Caio Junqueira

10/10/2007 | Categoria: Outros textos

Ator que faz o aspirante Neto em “Tropa de Elite” acha que o filme seria fenômeno mesmo sem a pirataria

Por: Rodrigo Carreiro

Segunda-feira, 8 de outubro, 14h55. O telefone celular toca. O visor exibe uma mensagem bem conhecida: “número confidencial chamando”. Normalmente ninguém gosta de ver esse tipo de mensagem. Quase sempre significa trote ou alguém indesejável. Não neste caso. Ela significa que do outro lado da linha está o ator Caio Junqueira, o aspirante Neto do polêmico filme “Tropa de Elite”. E é isso mesmo. Ele está ligando dos escritórios dos estúdios Paramount em São Paulo, para uma conversa de 20 minutos sobre um dos maiores fenômenos culturais já vistos no Brasil. A assessora nos apresenta e avisa que vai interromper o papo quando o tempo terminar. É preciso aproveitar cada minuto. 

Junqueira vem de uma maratona de entrevistas. Estamos no dia da pré-estréia paulistana do longa-metragem de José Padilha. O ator, um veterano de quinze filmes já premiado em Gramado (RS) mas pouco conhecido do grande público, acaba de chegar do Rio de Janeiro. Ele está cansado, claro, mas fala sem parar. Responde de forma articulada e sem economizar nas palavras. E o melhor: demonstra visível prazer em falar sobre o trabalho. Respostas longas são artigo mais ou menos raro em atores, que via de regra não costumam gostar de entrevistas. Apresentações feitas, vamos direto ao assunto. Os melhores momentos da conversa podem ser conferidos abaixo.


 


Como você chegou até o papel do aspirante Neto?


Fiquei sabendo do filme através de um grande amigo, que se chama Rafael Salgado e foi diretor de segunda unidade em “Tropa de Elite”. Acho que foi em maio de 2006. Ele me indicou para participar da primeira seleção de elenco. Na verdade, nem era um teste, era um teste para o teste. O filme já era muito falado entre os atores, todo mundo queria participar dele, então a produção decidiu fazer uma pré-seleção para escolher quem iria fazer os testes. Essa seleção foi dirigida pela Fátima Toledo (preparadora de elenco). Eu fiz o pré-teste para o personagem do capitão Fábio, mas logo que li o roteiro, quis fazer o Neto. Era perfeito para mim, só que no começo acharam que eu não tinha idade para o papel. Era muito velho. Aí o tempo foi passando, fiz a pré-seleção, participamos de um processo de preparação do elenco, fui conhecendo melhor a Fátima. Mostrei que era um cara jovial, que tinha condições de fazer o Neto. E acabei sendo escolhido, enquanto o Fábio ficou com o Milhem Cortaz, um ator sensacional. Respondi a sua pergunta?

Respondeu a primeira e a segunda, antes que eu fizesse…


(gargalhadas) Economizou tempo!


O que você acha que foi mais importante para o papel, o trabalho com Fátima Toledo ou o treinamento do Bope?
Foram duas coisas fundamentais. Todo o trabalho prévio com o elenco foi muito importante para o filme. Esse tipo de trabalho não é muito comum no Brasil, mas ajuda demais o ator a encontrar o tom do personagem. Na verdade a gente passou por três fases. Primeiro, o trabalho com a Fátima, que é genial. Depois tivemos três meses de preparação com a PM convencional. Fizemos um curso, aprendemos leis, tivemos aulas teóricas e práticas, tiro, a ordem do dia, todo o cotidiano da Polícia. Por fim, já perto das filmagens, fizemos um curso de 15 dias sobre o Bope. Foi radical, uma imersão dentro do universo real enfrentado pelos caras do Bope. Foi parecido com o trecho do filme com o treinamento. Para mim essa fase foi muito importante para encaixar a minha energia dele no perfil do personagem.


 


Você é parecido com o Neto?


