Enxurrada de refilmagens

12/02/2011 | Categoria: Outros textos

Por que os grandes estúdios de Hollywood têm o hábito de refilmar bons filmes não falados em inglês?

Por: Rodrigo Carreiro

Março de 2010. O filme argentino “O Segredo dos Seus Olhos” (2009), do diretor Juan José Campanella, fatura o Oscar de melhor produção não-falada em língua inglesa. O prêmio coroa uma carreira internacional vitoriosa e recheada de elogios da crítica. Corta para outubro do mesmo ano. Pouco mais de seis meses depois, a Warner anuncia que fará um remake do longa-metragem, adaptando o enredo para a língua inglesa, transportando a ação dramática para os Estados Unidos. Essa sequência de acontecimentos explicita um fenômeno que começou durante os anos 1980 e vem se tornando cada vez mais comum: as refilmagens de produções estrangeiras, levadas a cabo pelos maiores estúdios de Hollywood.

Os exemplos que confirmam a exacerbação dessa tendência são cada vez mais numerosos. O caso mais evidente tem como protagonista o thriller policial “Os Infiltrados” (2006), responsável por dar a Martin Scorsese o primeiro Oscar de direção da carreira – e, também, por ter sido o primeiro remake de produção estrangeira a receber a estatueta de melhor filme. “Os Infiltrados” faz pouco mais do que duplicar, cena após cena, uma engenhosa trama de espionagem oriunda de Hong Kong e popularizada em “Conflitos Internos”, obra lançada em 2002 que alcançara grande sucesso na Ásia. A trajetória dessa adaptação foi semelhante à seguida por filmes como o franco-holandês “O Silêncio do Lago” (1988), o dinamarquês “Perigo na noite” (1994), o espanhol “Preso na escuridão” (1998), o japonês “O chamado” (2002), o sul-coreano “Oldboy” (2003) e os suecos “Deixe ela entrar” (2009) e “Os homens que não amavam as mulheres” (2009).

Esses são apenas alguns dos títulos mais conhecidos a serem submetidos a uma espécie de tratamento de “americanização”. Via de regra, todos os longas-metragens citados passaram pela mesma experiência: após fazerem grande sucesso de público e crítica em sua região de origem, e assim chamarem a atenção de executivos de Hollywood, eles acabaram tendo os direitos comprados por produtoras norte-americanas. Então, receberam lançamentos em pequena escala dentro dos EUA (exibições restritas no circuito de cinemas alternativos ou venda direta em formatos de consumo caseiro, como VHS e DVD). Em seguida, foram reescritos e refilmados com elenco americano.

Outro aspecto em comum, nesses casos de refilmagem, é que todos os novos roteiros mantêm os aspectos dramatúrgicos da progressão da trama, mas sempre transpõem a ambientação geográfica e cultural para algum ponto dentro do território dos Estados Unidos, além de eliminar da trama todos os aspectos exóticos que possam soar estrangeiros demais para o americano médio. O clima de repressão política na Argentina (pano de fundo de “O Segredo dos Seus Olhos”), a viagem de bicicleta longa feita entre países (quando ocorre um evento crucial da trama de “O Silêncio do Lago”) e o polvo engolido vivo (cena de “Oldboy”) são aspectos retirados dos remakes. Afinal, pelo raciocínio dos produtores, nada disso faria sentido para o público-alvo dessas produções, para quem esse tipo de experiência cultural soa como incompreensível.

Esse raciocínio explica, em parte, um enigma que tem assombrado todos os estudiosos desse fenômeno: por que Hollywood simplesmente não lança os filmes originais, ao invés de perder tempo e dinheiro refazendo as obras, muitas vezes com resultados que copiam plano a plano os originais (caso do austríaco “Funny Games”, filme de Michael Haneke, de 2007, e até mesmo do mitológico “Psicose”, de Alfred Hitchcock, refeito em cores por Gus Van Sant em 1998, numa estratégia equivocada de marketing que quase enterrou a carreira do respeitado diretor independente)? A resposta, no entanto, admite ainda uma série de variáveis que precisa ser considerada.

