Stanley Kubrick

27/08/2008 | Categoria: Outros textos

Artista nova-iorquino era dono de um projeto único de cinema: fazer o melhor filme de cada gênero

Por: Rodrigo Carreiro

Para alguns abnegados, “impossível” não passa de uma palavra num dicionário, um conceito abstrato, que está aí para ser desafiado. O cineasta Stanley Kubrick era uma dessas pessoas raras. O projeto de cinema que o cineasta nascido em Nova York levou a cabo, em treze longas-metragens, não tem paralelo. Normalmente, a obra de todo grande diretor de cinema possui um fio condutor, um tema ou característica estética que se desdobra por diversos filmes, por mais diferentes que eles pareçam. Kubrick subiu ao panteão máximo da atividade sem obedecer a este postulado. A rigor, o único elo entre os trabalhos que ele dirigiu na maturidade está na vontade obsessiva de ir mais longe do que qualquer outro cineasta que o antecedeu.

Obsessão é a palavra-chave para entender quem foi Stanley Kubrick. No documentário “Imagens de uma Vida”, o veterinário da família conta uma história que dá a medida exata de como o cineasta era maníaco por detalhes. Ele diz que certa vez pediu a Kubrick que medisse a quantidade de água bebida por um dos gatos da casa, então doente. O diretor respondeu ser impossível, já que todos os felinos – ele tinha vários – bebiam da mesma tigela. No dia seguinte, quando o médico já esquecera o incidente, recebeu um telefonema de Kubrick. Ele descobrira uma maneira de conseguir a informação: passara o dia inteiro na cozinha, a contar quantas lambidas o gato doente dava na água. Calculando também a quantidade de água absorvida por cada lambida, chegara à quantidade correta.

Kubrick passeou pelos gêneros mais díspares. Fez filmes de guerra (“Glória Feita de Sangue”, “Nascido para Matar”), noir (“O Grande Golpe”), ficção científica (“2001 – Uma Odisséia no Espaço”), comédia (“Dr. Fantástico”), aventura futurista (“Laranja Mecânica”) e de época (“Barry Lyndon”) e até horror (“O Iluminado”). O objetivo era sempre o mesmo: produzir a obra-prima – o filme perfeito – de cada gênero. Qualquer pessoa comum que outorgasse a si próprio tal projeto pareceria arrogante e megalomaníaca. Só que Kubrick não tinha nada de comum. Ele foi, talvez, o único cineasta de todos os tempos a justificar tamanha megalomania com o mesmo tanto de talento. Não à toa, seu nome está inscrito no seleto grupo de realizadores – junto com Griffith, Welles, Fellini e talvez Bergman – que mudou a cara do cinema, justificando o título de Sétima Arte recebido pela atividade.

Ao contrário de muitos colegas de profissão, Kubrick tinha consciência exata do tamanho do talento que possuía. Como um autêntico superdotado, a escola lhe dava tédio – e as notas baixas forçaram a família a deixá-lo abandonar as salas de aula, antes de completar o Segundo Grau. Adolescente, foi ganhar a vida jogando xadrez a dinheiro, em tabuleiros no Central Park, em Nova York. Sua paixão, no entanto, era a imagem. Usando uma máquina fotográfica presenteada pelo pai, Kubrick vendeu sua primeira foto para a revista Look aos 16 anos. Um ano e vários trabalhos mais tarde, já estava empregado. Mas a carreira de fotógrafo não lhe entusiasmava tanto quanto o cinema (“o melhor trenzinho que uma criança pode ganhar”, segundo a célebre definição de Orson Welles). Fez o primeiro curta-metragem aos 22 anos. Em 1953, aos 25, dirigiu o primeiro longa, “Fear and Desire”. O pai, sempre botando fé no gênio do filho, penhorou uma casa para bancar a película. O resultado, porém, não agradou a Kubrick, que retirou o filme de circulação um ano depois. O trabalho jamais seria lançado novamente, em qualquer formato.