Pois é, eu tenho uma personalidade intensa, impulsiva. Foi por isso que eu quis fazer o Neto. Percebi que meu jeito encaixava no dele. O treinamento do Bope foi imprescindível para canalizar isso. Até porque foi a primeira vez que tive um treinamento militar. Eu fui dispensado do Exército, nunca tive contato com esse universo, a disciplina rígida, nada. Foi muito bom poder sentir na pele a tensão, a vibração dessa vida.


Embora seja um dos três protagonistas, Neto é mais unidimensional. O filme não mostra nada da vida particular dele, em parte porque ele não tem uma, é 100% devotado à Polícia. Você acha que faltou uma dimensão mais humana ao personagem, que permitisse desenvolver uma empatia com o espectador?
Em primeiro lugar, eu percebo que o personagem é muito querido pelo público. O comportamento das pessoas comigo é incrível. Elas vêem o Neto, o Matias (André Ramiro) e o Nascimento (Wagner Moura) como heróis. E uma coisa com a qual nós três (os atores) concordamos é eles não são heróis. A gente faz questão de enfatizar isso, até combinamos de falar sempre disso nas entrevistas. Eles não são heróis. São o retrato de uma política de segurança deficiente. Vivo numa cidade (o Rio de Janeiro) em que a violência é cotidiana, está presente na rua de todo mundo. Quando as pessoas vêem alguém honesto combatendo o crime e a corrupção, ficam entusiasmadas. Mas o Neto e os outros PMs do filme fazem isso de uma forma que acho equivocada. Agora, sobre a empatia, a proposta do Padilha (diretor) não era a de evocar isso de forma individual. O filme não está a serviço de nenhum personagem, é o contrário. A idéia é priorizar o coletivo, o conjunto.


 


Talvez a reação entusiasmada das pessoas venha da coragem e da honestidade dos três personagens principais. Eles combatem a corrupção e também a violência, ao mesmo tempo. Eles fazem o que todo mundo tem vontade de fazer.


É isso mesmo. E eu acho que a empatia entre os personagens e o público se cria a partir daí. Mas preciso ressaltar: não acredito que a guerra com o tráfico vai resolver nada. A quem puder, recomendo que veja o filme “Notícias de uma Guerra Particular” (documentário de João Moreira Salles e Kátia Lund), um filme maravilhoso, que explica e desenvolve essa idéia de guerra urbana. Acho até que as pessoas deveriam ver “Tropa de Elite” mais de uma vez, porque ele explica tudo direitinho. Não tem pré-julgamentos, não segue uma fórmula, não tem rótulo. É um filme de ação que adota o ponto de vista de um policial. Isso não quer dizer que o diretor pense da mesma forma que o personagem narrador, ou que os atores pensem dessa forma. Eu acho que quando as pessoas se deparam com um filme espetacular como esse, com qualidade técnica, fotografia, roteiro, e que fale da realidade delas, reagem de forma apaixonada. Para mim isso demonstra uma carência de filmes que mostrem a realidade nua e crua do país.


 


A polêmica da pirataria fez bem ou mal ao filme?


Essa polêmica surgiu por causa da qualidade do filme. Sinceramente, acho que se não houvesse o episódio da pirataria, o filme acabaria tendo a mesma pegada, o mesmo apelo. As pessoas iriam falar de todo jeito. Claro que eu fico chateado pela pirataria, porque ela prejudica quem trabalhou no filme. Tira o lucro de gente que deu duro para realizá-lo. A pirataria é um atalho desleal para chegar à obra cultural, mas também é um reflexo da desigualdade social no Brasil. A maior parte dos compradores do DVD pirata é formada por gente que não pode ir ao cinema. Gente que não iria ao cinema de qualquer jeito. Isso demonstra que as comunidades carentes têm fome de cultura. Que o episódio sirva de alerta aos governantes, porque se eles investissem na cultura, talvez isso não acontecesse.


 


A equipe que realizou o filme esperava a atenção que ele acabou despertando, ou não tinha idéia do que iria ocorrer?


