Baz Luhrmann

27/09/2003 | Categoria: Outros textos

Diretor de ‘Moulin Rouge’ fala sobre cinema, musicais da Broadway, filmes indianos e lembra fatos da carreira

Por: Rodrigo Carreiro

O australiano Baz Luhrmann é um sujeito obsessivo. Essa característica o leva a marcar posição como um dos cineastas mais autorais da nova geração. Os três filmes que ostenta no currículo são coerentes tanto na temática, sempre às voltas com a impossibilidade do amor, quanto no visual, arrojado e hipercolorido. Luhrmann esteve no Brasil em agosto de 2001, para lançar o musical “Moulin Rouge” (EUA, 2001), sua cria mais famosa.

Numa tarde ensolarada, Luhrmann recebeu uma centena de jornalistas nos salões nobres do hotel Copacabana Palace. A princípio cheio de pose, vestindo uma camisa azul aberta e chinelos vermelhos, ele logo relaxou. Durante uma hora e meia, respondeu a todas as perguntas, das inofensivas às espinhosas, olhando diretamente nos olhos dos interlocutores e chamando-os sempre pelos nomes. Depois, o Cine Reporter ainda esteve com ele durante mais 20 minutos, numa mesa redonda em uma das amplas suítes do hotel. Nesta entrevista está um resumo dos dois bate-papos. Luhrmann fala das dificuldades na produção de “Moulin Rouge” e conta detalhes do processo de criação do musical.

Os dois primeiros filmes que você fez usam muita música, e “Moulin Rouge” é um musical. Você quer ser lembrado como um diretor de musicais?
Baz Luhrmann – (Enfático) Não quero passar para a História como diretor de musicais. Este é o último filme do meu primeiro ciclo, que chamo de Cortina Vermelha (Red Curtain). Esses filmes têm um lado muito teatral e são sempre baseados em mitos, em histórias de amor impossível. “Moulin Rouge” fecha um ciclo. Não sei sobre o que será meu próximo filme, mas existem algumas histórias muito pessoais que precisam ser contadas, e a linguagem musical ou teatral não se encaixa muito bem nelas. Mas que fique claro: eu adoro musicais e posso voltar a fazê-los mais à frente.

Por que a música é um elemento tão importante nos seus filmes?
Luhrmann – Eu adoro música desde criança, penso de forma muito musical. Na verdade, acho que penso na utilização de música em filmes de forma um pouco diferente de outros diretores. A música é uma ótima forma de contar histórias, porque une as pessoas através do tempo e do espaço.

“Moulin Rouge” vai ser apresentado na Broadway?
Luhrmann – A Broadway é o caminho natural de um diretor como eu. Meu próximo projeto é uma ópera, “La Boheme”, de Giacomo Puccini, que já montei na Austrália, há dez anos. “La Boheme” vai para a Broadway em 2002 (isso realmente ocorreu). Acho que meus três filmes dariam bons espetáculos musicais, e “Moulin Rouge” certamente vai estar na Broadway em pouco tempo. Isso já está sendo negociado.

Por que essa sua obsessão com o amor enquanto tema principal de filmes? Não é um sentimento que Hollywood banalizou demais?
Luhrmann – O amor não é uma música boba, como diz Paul McCartney (risos). Hollywood pode ter banalizado um pouco o amor, mas ainda acho que o cinema o usa bem como um meio de contar histórias. Num nível muito pessoal, me fascina o fato de que esse sentimento é capaz de derrubar reinos e atingir da mesma maneira pessoas poderosas ou miseráveis, inteligentes ou ignorantes, bobas ou espertas. O amor nivela todo mundo. Minha próxima peça teatral também fala sobre o amor. Mas estou tentando abandonar um pouco esse tema, falar sobre outras coisas. É difícil.

Foi difícil ajustar a agenda de tantos atores famosos para filmarem juntos num país distante como a Austrália?
Luhrmann – O processo foi desgastante e trabalhoso. Era muito difícil conciliar as agendas de todo mundo, especialmente porque todos tinham que estar na Austrália ao mesmo tempo. Ainda por cima tínhamos a pressão de ter que terminar de filmar dentro do prazo, porque o estúdio já estava alugado para que George Lucas filmasse “Star Wars – Episódio Dois”.

E o DVD do filme?
Luhrmann – Trabalhamos duro nele. A idéia sempre foi incluir muito material de bastidores, como números musicais ampliados e cenas inéditas.

