Bobby e Peter Farrelly

25/09/2003 | Categoria: Outros textos

Irmãos cineastas refletem sobre conservadorismo da sociedade americana com acidez e ironia

Por: Rodrigo Carreiro

A viagem dos irmãos Bobby e Peter Farrelly ao Brasil, em fevereiro de 2002, foi quase um momento de férias para a dupla que rachou o bico de milhões de pessoas com comédias anárquicas e grosseiras como “Quem Vai Ficar com Mary?” Relaxados, de chinelos e bermudas, os dois conversaram com um grupo de jornalistas num salão do Sheraton Hotel, no Leblon, diante de um mar azul. Depois, sentaram numa mesa de uma confortável suíte do Copacabana Palace para encontrar os mesmos jornalistas em pequenos grupos.


 


Os dois falam sério quando a pergunta é séria, mas não poupam piadas quando o assunto aborda os filmes que fazem. Eles zombam deles mesmos sem dó nem piedade. Peter, mais falante, parece refletir mais sobre o que fala. Bobby prefere o sarcasmo. Os dois são igualmente articulados. Simpáticos, os dois conversaram com o Cine Repórter durante 20 minutos, e não se esquivaram de nenhuma pergunta. Pelo contrário.


 


“O Amor É Cego” pode ser considerado menos anárquico de vocês. Os irmãos Farrelly estão mais suaves?


Bobby Farrelly – As pessoas esperam que sejamos politicamente incorretos o tempo todo. O que nos interessa não é isso. Queremos divertir as pessoas, e certamente isso depende de que elas não possam prever o que vamos fazer. Por isso, dessa vez decidimos mudar.


 


Qual a divisão de tarefas entre os dois diretores?


Bobby – A gente escreve, escolhe os atores e edita o filme juntos. Não há divisão, simplesmente. Trabalhamos no mesmo escritório, sem divisórias nas paredes. A única coisa que não fazemos juntos é dar instruções aos atores na hora das filmagens. Aí somente um de nós conversa com eles. Senão a gente corre o risco de confundi-los.


 


Vocês pensam no futuro DVD quando estão fazendo um filme?


Peter – Não, nunca. Não dou a mínima. O DVD é uma mídia excelente para diretores mais sofisticados, que sentem necessidade de compartilhar seu gênio monumental com a platéia (gargalhadas). Um cara como Scorsese deve ficar realmente excitado pensando num DVD de seus filmes, sem ironia nenhuma.Ele é um gênio mesmo. Nós não. Caras desse tipo podem gravar comentários em áudio, fazer documentários, mostrar um pouco da genialidade do processo de trabalho deles. Nossos filmes não precisam disso, a gente não tem nada demais a dizer. Não fazemos nada especial, apenas divertimos pessoas.


 


Cameron Diaz, Gwyneth Paltrow, Renee Zellweger. Como vocês conseguem convencer atrizes tão lindas a trabalharem com vocês em filmes tão anárquicos?


Peter – Sei lá, acho que elas gostam de perder essa aura de mulheres inatingíveis, pelo menos por alguns instantes. Nunca tivemos nenhum problema de ego com essas atrizes, todas são ótimas, muito profissionais. Na verdade, nosso único problema até hoje foi com Cameron Diaz. Ela ficou bem nervosa com aquela cena de “Quem Vai Ficar com Mary?”, em que confunde esperma com gel de cabelo. A cena tinha potencial para destruir a carreira da coitada (risos). Ela adorou o roteiro, mas levou duas semanas para assinar o contrato por causa daquela cena. A gente teve várias conversas e explicou a ela que faríamos uma exibição-teste. Se as pessoas não rissem daquilo, a gente tiraria do filme. Elas riram, todo mundo riu, o filme foi um sucesso e a carreira dela explodiu. Depois dela, as outras atrizes perderam o medo de trabalhar conosco.


 


Qual o próximo projeto de vocês?


Bobby – Há dois projetos. O primeiro é um longa dos Três Patetas. Só que isso ainda depende de muita negociação. Por enquanto, estamos trabalhando no roteiro de um filme chamado “Stuck On You” (literalmente “Grudado em Você”; o filme terá Matt Damon e Greg Kinnear nos papéis principais e já está pronto), que é uma história sobre gêmeos siameses. Esse filme já está acertado. Depois dele, a gente quer pensar no filme dos Três Patetas.


 


A sociedade americana é muito conservadora. Como isso afeta o trabalho de vocês?


Bobby – Os americanos parecem estar ficando mais conservadores nesses últimos tempos, depois da tragédia de 11 de setembro e tudo o mais. Por incrível que possa parecer, isso tem sido benéfico para o nosso trabalho. A comédia se beneficia demais desse tipo de situação. É o gênero em que a crítica social se encaixa mais naturalmente, por isso incomoda mais. Por isso, nos sentimos muito à vontade em fazer filmes nos EUA.Temos um público fiel. Mas nosso grande desafio mesmo é encontrar piadas que ainda não foram contadas.


Peter – Hoje, quando nos perguntam se está mais difícil fazer filmes, com os americanos estão ficando mais politicamente corretos, respondo que não. É mais fácil. Quanto mais a sociedade é conservadora, mais material nós ganhamos para trabalhar. O problema é que fazer comédias num lugar assim pode ser bom, mas viver não. Sabe, nos EUA hoje você precisa pedir licença antes de beijar uma garota pela primeira vez, senão ela pode te processar (risos).


Bobby – É muito louco, não? Imagine viver num lugar sem prostitutas e sem drogas. É muito chato! (gargalhadas). É brincadeira.


 


Bom, mas para tudo há um limite, não? Vocês imaginam um cineasta com coragem para fazer uma comédia sobre os ataques terroristas de 11 de setembro?


Bobby – Nesse momento, é claro que não. Ainda estamos sob impacto direto da tragédia. Nós dois somos os reis do mau gosto, mas mexer com uma situação dessas seria demais para qualquer um. Vai demorar alguns anos, talvez uma geração, para que os norte-americanos consigam encarar de frente o que aconteceu em Nova York. Agora, tenho certeza de que algum dia alguém rirá do 11 de setembro. Acho que faz parte da natureza do ser humano. Rir das grandes tragédias faz parte do processo de cura.

| Mais


Deixar comentário