Camila Morgado

19/08/2004 | Categoria: Outros textos

Atriz carioca (de Petrópolis) comenta dificuldades e boas recordações das filmagens de ‘Olga’

Por: Rodrigo Carreiro

A atriz Camila Morgado tem 28 anos e é uma descoberta pessoal do diretor Jayme Monjardim. Depois de defender um papel de destaque na minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, ela viu a carreira decolar e recebeu o primeiro convite para participar de um filme. Os desafios não eram poucos: “Olga” tem cara de superprodução, mas o projeto foi tocado em relativamente pouco tempo, o que gerou na novata muita ansiedade.

A entrevista a seguir foi feita nos estúdios da Rede Globo Nordeste. Enquanto aguardava para participar de uma entrevista ao vivo na TV, Camila conversou com o Cine Repórter sobre a preparação para “Olga”, as filmagens e até a sensação de ser uma falsa mãe. Concentrada, Camila gosta de falar um bocado, gesticula muito e encara o entrevistado olhando dentro dos olhos.

Como é que você entrou no projeto de “Olga”? Houve algum teste?
O grande teste foi a Manoela de “A Casa das Sete Mulheres”. Foi a partir daí que o Jayme Monjardim me chamou. No meio da minissérie, começaram a rolar uns boatos, mas não tinha nada certo. O Jayme uma vez me falou que eu era uma forte candidata. Aí, mais ou menos um mês depois da minissérie, ele me chamou e disse que eu iria fazer a Olga. Então, a Manoela foi o teste. Acho que a Manoela abriu a porta e a Olga entrou (risos).

Você teve tempo suficiente para se preparar?
Eu já conhecia o livro de Fernando Morais. Assim que o Jayme me chamou, eu reli o livro. Aí comecei a estudar a parte histórica. Li um monte de livros sobre a revolução russa, sobre a história do Brasil no século XX, sobre a Segunda Guerra Mundial. Depois é que começaram os preparativos para o filme em si. Tive aulas de tiro, treinamento militar para ganhar músculos, aulas de alemão para treinar sotaques. Nesse treinamento, fiquei dois meses e meio. Saí dele direito para filmar.

Esse tempo é normalmente curto para um longa-metragem. Deve ter sido muito rápido…
Muito rápido! Quando o Jayme me falou, comecei a estudar enlouquecidamente. Eu vi muitos filmes, sempre busco inspiração dos filmes. Comecei a procurar por músicas da época, fiz leituras. Foi uma corrida contra o tempo. Quando eu comecei a fazer o treinamento físico para o filme, tinha a agenda totalmente lotada. De manhã eu estava no Exército, de tarde ia para as aulas. Eu não parava. Fiquei cinco meses nesse ritmo louco para que o resultado final ficasse bom.

E te agradou?
Eu gosto muito. Principalmente porque eu me identifique muito com a personagem, aprendi a amá-la. Eu costumava dizer que, se “Olga” não funcionasse para o cinema, estava funcionando para mim.  É o meu primeiro filme, eu não tenho experiência no cinema, mas me marcou demais, me ajudou muito a me auto-conhecer. Quanto ao filme, eu não consigo descolar do personagem e assisti-lo com distanciamento suficiente. Ele ainda está muito recente. Só posso dizer que me emociona.

Você é mãe, Camila?
Não. Por quê?

É que as cenas da tua gravidez parecem ser as mais fortes do filme, elas provocam uma emoção visível na platéia…
É verdade. Eu sabia disso desde que li o roteiro pela primeira vez. Minha primeira providência foi logo descobrir em que momento das filmagens iriam acontecer as cenas do hospital. Aquela semana iria ser muito delicada e especial. Quando as filmagens daquelas cenas começaram, a gente estava filmando havia dois meses, e durante todo esse tempo eu nem dormia direito, pensando nessa semana. Porque aquele momento representa toda a trajetória de Olga: a Olga militante, a Olga mulher, a Olga mãe, está tudo ali.

Eu acho que é o momento em que as defesas dela finalmente desabam…
Pois é! E ao mesmo tempo ela tinha que ser agressiva e delicada. Tinha que ser um bicho, porque estavam roubando o filho das mãos dela. E tinha que ser delicada com a criança, que é um bebê. Antes de filmar eu fiquei muito nervosa, sabe? Aí decidi que iria fazer o máximo para interagir com a criança. Eu não podia fazer nada mais do que acompanhar a interpretação dela e improvisar. Pensei: “vou prestar muita atenção nessa criança porque ela vai me trazer esse frescor, essa novidade, essa emoção”. Eu me lembro que, na hora do parto, eu peguei o bebê no colo e ele sorriu. Foi de verdade! Fiquei completamente desarmada! Na cena da separação, em que a criança já está maiorzinha, ela se agarrou na minha cintura e falou “mamãe!”. Não estava no roteiro, e me emocionou totalmente. Essas coisas são maravilhosas…

Como é o processo de se despir da vaidade e raspar o cabelo, para uma mulher?
Isso foi a melhor coisa de “Olga” para mim. É muito difícil a gente conseguir ter esse despojamento. Hoje, quando eu vejo o filme, fica óbvio para mim que eu estava ali sem vaidade, sem pudor, porque me apaixonei por essa mulher. Quando me falaram pela primeira vez que eu ia ter que raspar o cabelo, minha reação foi “Meu Deus!!!”. Depois, relaxei. De certa forma eu tinha vontade de raspar a cabeça, só que nunca ia ter coragem, então a hora era aquela mesma. Mas à medida que o filme evoluiu, comecei a ficar ansiosa. Queria raspar o cabelo logo! Aí comecei a pensar que tudo aquilo fazia parte de um ritual, sabe? Porque era o meu primeiro papel no cinema, e eu amo cinema! Era um ritual de iniciação, coisa de destino mesmo. Os monges não raspam a cabeça para se iniciar no budismo? Então, raspar a cabeça era o meu batismo no cinema!

E quando as filmagens acabaram, foi difícil descolar do personagem?
Isso foi o mais difícil. Quando a gente terminou de filmar eu estava que nem um vulcão, no maior pique há quase três meses. O filme acabou, e eu ainda estava naquele pique. Daí eu acordava toda manhã, me olhava no espelho e pensava: “Estou horrorosa!”. Durante as filmagens eu tive que deixar todos os pêlos do corpo crescerem, pintar tudo de preto. Emagreci, tinha olheiras. Fiquei horrível (risos). Aí a ficha começou a cair. Depois, eu dei de cara com o meu quarto. Não era mais o meu quarto; era o quarto de Olga, cheio de livros, roupas, fotos, tudo ligado à personagem. Quando acabou, eu estava totalmente desgastada emocionalmente, cansada, arrasada. Para um ator, acho que esse é o pior momento. É como a cena da retirada da criança. O filme era minha criança, e tinha sido retirado de mim. Mas faz parte do processo, né? Acontece (risos).

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