Dois anos depois, ainda no sistema independente, Kubrick fez “A Morte Passou por Perto”, um autêntico noir, que chamou a atenção da crítica pela sinistra seqüência no clímax, com dois homens lutando dentro de uma sala cheia de manequins. Foi com “O Grande Golpe” (1956), porém, que o diretor chamou a atenção de Hollywood. A narrativa labiríntica sobre um grupo de ladrões espertos que arma assalto sofisticado a um hipódromo mostrou ao mundo que ali estava um cineasta completo. Kubrick, porém, ensaiava vôos mais altos. Ele tinha consciência de que precisava adquirir conhecimento cinematográfico, e usou os três filmes como aprendizado, fazendo de tudo. Além de dirigir, também escreveu os roteiros, fez a direção de arte, fotografou, montou e editou o som dos longas. Tudo isso lhe permitiria, futuramente, inovar em virtualmente todas as áreas do cinema, da produção de cenários às técnicas avançadas de efeitos especiais.

“Glória Feita de Sangue” (1957) é considerado o primeiro grande filme de Stanley Kubrick. Trata-se de um drama de guerra estrelado por Kirk Douglas e ambientado nas batalhas do primeiro grande conflito mundial (1914-1918). Era o início do projeto de cinema de Kubrick. Pela primeira vez, o cineasta se sentia suficientemente seguro para desobedecer as convenções de um gênero e reinventá-lo por completo. Até então, todo filme de guerra que se preze narrava a história de um herói. “Glória Feita de Sangue”, pelo contrário, usava a covardia para analisar friamente as ambições políticas e as tendências destrutivas do comportamento humano. O resultado foi tão bom que levou Kirk Douglas a convidar Kubrick para assumir seu filme seguinte, “Spartacus” (1960).

O primeiro épico sobre o Império Romano sem a presença de Jesus Cristo como coadjuvante elevou o nome de Kubrick ao posto de gênio do cinema. A experiência, porém, desagradou ao cineasta. Nos sets, demitiu atores e teve uma briga homérica com o experiente fotógrafo Russell Metty. Este último pediu para ter o nome retirado dos créditos porque Kubrick, teimoso e dominador, o obrigava a usar lentes e iluminar as cenas de um modo que Metty considerava inadequado. Meses depois da estréia, acabou empunhando o Oscar de melhor fotografia, com um dos maiores sorrisos amarelos da história do prêmio. Esta briga, contudo, não foi a mais famosa entre as diversas travadas durante as filmagens.

Na pós-produção, Kubrick deu uma demonstração definitiva de que não tinha limites, nem mesmo éticos, para atingir objetivos. Sabedor de que o roteirista Dalton Trumbo não podia assinar a obra (ele estava proibido de trabalhar em Hollywood, por ter se recusado a dedurar comunistas durante o MacCarthismo), o diretor sugeriu ao astro e produtor, Kirk Douglas, que o deixasse levar crédito pelo roteiro. Douglas, furioso, recusou – e contribuiu para derrubar a censura em Hollywood ao pôr o nome de Trumbo na abertura. Depois do episódio, Douglas e Kubrick cortaram relações. Anos depois, ao ser questionado sobre o cineasta, o ator foi incisivo: “Você não precisa ser boa pessoa para ser um gênio. Stanley Kubrick é um gênio e um idiota”.

Insatisfeito com a falta de liberdade experimentada em uma grande produção, Stanley prometeu a si mesmo que jamais faria novamente um filme em que não tivesse controle criativo total sobre o processo. Deu, então, uma reviravolta definitiva na carreira. Mudou-se para uma casa de campo na Inglaterra, tornou-se um recluso – raramente dava entrevistas, e quase nunca fazia aparições públicas – e assinou um contrato de exclusividade com a Warner. O estúdio, reconhecendo o gênio inovador de Kubrick, lhe oferecia carta branca para fazer qualquer filme que desejasse, na época em que desejasse, com o elenco que desejasse. Até o fim da vida, Kubrick jamais trabalharia para outro estúdio, desfrutando de uma liberdade criativa que nenhum outro cineasta de sua época obteve. Também jamais deixaria a Inglaterra.

