Ilha do Medo
25/07/2010 | Categoria: DVDInteligente, visualmente brilhante, cheio de bons atores e sonorizado de forma criativa, longa-metragem de Martin Scorsese se ressente de falta de energia e empatia
Por: Rodrigo Carreiro
NOTA DO EDITOR: 




Uma olhada retrospectiva à carreira de Martin Scorsese comprova que os melhores filmes do diretor norte-americano surgiram como trabalhos de encomenda. Mais do que criar histórias originais, a verdadeira habilidade de Scorsese sempre esteve em dar forma e conteúdo a histórias inventadas por outras pessoas, injetando nelas elementos que funcionaram como assinaturas estilísticas. “Ilha do Medo” (Shutter Island, EUA, 2010) segue esta trilha e alcança um resultado muito bom, embora não deixe de ser um filme menor dentro de uma carreira que inclui obras-primas do naipe de “Taxi Driver”, “Touro Indomável”, “Caminhos Perigosos” e “Os Bons Companheiros”.
É provável que a origem do interesse de Scorsese no projeto esteja na época em que o filme é ambientado: os anos 1950, com ecos do militarismo da II Guerra Mundial misturando-se à atmosfera de paranóia e perseguição política vivida durante a “caça aos comunistas” promovida pelo senador Joseph McCarthy. Foram os filmes desta época, bem como outros ambientados nela, que despertaram o interesse obsessivo de Scorsese pelo cinema, levando-o a tornar-se cineasta. Não é difícil ver em “Ilha do Medo” a influência de Samuel Fuller e seu furioso “Paixões que Alucinam”.
Scorsese aplica ao filme sua tradicional abordagem requintada. A boa fotografia de Robert Richardson – interiores repletos de sombras e cantos escuros, exteriores tomados pela neblina e pela chuva cada vez mais intensos – e a excelente direção de arte de Dante Ferreti, ambos colaboradores tarimbados e parceiros de longa data do diretor, auxiliam Scorsese a enfatizar a atmosfera sombria que espelha, em termos puramente visuais, a alma atormentada do protagonista, o detetive federal Teddy Daniels (Leonardo de Caprio).
Teddy lidera a estranha investigação sobre o desaparecimento impossível de uma das pacientes de uma misteriosa instituição para doentes mentais localizada numa ilha cheia de penhascos e cavernas. A tal paciente, Rachel (Emily Mortimer), supostamente não poderia ter deixado sua cela, trancada por fora, e muitos menos deixado a ilha, fortemente vigiada por guardas e enfermeiros, todos extremamente obedientes ao sinistro diretor John Cawley (Ben Kingsley). Mas o fato é que ela conseguiu escapar de algum modo, e cabe a Teddy e ao novo parceiro Chuck (Mark Ruffalo) a tarefa de desvendar o mistério.
Do ponto de vista técnico, Scorsese faz um ótimo trabalho com o roteiro de Laeta Kalogridis. O clima de mistério e a atmosfera claustrofóbica estão presentes desde a primeira tomada – um barco abrindo caminho lentamente em meio a uma forte neblina – e o público, observando o desenrolar da trama sempre do ponto de vista de Teddy, pressente o mesmo que ele: há algo de profundamente errado com as pessoas da ilha. Tanto detentos quanto médicos e enfermeiros parecem estar ocultando algo. Mas o que seria esse algo? Que tipo de experiência poderia estar ocorrendo naquele lugar?
Teddy é, ele próprio, um homem atormentado por pesadelos e visões do passado. Ele atuou como combatente na guerra e esteve presente na liberação do campo de concentração de Dachau, Alemanha (nesse ponto a direção de arte comete um erro histórico curioso, já que as cercas, portões e prédios exibidos são uma reconstituição perfeita de outro campo, mais precisamente Auschwitz, e qualquer pessoa que já tenha visitado os dois lugares perceberá o problema, ainda que ele não seja relevante para a narrativa). Além disso, dois anos antes teve a mulher (Michelle Williams) morta num incêndio criminoso, cujo autor inclusive está preso na mesma ilha. Talvez por causa da influência do clima soturno do lugar, os pesadelos do detetive começam a se tornar mais freqüentes, com o enredo levando a um clímax surpreendente que pede uma revisão minuciosa.
Quarta parceria entre Scorsese e o astro Leonardo DiCaprio, “Ilha do Medo” conta com um elenco luxuoso (Max Von Sydow, Elias Koteas, Ted Levine e Jack Earle Haley fazem papéis pequenos, de uma ou duas cenas) e tem como destaque também uma trilha sonora pesada e dissonante, uma coleção de experiências atonais e concretistas compiladas por Robbie Robertson, e que inclui composições de Penderecki, Ligeti e John Cage. Embora pareça excessiva e bombástica demais em alguns trechos, a dissonância das composições enfatiza o clima de estranheza do lugar e é complementada perfeitamente por um desenho de som cuidadoso e inteligente (atente para o ruído de uma furadeira elétrica que volta e meia surge em meio a diálogos ou seqüências de flashback; o equipamento nunca aparece na imagem, mas funciona como uma pista essencial para a revelação final sobre a natureza do mistério).
De fato, “Ilha do Medo” é um digno representante de uma linhagem cada vez mais popular de filmes comerciais, e que consistem em narrativas subjetivas, cuja fronteira entre imaginação e realidade é constantemente desafiada. No entanto, apesar de ser um filme inteligente, visualmente brilhante, cheio de bons atores e sonorizado de forma criativa, o longa-metragem nunca chega perto de igualar, em termos de energia e empatia, os melhores trabalhos de Scorsese. O que falta não é qualidade, mas vibração. Nesse ponto, embora a homenagem a Samuel Fuller seja comovente, “Ilha do Medo” fica longe de atingir o turbilhão de emoções selvagens dos melhores filmes deste inspirador mais obscuro de um dos grandes mestres do cinema contemporâneo.
O DVD lançado pela Paramount, simples, não apresenta extras. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).
- Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2010)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley, Mark Ruffalo, Michelle Williams
Duração: 138 minutos