A principal delas é a rejeição do público americano aos filmes realizados em outras línguas. As estatísticas mostram que de 1980 a 2010, quase 997 longas-metragens de língua não-inglesa foram lançados oficialmente nos cinemas dos Estados Unidos. No entanto, 70% desse total tiveram bilheterias inferiores a US$ 1 milhão, o que faz com que qualquer obra a ultrapassar essa cifra seja considerada um “sucesso” (para filmes em inglês, uma arrecadação inferior a US$ 50 milhões é sempre contabilizada como fracasso). Em 30 anos, somente 24 filmes não falados em inglês ultrapassaram os US$ 10 milhões arrecadados dentro dos EUA (entre eles “O Labirinto do Fauno”, de Guilermo del Toro, e “Diários da Motocicleta”, do brasileiro Walter Salles, ambos vencedores de categorias técnicas do Oscar). Esse número cai para nove se a barreira a ser superada for de US$ 20 milhões. A lista é liderada por “O Tigre e o Dragão” (2000), de Ang Lee – único título da lista a superar os US$ 100 milhões arrecadados – e inclui o italiano “A Vida é Bela” (1998) e o chinês “Herói” (2004) nas três primeiras posições .

Nem sempre foi assim. Nos anos 1960, auge da Nouvelle Vague francesa – e é importante ressaltar que, se os filmes de François Truffaut, Jean-Luc Godard e conterrâneos não chegavam a ser exibidos nas cidades rurais dos EUA, eram extremamente populares entre universitários e junto ao público jovem intelectual de grandes metrópoles das costa oeste (Los Angeles, San Francisco) e leste (Nova York, Miami) –, cerca de 10% da arrecadação financeira do circuito de exibição cinematográfica do país vinha de filmes estrangeiros. Essa cifra havia caído para 7% em 1986, quando o fenômeno das refilmagens realmente ganhou corpo. De lá para cá, o número despencou para menos de 1% em 2009. Em outras palavras: o mercado cinematográfico para filmes não-ingleses nos Estados Unidos vem encolhendo dramaticamente.

Onde estaria a origem para esse encolhimento? Mais uma vez, a resposta vem de aspectos culturais. O star system – tendência natural do público consumidor de cultura popular a transformar uns poucos atores e atrizes em grandes celebridades, cujos rostos familiares atraem mais pessoas para os cinemas do que os elogios da crítica ou o nome do diretor – contribui bastante para que os filmes estrangeiros, carentes de astros, passem despercebidos. O circuito exibidor contemporâneo, com cadeias de entretenimento que procuram oferecer menos opções de filmes para, assim, maximizar o lucro com as produções de maior potencial, também prejudica os filmes mais obscuros. Por fim, há uma questão cultural importantíssima que é o obstáculo final às produções estrangeiras em Hollywood: as legendas.

A Motion Picture Association of America (MPAA) calcula que sete em cada dez espectadores dentro dos Estados Unidos não assistem a filmes legendados. Acostumadas a ver a produção cinematográfica maciça ser falada na própria língua, essas pessoas não se sentem confortáveis para ler legendas. Há um componente cultural nessa rejeição – a força do hábito – mas, de todo modo, existe também um componente puramente cognitivo: ao ter que dividir a atenção com a leitura de legendas, o espectador reduz significativamente o tempo dedicado à interpretação daquilo que vê na imagem. O processamento cognitivo de informações visuais é simplesmente maior para quem precisa lidar com as legendas, e isso termina por afastar aqueles que não exercitam esse hábito com frequência.

Alguns críticos e pesquisadores também têm levantado, nos últimos anos, suspeitas de que os roteiristas norte-americanos têm passado por uma suposta crise criativa, algo que poderia ser comprovado pela tendência massiva de refilmagens de grandes sucessos do passado, inclusive norte-americanos (“A Fantástica Fábrica de Chocolate”, o vindouro “O Mágico de Oz”), e também pela preferência acentuada dos produtores por franquias de sucesso (“O Senhor dos Anéis”, “Harry Potter”, “Crepúsculo”, os filmes da série Batman) e adaptações de outras mídias, como quadrinhos e videogames (“Scott Pilgrim Contra o Mundo”, “300”, “Sin City”). No entanto, é difícil sustentar essa afirmação a partir de estatísticas, uma vez que os roteiros originais são historicamente menos numerosos, e isso nunca foi garantia de qualidade.

De todo modo, é importante olhar de modo crítico o preconceito atávico da comunidade cinéfila, para quem o fato de carregar consigo o status de remake faz de qualquer filme um produto de menor qualidade. Embora a maior parte das refilmagens dilua a força do original, seja limitando-se a atualizar os efeitos especiais (“O Planeta dos Macacos”, de Tim Burton) ou eliminando dos personagens qualquer tipo de complexidade moral (“Vanilla Sky”, de Cameron Crowe), existem as sempre bem-vindas exceções, em que os diretores das versões mais recentes conseguem incluir temas ou comentários críticos de ordem pessoal ou social. É o caso de “Os Infiltrados” e de “Deixe-me Entrar”, remake do sueco “Deixe Ela Entrar”, ambos elogiados pela crítica internacional.

* Texto originalmente publicado na revista Continente, nº 122 (fevereiro de 2011).

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