Três É Demais

26/12/2004 | Categoria:

Bill Murray arrasa em surpreendente comédia melancólica para platéias inteligentes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Wes Anderson é um dos poucos cineastas independentes dos Estados Unidos que possui uma carreira ascendente sem fazer concessões a Hollywood. Mesmo jovem, e com poucos filmes no currículo, Anderson segue mantendo uma produção regular, com orçamentos decentes e elencos de primeira qualidade. A chave disso é simples: o cineasta tem talento genuíno, sabe escrever roteiros originais com sensibilidade, sem ser agressivo, e dessa maneira atrai bons atores para seus projetos sem precisar pagar a eles os cachês habituais que recebem. O início dessa trajetória remonta a 1998, quando ele lançou “Três É Demais” (Rushmore, EUA, 1998).

O filme, uma comédia melancólica para platéias inteligentes, não era uma estréia. Wes Anderson já havia realizado “Pura Adrenalina”, um longa-metragem promissor, mas ainda irregular. Quando escreveu o roteiro de “Rushmore” (a partir daqui, por favor, vamos tratar de esquecer o ridículo título nacional, uma das aberrações mais idiotas dos últimos anos), ele já tinha cacife suficiente para enviá-lo a atores de certo prestígio. Teve sorte: o texto caiu nas mãos de Bill Murray, que achou-o sensacional. Foi Murray o responsável por tirar o filme do papel. Ele usou o nome para conseguir um orçamento de US$ 10 milhões, uma ninharia para os padrões dos EUA, mas suficiente para Wes Anderson imprimir seu roteiro em celulóide.

Sorte nossa. “Rushmore” não é mais o trabalho promissor de um gênio em construção, mas um dos melhores exercícios de desenvolvimento de personagens que a nova geração de Hollywood foi capaz de fazer nos anos 1990. A partir desse filme, Wes Anderson definiu as características gerais que marcariam sua obra futura: construção meticulosa de personagens marginalizados pela sociedade, direção de arte detalhada, uso de trilhas sonoras compostas por canções pop desconhecidas (aqui, The Who, Ron Wood e Rolling Stones comparecem com gemas vintage), datadas dos anos 1960, e atuações minimalistas dos atores (freqüentemente, eles permanecem sem expressão, ainda que tenham falas tristes ou alegres). Juntas, essas características compõem um universo rico e complexo, que serve de cenário para as tramas absurdas, levemente surreais, que o diretor propõe.

O protagonista é Max Fischer (Jason Schwartzman), um estudante de 15 anos que se apaixona por uma mulher que tem o dobro de sua idade. Miss Rosemary Cross (Olivia Williams) está saindo de um período emocionalmente turbulento, pois acabou de ficar viúva. Ela também atrai os olhares do empresário Herman Blume (Murray), sujeito rico e infeliz, que identifica em Max características dele próprio quando jovem, e por isso se torna uma espécie de mecenas do adolescente. Sim, mecenas, porque Max faz de tudo para se enturmar no colégio Rushmore, onde estuda: é presidente de quase todos os clubes da escola, representante de turma e até paga por benfeitorias no colégio. Paga com o dinheiro de Herman, é claro, pois Max é filho de barbeiro, ou seja, um jovem pobre que morre de vergonha disso.

Parece uma trama absurda? De certa forma, é isso mesmo. Nos filmes de Wes Anderson, especialmente a partir de “Rushmore”, não têm compromisso com a realidade nua e crua. O diretor não se interessa por realismo. A pequena cidade em que Max vive é tão irreal quanto um brinquedo de marionetes. Seus personagens também não são reais, mas os diálogos que travam são de uma simplicidade tocante, tratando dos problemas do cotidiano dos personagens com humor (“Pensei que você fosse neurocirurgião”, diz determinado personagem ao pai de Max, um homem humilde que o filho sempre procura esconder. “As pessoas vivem cometendo esse erro, não sei porque”, sorri o homem de volta, radiante, mesmo sabendo de tudo sobre a vergonha do filho).

“Rushmore” é o melhor trabalho de Wes Anderson, porque transpira confiança e amor pelo cinema sem ser arrogante. Há uma porção de referências a filmes antigos, mas elas não são óbvias, e somente cinéfilos experientes vão reconhecer cenas inspiradas em “Sindicato de Ladrões”, de Elia Kazan. Até mesmo a hilariante seqüência “roubada” de “Apocalypse Now”, de Coppola, passa despercebida a muita gente. No final das contas, “Rushmore” criou um estilo que já começa a ser imitado (“Napoleon Dynamite”) e estabeleceu o nome de Wes Anderson como um dos cineastas mais originais e criativos de sua geração.

Infelizmente, o filme não tem uma edição brasileira em DVD, podendo ser encontrado somente em VHS. Na Região 1, a Critério Collection incluiu o filme na sua respeitável galeria de clássicos, lançando uma edição caprichada, com som e imagem de primeira qualidade, e um monte de extras. Além do ótimo documentário de bastidores, há comentário em áudio com o diretor e os dois atores principais (Murray e Schwartzman), uma entrevista com Wes Anderson, esquetes teatrais supostamente dirigidos por Max Fischer (assista ao filme e você vai entender a brincadeira) e até uma galeria de storyboards desenhada pelo próprio diretor. Coisa fina.

– Três É Demais (Rushmore, EUA, 1998)
Direção: Wes Anderson
Elenco: Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams, Seymour Cassel
Duração: 93 minutos

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