O mito de Orfeu já foi filmado muitas vezes. Por que contá-lo novamente?
Luhrmann – Conheço “Orfeu Negro” (de 1957) e acho que aquela foi uma boa maneira de contar o mito de Orfeu. Sei também que existe um filme brasileiro sobre o mesmo mito, feito há alguns anos, mas não tive oportunidade de assisti-lo ainda. Achei que poderia trabalhar o mito numa história diferente, mas sempre deixando-o muito claro na mente do espectador – por isso o final da história é revelado logo no início do filme. O importante em “Moulin Rouge” não é a história, mas a maneira de contá-la.

Você escolheu suas músicas favoritas para contar a história de “Moulin Rouge”?
Luhrmann – Muita gente acha isso, mas não é bem assim. Veja o exemplo de “Like a Virgin” (Madonna). Muita gente pode achar que a canção é ruim, mas isso não nos importava. O único critério de escolha é que a música se ajustasse à história que queríamos contar. Na verdade, todo o filme foi criado com base em uma pesquisa muito ampla e profunda. Primeiro pesquisamos o mito de Orfeu. Depois, reviramos revistas do século XIX, para poder ambientar o filme com fidelidade àquela época. Quando decidimos fazer um musical, vimos que isso exigiria poesia brilhante, de ótima qualidade. Nós (Baz e o co-roteirista Craig Pearce) começamos a escrever as músicas, mas a poesia era ruim, não somos poetas (risos). Daí surgiu a idéia de usarmos trechos de músicas conhecidas, canções populares de todas as épocas do século XX. O público entenderia e se identificaria com mais facilidade.

Não houve nenhum problema em conseguir autorização dos compositores das canções usadas no filme?
Luhrmann – Tive uma grande surpresa nessa questão. Foi muito fácil usar as canções. Quer dizer, tive que procurar todo mundo, todos os compositores, isso é trabalhoso. Mas todo mundo ficou muito animado. Dolly Parton adorou a idéia de poder fazer sucesso novamente (risos). Houve apenas duas rejeições. A primeira foi de Cat Stevens. Queríamos usar um trecho de “Father & Son” e ele não permitiu, por questões religiosas (nos anos 70, Stevens se converteu ao islamismo fundamentalista e abandonou o show business). Isso eu posso compreender. Já o outro problema foi com Donna Summer, e esse caso foi mais estranho. Ela já havia proibido a utilização de outra música em “Romeu + Julieta”, sem nenhuma razão aparente. Acho que ela não gosta muito de mim (risos).

Convencer os atores a cantar foi difícil?
Luhrmann – Os atores que eu conheço adoram cantar. Todo mundo adorou poder fazer isso num filme. Ewan McGregor, em especial, estava muito empolgado. Mas deu trabalho, claro. Ewan e Nicole fizeram testes, tiveram que passar por um treinamento duro de dança e canto, inclusive fisicamente. Ela quebrou duas costelas, ele quebrou outra, depois Nicole machucou o joelho. Fisicamente foi muito desgastante.

Como foram gravadas as faixas vocais dos números musicais?
Luhrmann – A idéia inicial era gravar ao vivo no set e usar o som original. Isso se revelou tecnicamente muito difícil. Então, passamos a gravar os atores cantando antes de filmar as cenas. Mesmo assim, procuramos manter o som original pelo menos do início das músicas, para que a orquestra, que foi gravada depois, pudesse acompanhar a emoção do ator ao interpretar a canção: às vezes com raiva, outras com dor. Ou eles regravavam o áudio por cima das imagens já prontas. Houve uma combinação de técnicas.

Misturar canções como “Heroes” (David Bowie), que significa muito para toda uma geração, a músicas descartáveis de Madonna e Whitney Houston, não soa como uma espécie de heresia?
Luhrmann – Concordo que “Heroes” é uma canção simbólica, que marcou uma geração. Mas não gosto de compará-la a outras canções, não importa quais, porque todas essas músicas representam gerações diferentes, sobreviveram ao tempo. Quando “Heroes” surgiu, muita gente achava que era uma droga de música, e que Bowie não passava de um travesti (risos). E ele ainda está aí, hoje é muito respeitado como artista. Nem sempre foi assim. Não gosto dessa divisão entre cultura erudita e cultura popular. O texto de Shakespeare, no século XV, era cultura popular, e hoje é considerado erudito. Essas classificações mudam com o passar do tempo.

