. O segundo disco traz um enorme documentário (175 minutos) que explora toda a concepção e o desenvolvimento do projeto, inclusive mostrando em detalhes a produção dos efeitos visuais. Para os mais fanáticos, há galerias de fotos, storyboards e desenhos de produção.
- O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008)
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Jason Flemyng, Tilda Swinton
Duração: 159 minutos

(51 votos. Média de 4,37 em 5)


Achei o fime belíssimo. O final emociona e faz até o mais insensível dos homens chorar (aliás, notei que, ao final da projeção, várias pessoas permanceram na sala se recompondo do choro).
Gostei muito da sua critica, mas tenho uma observação: não entendi o motivo pelo qual você só deu quatro estrelas ao filme, já que a sua crítica foi extremamente favorável.
Abraço.
Já escrevi antes aqui no site (ver FAQ) que as estrelinhas são um desfavor à boa crítica, apesar de praticamente exigidas pelos leitores. É impossível expressar subjetividades através de um sinal gráfico simplificador com esse.
No caso específico, não considero o filme uma obra-prima (fator necessário para receber uma nota 5). O uso de efeitos especiais é problemático em alguns momentos, aqui e acolá o filme resvala para o melodrama fácil, e em alguns momentos ele é narrado em excesso. São problemas menores, mas existem – apenas não os mencionei diretamente na crítica, pois o texto estava longo demais e eu não queria transformar a crítica num tratado.
Abraços
[...] melancólico por todo o século XX, Fincher e o roteirista Eric Roth … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]
Parabéns a Fincher !
Um leigo, graças a deus, não consegue – e nem gostaria de conseguir – esmiuçar detalhes que lhe roubariam a fantasia que tanto trabalho deu para criar. Acho mesmo que os créditos de um filme deveriam todos aparecer apenas no final.
Continuo achando que o cinema, como arte, tem três grandes gênios sempre: o autor do argumento, o roteirista e os diretores, por que incluo o de fotografia.
Bom ator quem decide é o espectador e a mídia, talvez não nessa ordem.
abraços
Passei a conhecer o seu trabalho tem exatos três dias. Li algumas críticas suas e, mesmo discordando de algumas, gostei bastante das suas análises.
Sobre o filme “O Curioso Caso…”, achei-o bem fraco… esperava muito mais dele. Como já falaram, a narração em OFF seria dispensável, tem furos no roteiro como a história da filha dela dizer que não sabia que a mãe era bailarina (sendo que no filme mostra a filha na academia de ballet da mãe)….
Sem contar algumas passagens que parecem saídas de um livro de auto-ajuda de quinta categoria (como a cena final com a narração em OFF). Ah, e claro, a atuação de Brad Pitt está em piloto automático (ele já teve atuações bem superiores).
Outra coisa foi situar a história em New Orleans, na época do Katrina. Isso não acrescenta em nada a história.
SPOILER
Sem contar a obviedade da menina ser filha de Button. Mais óbvio que isso, impossível.
Um grande abraço e, a partir de agora, serei um leitor assíduo!
Achei o filme belíssimo, no entanto com algumas observações.
Não concordo que Brad Pitt estivesse com uma atuação “piloto automático”, como relatado pelo leitor. A excessiva-necessária maquiagem interfere mesmo, mas ainda assim, pude perceber a diferença no olhar do ator nas diferenças fases da vida do personagem. Quando criança, apesar de parecer um idoso, a expressão inocente se misturava a uma ruptura na infância jamais vivida. (Sim, eu NÃO sou uma Pittmaníaca!!!).
Geralmente, tendo a não gostar de filmes com muita maquiagem ou com muitos efeitos especiais, mas, como já citei, a maquiagem fora necessária. Muito bem feito, no entanto, senti falta de uma Cate Blanchet mais idosa.
O fato do furacão Katrina ter sido inserido no filme, do início ao final não acrescentou nada. A não ser uma obviedade dos incentivos fiscais da administração de Nova Orleans para que o filme fosse filmado lá.
Outro ponto muito solto foi o beija-flor. Ok, tem uma ligação com um trecho do filme, mas ficou demasiadamente melodramático (admito, chorei horrores!!!). É aquela velha receita Hollywoodiana de tornar o filme com um Q de chorôrô no final. A história não precisava disso… Mas é um filme que vale a pena ser visto e comentado.
Abração!
Fernanda
Ao meu ver alguns críticos não podem ouvir os elogios do público que logo procuram defeitos que só ‘um crítico’ vê.
A atuação de Pitt não compromente, a meu ver, pelo simples fato de que eu prestava menos atenção nos atores e mais nas questões filosóficas e no “baile” que estava a fotografia. Apesar da trama central, temos uma série de pequenas estórias, tragicômicas na figura do homem dos raios (ei, só contei seis, alguém achou o sétimo?) e melacólicas como no caso relojoeiro cego que perde o filho e na sequência de causa-e-efeito do acidente.
O fato do Katrina entrar na estória, justifica-se por ter sido “A” grande tragédia de New Orleans e serve como fecho do arco temporal entre os começos dos séculos XX e XXI, no qual ambos começaram com tragédias.
Os “drawnbacks” ficam por conta da narrativa intensiva, particularmente creio que o boa parte do público está acostumado a receber tudo mastigadinho, senão não entende, o uso desse recurso é o temor do filme não ser entendido (vide Blade Runner, quem sabe daqui a alguns anos teremos um director’s cut ) e do beija-flor como figura metafórica de vida após a morte e quem sabe de algum tipo de redenção.
No mais excelente filme, memorável mesmo, vale a pena!
É muito nome mesmo, já que ele atua do mesmo jeito do ínicio ao fim (piloto automático como disse um aí em cima) e talvez tenha algo no “olhar” mesmo (como disse outra lá).
Achei o filme muito bom, adaptação da história, maquiagem, figurino, narrativa, atores coadjuvantes, mas nunca (!) merecedor de 12 ou 13 indicações (quantas estatuetas será que leva?).
Interessante a jogadinha com os créditos e título do filme aparecendo apenas no final, se eu bem entendi.
Quatro estrelinhas para ele.