Vampiros no cinema

15/09/2010 | Categoria: Outros textos

Um panorama histórico sobre a presença dos seres sobrenaturais mais fascinantes e sedutores da sétima arte

Por: Rodrigo Carreiro

Embora tivessem alcançado o apogeu da fama somente depois que o cinema surgiu e se consolidou em torno de uma indústria de entretenimento lucrativa, os seres sobrenaturais sempre existiram, sobretudo no folclore popular e na literatura. Aliás, foi precisamente da arte literária que surgiu o arquétipo do vampiro – o morto-vivo que não pode ver a luz do sol, transforma-se em morcego e bebe o sangue das vítimas mordendo-lhes a jugular. Todas essas características estão presentes em “Drácula”, o romance de Bram Stoker, que reciclou o incipiente mito do vampiro (muito explorado por autores românticos/góticos ao longo do século XIX) e deu-lhe uma feição definitiva ao ser publicado, em 1897.

A publicação original da novela de Stoker aconteceu pouco mais de um ano depois que os irmãos Louis e Auguste Lumière realizaram, num café parisiense, a primeira demonstração pública do cinema, em dezembro de 1895. Não se trata de mera coincidência. Se a existência dos vampiros precede a indústria cinematográfica, foi esta última que transformou os mortos-vivos em arquétipos modernos que sintetizam a eterna luta do ser humano para escapar do medo da morte – ou melhor, do medo de que nada exista em outra dimensão.

Não há dúvida: Drácula é o mais popular de todos os personagens da história do cinema. Frankenstein, Joana D’Arc e até mesmo Jesus Cristo perdem em popularidade cinematográfica para o príncipe romeno. Segundo o maior banco de dados sobre cinema do planeta, que pode ser consultado no site Internet Movie Database (www.imdb.com), até o final de 2009 foram produzidos nada menos do que 1.294 longas-metragens e seriados de TV que apresentam personagens vampiros, sendo que um sexto desse total – exatos 200 filmes – trazem o aristocrata oriundo da Transilvânia como personagem, seja protagonista ou coadjuvante.

De qualquer forma, Drácula demorou a se tornar protagonista de longas-metragens. Isso só ocorreu em 1922, quando o diretor Friedrich Wilhelm Murnau adaptou o livro de Bram Stoker para as telas no clássico do expressionismo alemão: “Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror” (1922). O filme, hoje reconhecido como obra-prima, passou vários anos proibido na Europa, porque usava a trama e os personagens criados pelo escritor inglês, com nomes modificados, sem o consentimento da família dele. As técnicas inovadoras de iluminação, maquiagem, movimento de câmera e cores valeram a Murnau o passaporte para Hollywood.

O curioso é que o chupa-sangue foi tão bem representado pelo ator Max Schreck (em sua estréia na telona) que uma lenda inacreditável passou a circular no meio cinematográfico: Schreck seriam um vampiro de verdade interpretando a si mesmo. A lenda é tão curiosa que foi transformada em filme pelo diretor E. Elias Merhige: “A Sombra do Vampiro” (2000) coloca Willem Dafoe no papel do ator que interpreta Nosferatu e precisa esconder de todos que é um vampiro de verdade.

Apesar de o pai dos vampiros ter chegado ao cinema apenas na década de 1920, as criaturas da noite já apareciam em filmes mudos, tanto americanos quanto europeus, desde 1896 – um ano antes de Bram Stocker publicar seu livro, portanto, já existia curta que abordava a lenda dos vampiros: o francês “Le Manoir du Diable”, do pioneiro Georges Mèliés, em que o diabo literário Mefistófeles se transformava em morcego. Entre 1909 e 1920, os americanos produziram nada menos do que 19 filmes sobre o assunto. Na Dinamarca, saíram dois filmes; na Suécia, mais um; na Hungria, em 1921, Drácula apareceu pela primeira vez com seu verdadeiro nome. Mas todos esses curtas tiveram circulação limitada e hoje não estão mais disponíveis.

Em 1931, os vampiros invadiram Hollywood. E mais uma vez pelos dentes de Drácula, pois o conde apareceu como protagonista pela primeira vez num filme americano, dirigido por Tod Browning. O ator que o interpretou já era especialista no personagem. Havia interpretado o papel no teatro, em Londres e na Broadway, e se tornaria um dos rostos mais conhecido do vampiro no Cinema: o húngaro Bela Lugosi. Foi a imagem de Drácula pintada neste filme, com a luz do grande fotógrafo expressionista Karl Freund, que o mundo passou associar aos vampiros. Eles eram seres aristocráticos, de olhar hipnótico, com longos caninos brancos, vestido de negro e usando longas capas esvoaçantes. O sucesso alcançado provocou o lançamento da série de filmes de baixo orçamento da Universal, que passaria as décadas de 1930 e 1940 investindo em monstros como Frankenstein e a Múmia.

Após um breve período em baixa, quando os horrores da guerra estava vívidos demais na experiência das pessoas para permiti-las sentir medo de seres sobrenaturais, os vampiros ressurgiram com força total na Inglaterra, ao final da década de 1950. Mais uma vez, Drácula esteve no centro desse renascimento. Ele se deu através da pequena produtora Hammer, que restaurou o figurino clássico do Drácula da Universal e adicionou sexo, violência e cor – especialmente o vermelho do sangue – à narrativa. A série de filmes da Hammer trouxe oito longas-metragens protagonizados pelo conde vampiro e revelou o ator inglês Christopher Lee, que interpretou Drácula pela primeira vez em 1958 e seguiu dando vida ao personagem até o fim da década de 1970. Ao todo, ele vestiu a capa preta com forro vermelho do conde em dezoito obras.