Por que “Moulin Rouge” se passa no final do século XIX? Não seria mais fácil ambientá-lo nos anos 70, por exemplo?
Luhrmann – Todo o filme veio do mito de Orfeu. O resto só foi decidido depois, com base em muitas pesquisas. Eu queria fazer um filme sobre o rito de passagem da juventude para o mundo adulto, a perda da inocência e a chegada da maturidade. Com isso em mente, fizemos uma pesquisa enorme sobre o universo da boêmia, de 1840 aos dias atuais. Eu poderia ter feito um filme sobre a discoteca Studio 54 (boate em Nova Iorque que seria o equivalente do cabaré francês na década de 70), mas isso desviaria o foco de atenção do espectador do tema principal, por ser uma época muito próxima de nós. Decidimos recuar mais no tempo e ficamos com a França do século XIX. Essa decisão foi tomada para sublinhar o mito de Orfeu na trama. Além do mais, muito da história da cultura popular do século XX apareceu no “Moulin Rouge”. Estive lá há dez anos, para ver um show de La Toya Jackson, e é um lugar decadente, mas conserva uma aura de glamour muito intensa. É um símbolo poderoso.

O tango aparece numa cena crucial do filme. De onde veio a idéia de usar esse ritmo latino?
Luhrmann – O tango era muito popular na França no final do século XIX. Veio da Argentina, como vocês sabem, onde era dançado pelas prostitutas nos bordéis de luxo. Essa dança e o que ela representa eram perfeitos para contar a história do filme. Além disso, a canção (“Roxanne”, do grupo The Police) ficava muito bem quando tocada nesse ritmo latino.

Por que tanta ênfase na linguagem visual do filme?
Luhrmann – “Moulin Rouge” tem muita influência do cinema asiático, especialmente indiano, o que chamamos de Bollywood (corruptela de Bombaim, capital da Índia, e Hollywood; a palavra designa o mercado de filmes produzidos na cidade). Lá, um filme pula rapidamente de uma cena triste para outra alegre, sem intervalos. Não se usa isso com freqüência no cinema ocidental. A linguagem visual tornou-se importante para ajudar o nosso público a se situar entre esses dois extremos. Para fazer isso, tivemos que enfatizar a iluminação e escolher as cores com cuidado.

Por que o enredo do filme é tão simples?
Luhrmann – Para mim, o importante em “Moulin Rouge” era inventar um código que desse destaque à música. As canções são o ponto-chave emocional dessa história, e é isso que define o filme como um musical. Por isso, tínhamos que criar músicas para cada cena emocional, e elas ficam mais longas dessa maneira. Um bom exemplo é a cena que se passa no prédio do Elefante (o segundo encontro entre os personagens de Ewan McGregor e Nicole Kidman). É um diálogo curto, que teria algo como uma página e meia de roteiro, ou 90 segundos, se filmado do modo convencional. Mas o uso da música expandiu a cena para mais de quatro minutos. Por isso a história é simples e o enredo, fácil e curto. A maior parte do trabalho foi transformar os momentos-chave do filme em música.

Você está satisfeito com o resultado?
Luhrmann – Eu vejo “Moulin Rouge” de modo muito pessoal, porque meu pai morreu exatamente no primeiro dia de filmagens. Eu queria parar tudo e ir para casa, mas não pude fazer isso, porque o estúdio já estava comprometido e eu precisava terminar o filme dentro do prazo. Olhando para trás, posso dizer que não fiz o melhor trabalho possível. Mas o filme me trouxe de volta à vida. No fundo, a minha experiência é exatamente o mito de Orfeu: há coisas na vida que você não pode controlar, e você precisa ter forças para passar por elas sem enlouquecer. O filme me ajudou a entender isso.

Há algo que você mudaria em “Moulin Rouge”?
Luhrmann – Tudo (risos). Eu gostaria de refazer tudo, sempre penso assim quando termino um filme. Não sinto vontade de assisti-lo por muito, muito tempo. No caso de “Vem Dançar Comigo”, por exemplo, eu só o vi inteiro, montado, três anos depois de terminá-lo. Estava andando na rua, parei numa loja de eletrodomésticos e lá estava o meu filme, na TV. Assisti em pé, da calçada (risos). Mas eu gosto de “Moulin Rouge”. Gosto muito da cena no Elefante: ali você pode ver o artista se expondo, há ingenuidade e vulnerabilidade. Isso define arte, para mim.

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