O primeiro projeto dentro deste contrato, porém, deixou os executivos da Warner de cabelo em pé. “Lolita” (1962) adaptava o polêmico romance de Vladimir Nabokov, sobre um professor que nutre uma paixão explosiva por uma menina de 12 anos. Kubrick foi obrigado a aumentar a idade da personagem para 14 anos, e a escalar uma atriz para o papel que não tivesse seios desenvolvidos. Qualquer referência à prática de sexo entre os personagens deveria ser sumariamente excluída. Ao final das filmagens, o diretor reclamaria do resultado, julgando que as imposições o haviam impedido de fazer o filme que desejava. Mesmo assim, criou uma das cenas de erotismo mais vibrantes que o cinema havia visto até então: o momento em que o professor, siderado de desejo, pinta as unhas do pé da ninfeta, praticamente babando na gravata.

A seguir, Kubrick partiu para a comédia. “Dr. Fantástico” (1964) satiriza a Guerra Fria com senso de humor mordaz, ao mostrar como um militar de miolo mole podia, sozinho, dar início a um apocalipse nuclear. A interpretação magistral de Peter Sellers (em três papéis completamente diversos entre si) e o clímax impagável, com o piloto caubói que “monta” a bomba atômica como se fosse um cavalo, dão o tom de ironia feroz. Era a preparação para a maior ousadia do cineasta. O épico sci-fi “2001 – Uma Odisséia no Espaço” tinha a pouco singela ambição de discutir o lugar do homem no universo. As reações foram, como se hábito, polêmicas. Pauline Kael, maior autoridade entre os críticos durante a virada dos anos 1960/70, liderou o bombardeio, chamando-o de “filme amador mais caro já feito”.

Woddy Allen, que detestou o longa ao vê-lo pela primeira vez, talvez seja o autor do melhor raciocínio sobre ele. Muitos anos depois, ao revê-lo, Allen começou a mudar de opinião. Na terceira revisão da obra, capitulou: “É uma das raras vezes em que tenho que engolir que um diretor está muito à frente de mim”, anuncia, no documentário “Imagens de uma Vida”. Com “2001”, além da fama de polêmico, Kubrick ganhava também o rótulo de visionário. Afinal de contas, ele havia feito um filme sobre o espaço antes que imagens feitas fora da atmosfera terrestre  estivessem em circulação. Quando isso finalmente aconteceu, alguns meses depois, o mundo inteiro viu que Kubrick havia previsto o espaço com impressionante riqueza de detalhes. A visão da Terra que se tinha de lá, por exemplo, era exatamente aquilo que se vê na tela.

“Laranja Mecânica” (1971) não contribuiu em nada para melhorar a fama de recluso e polêmico do diretor. A sátira futurista escancara de vez o pessimismo de Kubrick em relação ao futuro da humanidade – e as radicais alterações na trama do romance de Anthony Burgess levaram o escritor a declarar ódio mortal ao cineasta, algo que já havia acontecido também com Nabokov. Kubrick não deu muita bola. Em “Barry Lyndon” (1975), aplicou ao passado a mesma abordagem meticulosa que havia dedicado ao futuro. Sua obsessão em detalhes chegou ao auge. Em busca da representação mais fiel possível da realidade, Kubrick obrigou a figurinista Milena Canonero a passar dois anos freqüentando leilões de roupas do século XVI, de forma que todos os figurinos usados pelos atores fossem mesmo roupas reais de 300 anos antes. Para poder filmar à noite usando apenas a luz de velas, o diretor usou uma lente do telescópio Hubble, emprestada pela Nasa, capaz de captar imagens em condições mínimas de iluminação.

Por tudo isso, a fama de excêntrico de Kubrick só fazia crescer. Para “O Iluminado” (1980), ele construiu todos os cenários simultaneamente. Ao acordar, decidia de supetão, baseado no estado de espírito, que cena iria filmar. Tratava aos berros a atriz principal, Shelley Duvall, porque queria que ela estivesse permanentemente sob tensão, com os nervos em frangalhos, já que era assim que a personagem permanecia durante quase toda a narrativa. Kubrick ainda voltaria à guerra (“Nascido para Matar”, de 1987) e faria uma incursão sombria pelas obsessões sexuais de um burguês (“De Olhos Bem Fechados”, de 1999), antes de morrer de ataque cardíaco, durante o sono, em 7 de março de 1999. Fazia apenas três dias que ele acaba de editar o último filme. É bem provável que tenha usado sua habilidade no xadrez para jogar uma partidinha com a Morte, de modo a ganhar tempo e finalizar o trabalho. Para Stanley Kubrick, é bom lembrar, nada era impossível.

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