A partir dos anos 1960, a febre dos vampiros se tornaria permanente, e o personagem passaria a servir para que cineastas de diversas escolas, épocas e países dessem vazão aos medos, desejos e perversões de cada época. Foi assim que surgiram paródias como “A Dança dos Vampiros” (1967), de Roman Polanski, que satiriza as ditaduras do Leste europeu, ou “Blácula” (1972), em que o vampiro é negro. Na verdade, esses filmes usavam o arquétipo do morto-vivo para traduzir, em metáforas cinematográficas pouco disfarçadas, características sociais que estavam emergindo durante as fases em que foram produzidos, como a luta pelos direitos humanos das minorias e os embates ideológicos em torno da Guerra Fria.

Aos poucos, os vampiros se tornaram bissexuais góticos (“Fome de Viver”, de 1983), adultos que seduziam adolescentes (“A Hora do Espanto”, de 1985), jovens delinqüentes (“Os Garotos Perdidos”, de 1987) e até mesmo fazendeiros que viviam num cenário de western pós-moderno (“Quando Chega a Escuridão”, de 1987, um dos primeiros filmes de Kathryn Bigelow, primeira mulher a ganhar um Oscar de melhor diretor, em 2010).

A versão extravagante e ultra-romântica de Francis Ford Coppola para “Drácula” (1992), embora fosse extremamente diferente do espírito do romance original, teve o mérito de colocar os vampiros pela primeira vez no panteão dos grandes autores cinematográfico. Até então, os seres sobrenaturais estavam confinados às pequenas produções, e o trabalho de Coppola abriu as portas da primeira divisão de Hollywood para os vampiros. Foi dele que surgiu a inspiração para “Entrevista com o Vampiro” (1994), unindo os dois maiores galãs dos anos 1990, Brad Pitt e Tom Cruise. Mais recentemente, os vampiros voltaram se tornar metáforas eficientes para a chegada da maturidade a adolescentes solitários, como se pôde ver no filme sueco “Deixa Ela Entrar” (2009) e, claro, nos longas-metragens da série “Crepúsculo”. Arquétipos eficientes funcionam dessa forma: artistas com imaginação podem se utilizar deles para comentar todo tipo de assunto que desejarem. E o vampiro é um dos mais eficientes e glamorosos arquétipos da atualidade. É por isso que sempre haverá lugar para eles nas narrativas cinematográficas.

PARADOXOS DO CORAÇÃO

A personalidade histórica mais conhecida de todos os tempos, Jesus Cristo, cravou presença em 303 longas-metragens e séries de TV entre 1895 e 2010. Na lista dos personagens ficcionais, o conde Drácula lidera a lista, com 200 aparições em obras cinematográficas e/ou televisivas. Os dados são do Internet Movie Database. Se a dianteira do filho de Deus é grande, essa distância é minimizada por dois fatores que contextualizam adequadamente a peleja. Primeiro, a soma de todos os filmes com vampiros (1.294) supera com larga margem os títulos cristão, e é preciso considerar que a mitologia vampiresca derivou quase que completamente do romance de Bram Stoker. Em segundo lugar, Jesus é um personagem histórico, enquanto Drácula não passa de ficção.

Esta segunda comparação descortina o tamanho da incrível popularidade dos vampiros na era midiática em que vivemos. Mas, afinal, qual é a origem do fascínio que essas criaturas da noite, cuja existência não passa de lenda, exerce sobre o imaginário popular, cada vez mais dominado pela cultura pop globalizada? Esta é uma pergunta complexa, mas que não vem passando despercebida dos principais pensadores de nosso tempo, sobretudo na área da teoria cinematográfica. O filósofo Noël Carroll, uma das figuras mais proeminentes dos estudos midiáticos contemporâneos, dedicou um livro inteiro às reflexões sobre esse tema.

Intitulada “A Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração” e publicada no Brasil em 1999, a pesquisa de Carroll tentou elaborar respostas para duas questões que, juntas, estão na raiz do nosso dilema. O filósofo e professor da Universidade de Winsconsin (EUA) sintetizou seus problemas da seguinte maneira: (1) Como alguém pode ficar apavorado com o que sabe não existir, e (2) por que alguém se interessaria pelo horror, uma vez que ficar horrorizado é tão desagradável?.

Obviamente, as respostas que ele nos oferece não cabem nas poucas linhas desse texto. De forma resumida, Carroll estende sua reflexão a todas as obras narrativas de ficção, explicando que a natureza do ser humano nos impele a investir afetivamente em qualquer narrativa, inclusive ficcional, mas – especialmente no caso dos filmes de horror – mantém conosco o controle dessa experiência afetiva, na medida em que sempre podemos fechar os olhos e “desligar” (inclusive literalmente) a narrativa ficcional. Nesse sentido, então, ficamos apavorados e nos interessamos pelo horror artístico porque essas experiências nos dão combustível para enfrentar os desafios da vida cotidiana, liberando tensão e funcionando como uma válvula de escape.

No entanto, Noël Carroll não explica porque vampiros exercem um fascínio maior sobre as pessoas do que, por exemplo, lobisomens (filmes com essas criaturas somam apenas 362, na lista do IMDB). Nesse ponto, é preciso abandonar a filosofia analítica de Carroll e recorrer às teorias psicanalíticas que propõem uma ligação direta entre as pulsões de sexo e morte na psique da raça humana. Além de dominar perfeitamente seu lado animal (algo que nenhuma outra criatura da ficção de horror consegue fazer), Drácula é um ser capaz de vencer a decadência física e a morte, oferecendo aos espectadores uma metáfora pouco disfarçada das delícias do sexo. Essa combinação, especialmente nos adolescentes rodeados de fantasias românticas, é imbatível.

* Texto originalmente publicado na revista Eita! nº 4 (agosto de 2010).

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