(16 votos. Média de 4,13 em 5)


continuando
Apenas como ressalva, achei “Ilha do Medo” absolutamente previsível do começo ao fim. Matei a charada com 15 min de exibição, e depois só fui encaixando as peças do quebra cabeça. Mas mesmo assim, Scorcese continua impecável!
parabéns pela crítica Rodrigo, mais uma brilhante!
Aliás, não parece um filme do Scorsese…
apenas uma sugestão
quando for fazer esse tipo de pergunta, coloque Spoilers, indicando que a sua pergunta pode revelar algo sobre a trama do filme
tem muita gente que lê a crítica e os comentários para saber da repercussão sobre o filme
Ainda bem que não vi o trailer, aliás não gosto de ver trailers…. as vezes tiram as surpresas do filme, as vezes criam expectativas equivocadas.
Defeitos: achei muito explicadinho, muito mastigado, podiam deixar o espectador refletir mais. E realmente é previsivel, depois de uns 40min suspeitei do final e depois de1h10min mais ou menos já tinha certeza (quero ler o livros pois li Sobre Meninos e Lobos e achei o escritor muito bom, melhor que o filme -que é ótimo – nesse caso).
Mas sinceramente não acho que fica devendo a muitos filmes do Scorsese (claro que Taxi, Touro e Bons Companheiros são obras-primas eternas, esses nem se pode comparar com nada) como, por exemplo Cabo do Medo que não acho lá essas coisas (esse Ilha do Medo é muuuuuito melhor). Pra mim o Scorsese continua em alta e de certa forma inovando a si mesmo no fato de tentar gêneros novos e não se repetir….e olha que acho que muita gente que não gostou vai gostar mais daqui a uns anos (no meu caso quando vi Taxi Driver gostei e só – mas sempre ficava com vontade de ver de novo – , depois comecei a idolatrar o filme).
E por último Rodrigo, acho que o último filme realmente bom com “final surpresa” e que quase ninguém matou a charada foi mesmo O Sexto Sentido.
não achei que faltou energia, não.
repensando o roteiro… é previsível sim, mas a história foi contada de maneira a não deixar a desejar… acho que você já pode até esperar boa parte da trama, mas ainda existem muitos detalhes inesperados, que fazem muita diferença.
merece ressalva a cena de uma das entrevistas (interrogatório…) de DiCaprio com uma paciente, quando ela pede um copo d’água. no plano ele aparece, no contraplano ele some. achei uma sacada genial.
=)
E aquela cena do farol?
Na primeira aparição ele parece estar no lá no alto da colina, intrasponível, no entanto, nas cenas seguintes ele aparece ao nível do mar, lá em baixo do penhasco… loucura? eheh
Di Caprio continua a me impressionar nas atuações… o cara é um ótimo ator.
Scorcese é fantástico… sempre inova.
Vale à pena conferir. Há muitos contrapontos entre loucura e sanidade… bem sacado.
Rodrigo, ótima crítica.
mas no mais, concordo com danilo que em 15 minutos de filme matei o mistério, mas seria muito ilógico se assim nao o fosse. mas gostei bastante, tem elementos que conseguem fazer voce se grudar na cadeira ate o final. e nao prende pelo horror, sustos e sangue, mas pelo mistério em si.
Tive a oportunidade de ver esses dias a revista em quadrinhos na qual se baseou o filme.
É praticamente o storyboard!! (pelo menos das duas primeiras cenas, que foi o que eu vi)
Nesse sentido, voce acha q o papel de direçao de Scorsese se faz menos importante por ja se ter praticamente os pontos de vista definidos ou ele ainda é totalmente louvavel se se for levado em consideração a encenação, direção dos atores, etc… ?
=)
Um filme surpreendente cheio de mudanças e armadilhas, talvez para nos confundir.Um dos melhores trabalhos de Leonardo DiCaprio!
Iha do Medo me surpeendeu. Nao tava levando o diretor Martin Scorsese mais a sério. Seus ultimos filmes Gangues de N.Y, O Aviador e Os Infiltrados foram fracos. Nem de longe lembram o homem que fez Alice Nao Mora Mais Aqui. Em nenhum momento saquei o lance que muitos viram. Até parece que esse pessoal vai ao cinema pra procurar descobrir esses lances. A historia é muito criativa e intelignte. A música cai como uma luva para esse suspense e lhe da um clima de terror. Sensacional e original. Uma das melhores que vi ultimamente. Parabens pela tua critica sobre o filme. É a melhor de todas que li sobre esse filme.
Um Abraço
Sander