1001 Filmes para Ver Antes de Morrer

23/12/2008 | Categoria: Outros textos

Edição luxuosa reúne 75 críticos apaixonados por cinema e incentiva-os a compartilhar esse amor com outras pessoas

Por: Rodrigo Carreiro

Quanto tempo você leva para ver um total de 1001 filmes? A maioria dos mortais comuns provavelmente passará a vida inteira sem ver tantas obras de arte audiovisuais, mesmo incluindo aquelas sessões despretensiosas em que a televisão está ligada e você espia de vez em quando, com o rabo do olho, enquanto cochila no sofá ou faz qualquer outra coisa na sala de sua casa. Um cálculo rápido confirma o raciocínio: se vir um filme por dia, religiosamente (número que raríssimos cinéfilos conseguem cumprir), você vai precisar de três anos e três meses para completar todas as indicações sugeridas por “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”, a compilação de 960 páginas coordenada por Stephen Jay Schneider. Trata-se de um sucesso editorial traduzido para 25 línguas e com mais de um milhão de exemplares vendidos pelo mundo.

É difícil imaginar uma razão objetiva e sensata que leve um pesquisador a coordenar um grupo internacional e multidisciplinar de trabalho, composto por 75 críticos e estudiosos de cinema de nove diferentes países, na tarefa hercúlea de selecionar os títulos e escrever pequenas resenhas críticas sobre cada um deles. No prefácio da luxuosa edição brasileira, toda impressa em papel couché, Schneider confessa: não há argumento capaz de sustentar a consistência ou a lógica do projeto. Ao concebê-lo, ele simplesmente queria juntar um grupo de apaixonados por cinema e incentivá-los a compartilhar esse amor com outras pessoas, com qualquer grau de conhecimento técnico-teórico sobre filmes, que também gostassem de se embriagar com filmes. A arte, afinal, não é objetiva. E nem precisa ser sensata.

Para a seleção final, houve apenas um critério de escolha: cada título precisava ter algum grau de importância na história da Sétima Arte, fosse esse critério técnico, narrativo, estético, social, econômico, político. O sucesso de público, tanto quanto as qualidades formais, também foi levado em consideração. Schneider diz que o ecletismo pesou na lista final – ele e os colegas queriam oferecer ao leitor um panorama completo do cinema, dos pequenos faroestes e comédias mudos da primeira década do século XX aos grandes musicais da Golden Age de Hollywood (1935-50), do impressionismo francês (década de 1930) ao neo-realismo italiano (1940-50), da emergência dos blockbusters nos EUA (1975-80) aos pequenos e obscuros filmes dinamarqueses e iranianos que sacudiram o mundo dos cinéfilos na década de 1990. Está tudo lá.

Cinéfilos mais radicais podem reclamar do tamanho dos textos. Durante a fase final da seleção, Schneider dividiu os filmes em três blocos principais. O autor do texto sobre cada obra tinha que escrever 150, 250 ou 500 palavras, conforme o grau de importância dado ao filme na lista definitiva. Todos os autores foram orientados a incluir elementos de contextualização histórica, pequenas descrições e uma breve análise estético-narrativa. Tudo muito sucinto. Sim, é um livro de críticas ligeiras, mas isso não quer dizer que os textos sejam superficiais ou descartáveis. Num trabalho desse porte, é natural que o nível varie de texto para texto. As críticas vão do trivial ao brilhante. Há alguns erros factuais (“Todos os Homens do Presidente” não ganhou o Oscar de melhor filme), mas no geral a maior parte dos textos cumpre perfeitamente a função primária desse tipo de trabalho: despertar a atenção do leitor, fazê-lo sentir vontade de ver certos títulos que, de outro modo, ele jamais se sentiria tentado a procurar na locadora.

Além disso, a apresentação gráfica é impecável. A seleção de fotos e cartazes das produções – de excelente qualidade, com muito material raro – é de dar água na boca até de cinéfilos mais experientes. E o Brasil sai bem na fita. Além de emplacar um representante entre os críticos que escreveram para a publicação (Jaime Biaggio, do jornal O Globo, contribuiu com alguns textos), o país tem diversos filmes na lista, inclusive trabalhos de Glauber Rocha e Hector Babenco, além do quase onipresente “Cidade de Deus” (o filme de Fernando Meirelles tem lugar cativo na lista dos 20 melhores filmes da história do cinema, no banco de dados mais completo do mundo, o IMDb).

Para um cinéfilo, mesmo experiente, é sempre um prazer folhear um livro como “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”. É preciso, porém, não perder de vista o caráter panorâmico da publicação, além de considerar também algumas observações importantes – em grande parte dos textos, por exemplo, os autores não hesitam em entregar toda a trama do filme, inclusive o final, o que pode desagradar muitos leitores. Essa característica, aliás, mostra que o editor tinha total consciência do papel da publicação no tímido mercado editorial sobre cinema. No fundo, a compilação presta-se mais ao papel de volume de consultas, quase como uma enciclopédia ou dicionário, do que ao de tomo definitivo sobre os grandes filmes da história do cinema. Tendo isso em mente, é só deixar a memória viajar sobre alguns clássicos (e outros nem tanto) da Sétima Arte.

– 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, de Stephen Jay Schneider
Editora Contexto, 960 páginas

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


29 comentários
Comente! »