Quando se faz um filme, não dá para saber o que vai acontecer. A gente queria atingir o máximo possível de gente, claro. Teve muito suor no filme, muito sacrifício. A gente deu duro. Filmou em favela, correu riscos. Quando se faz isso, se espera reconhecimento. Mas a verdade é que ninguém sabe o que pode acontecer. E o que aconteceu (a explosão popular dos DVDs piratas) é puro mérito dos envolvidos no filme. Não há jornal ou revista que não tenha falado do “Tropa de Elite”, a Internet está cheia de polêmicas sobre ele. É justo, pela qualidade do filme. Porque é muito bom, cara! Todo mundo tinha vontade de que fosse um filme muito visto. Aconteceu de um jeito estranho, mas não deixa de ser maravilhoso para o cinema brasileiro. Abre mais caminho para conquistar um mercado para o filme nacional.


 


Algumas pessoas chamam o filme de fascista, outros vibram com ele. Qual a sua opinião?


Não é fascista. O filme mostra a realidade de um policial do ponto de vista deste policial. Provoca consciência nas pessoas, provoca debate, não aliena ninguém. Não tenta glorificar um ponto de vista com o qual o diretor não concorda, os atores não concordam. Como poderia ser fascista?


Tamanha exposição pode significar a consagração de um ator. Você tem consciência disso?


Bom, o filme não mudou nada na minha vida, pelo menos por enquanto. Vou fazer a próxima novela das seis, “Desejo Proibido”, mas o contrato estava assinado antes de o filme explodir. Por enquanto, estou completamente voltado para o trabalho de divulgação do filme e para a novela, que começa em novembro. Claro, tenho certeza absoluta de que será um marco na minha carreira. É o filme mais popular e o maior de que já participei.


 


Uma vez vi uma entrevista de Morgan Freeman e ele dizia que fez três filmes bons na carreira. Para ele, era uma marca extraordinária, porque a maioria dos atores passa a vida toda trabalhando e não consegue fazer três filmes bons. Você já fez os seus três filmes bons?  


(risos) Pensando bem, fiz até mais! Fiz “Central do Brasil”, era um papel pequeno mas num filme muito elogiado e muito legal. Teve “O que é Isso, Companheiro”, que alcançou projeção internacional. “Buena Sorte”, que me deu um prêmio no Festival de Gramado, meu primeiro prêmio, e é um filme do qual gosto muito. Não foi visto por quase ninguém, mas eu acho muito bom. Teve “Seja o que Deus Quiser”, bacanérrimo, um filme que ganhou o Festival do Rio. Gosto de todos eles, mas o grande lance é que nenhum deles teve grande projeção popular. “Tropa de Elite” é meu primeiro filme que tanta gente viu. Está tendo uma projeção que poucos filmes já alcançaram na história do cinema brasileiro.  Tenho consciência de que o filme é o maior marco da minha carreira, um marco difícil de superar.  


 


Você não acha que a pirataria pode prejudica a carreira do filme em DVD?


Ah, mas o DVD tem um trunfo, que é o making of, um documentário que cobre toda a parte de preparação dos atores, com o treinamento e tudo. É um outro filme, tão bom quanto “Tropa de Elite”. Eu considero espetacular. Para mim, nunca foi feita uma preparação tão intensa de atores em um filme brasileiro, e o documentário ilustra isso muito bem. Diria que é o equivalente nacional do documentário que fizeram sobre “Apocalypse Now” (o filme a que ele se refere se chama “Apocalipse de um Cineasta”, foi dirigido pela mulher de Francis Ford Coppola, aborda as dificuldades das filmagens do clássico de 1979, foi lançado em 1991 e recebeu muitos elogios).


 


E a carreira internacional do filme?


Com certeza “Tropa de Elite” vai alcançar um lugar muito bacana lá fora. Acho que terá uma projeção muito boa, vai ser admirado por quem conhece e entende de cinema. E merece. Porque tem uma linguagem singular, toda documental, diferente de tudo o que se faz por aí. A fotografia do Lula Carvalho é um negócio sensacional, visceral, espetacular. Quem gosta de cinema, quem estuda cinema, vai se impressionar com a técnica, com a força do filme.

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