Carlos Saldanha

24/09/2003 | Categoria: Outros textos

Brasileiro que co-dirigiu a animação ‘A Era do Gelo’ fala sobre o processo criativo dos desenhos contemporâneos

Por: Rodrigo Carreiro

Os últimos cinco anos, marcados pela evolução tecnológica, foram excepcionais para o cinema de animação. Empresas como Pixar e PDI quebraram várias barreira do setor: introduziram piadas e contextos adultos nos filmes para crianças, criaram e aperfeiçoaram ambientes em três dimensões de enorme perfeição. Isso se traduziu em filmes como “Toy Story 2” e “Monstros S/A” (da primeira, distribuídos pelo estúdio Disney), “FormiguinhaZ” e “Shrek” (da segunda, ligada à DreamWorks). Num mundo de tecnologia tão perfeita, os mais céticos poderiam pensar que não haveria lugar para brasileiros.

Ledo engano. O carioca Carlos Saldanha, 35 anos, está aí para provar isso. Trabalhando há nove anos para o estúdio novaiorquino Blue Sky, ele é o primeiro brasileiro a co-dirigir um longa de animação digital em Hollywood. O melhor é que seu filme, “A Era do Gelo”, marcou também a estréia da Blue Sky fora do setor da publicidade e o retorno triunfal da Fox ao mundo dos desenhos animados.

Nascido no Rio de Janeiro, Saldanha se mudou para os EUA em 1991, para fazer mestrado na Escola de Artes Visuais de Nova Iorque. Logo chamou a atenção de um professor que era sócio da Blue Sky. Contratado como animador, Saldanha impôs seu talento e virou diretor da empresa. Em “A Era do Gelo”, coordenou o trabalho de animação dos personagens e participou de todas as etapas da criação. Nesta entrevista, concedida de Nova Iorque por e-mail, ele diz que há espaço para brasileiros no setor de animação de Hollywood e defende que a tecnologia não significa nada se não vier associada a um bom roteiro.

A grande evolução tecnológica no setor de animação já possibilitou até mesmo a criação de um filme com atores digitais, Final Fantasy. Existe limite para essa evolução? Quais deverão ser os próximos avanços técnicos do setor, e quais os grandes desafios da atualidade?
Carlos Saldanha – A computação gráfica vai continuar evoluindo cada vez mais, impressionando o publico com efeitos especiais sofisticados, criando personagens e ambientes que antes não se podia imaginar que fossem possíveis de ser criados, tal como os humanos do filme “Final Fantasy”. Mas acho que ainda temos muito trabalho pela frente, e o futuro da animação não depende somente destes avanços tecnológicos. Com tempo e dinheiro tudo é possível. O verdadeiro desafio é, e sempre será, o de continuar a criar histórias e personagens interessantes e carismáticos, que possam prender o publico e levar mais pessoas aos cinemas – não só as crianças, mas toda a família.

Hoje, a animação já é feita para agradar a adultos e crianças, mas os filmes com temática basicamente adulta ainda não fazem sucesso. Você acredita que os avanços tecnológicos podem possibilitar o surgimento de um nicho de mercado no setor destinado a filmes adultos?
Saldanha – Acredito que se os filmes para adultos tivessem tido boas histórias, talvez tivessem obtido maior sucesso junto ao público. O mercado tem espaço para tudo e todos. Cada estilo de filme pode encontrar ou criar o seu próprio nicho, como o que acontece no mercado japonês, onde filmes de animação para adultos são muito populares e agradam muito. Mas continuo com a opinião de que a tecnologia é importante para dar liberdade criativa a diretores e animadores, e pode ser um grande atrativo para as pessoas irem ao cinema, só que não funciona sozinha. Acho que o público vai assistir a um filme para se identificar com a história e com os personagens, e se o visual é interessante e inovador, então o filme emplaca. A tendência será de criar filmes que agradem a todas as faixas etárias, como com “Shrek” e “A Era do Gelo”.

Na produção de “A Era do Gelo”, qual exatamente a função que um co-diretor precisou desempenhar?
Saldanha – Eu me envolvi com o projeto desde o início do desenvolvimento do roteiro. Participei do processo criativo de todas as seqüências. A nossa equipe criativa era muito grande e talentosa e todos contribuíram para o desenvolvimento do filme. Mas durante todo o projeto a minha responsabilidade principal como co-diretor, além de dividir algumas das tarefas criativas com o diretor, Chris Wedge, foi a direção da animação. Fiquei responsável pelo grupo de animadores, os técnicos que desenvolveram os personagens e as cenas. Trabalhava diariamente com todos os animadores para obter as melhores atuações possíveis dos nossos personagens. Tentamos desenvolver um estilo próprio de animação, que fosse divertido, dinâmico e de qualidade.

Como foi o processo de produção de “A Era do Gelo”? Quanto tempo o filme levou para ficar pronto, desde a aprovação do roteiro?
Saldanha – O filme levou três anos para ser feito. Passamos um ano trabalhando com o roteiro, adaptando a idéia original para animação, transformando a idéia original, que era mais dramática, para uma estória com bastante humor e aventura. Depois foram dois anos de produção. O trabalho foi intenso, mas valeu a pena.

O que é mais difícil num filme animado: lapidar o roteiro ou desenvolver as técnicas de animação?
Saldanha – Trabalhar com roteiro é sempre o maior desafio. Criar comédia é muito difícil e demora tempo para assimilar todas as idéias e passá-las para o papel. Já com animação, o trabalho é sempre intenso e o tempo é curto, mas se você gosta do que faz acaba de divertindo bastante. É muito gratificante. E parte desta diversão é explorar técnicas diferentes para criar um estilo próprio, fazendo um trabalho interessante e divertido de se ver.

Você e a Lúcia Modesto, que trabalhou em “Shrek”, são os animadores nacionais mais conhecidos no exterior. Existe mercado nos EUA para brasileiros que se destacam, no setor de animação, ou seu caso é uma exceção feliz?
Saldanha – Conheço vários animadores brasileiros talentosos por aqui, e eles estão presentes em todas os estúdios de animação nos EUA. O mercado é bem aberto e temos vários estrangeiros em nossa equipe. Se você é talentoso e profissional, não importa da onde vem, as portas sempre estarão abertas. No meu caso acho que sou o primeiro diretor brasileiro a fazer este tipo de trabalho, mas acho que muitos ainda virão.

Em 2001 tivemos um longa, “O Grilo Feliz”, de Waldecy Ribas; e alguns curtas de animação bem sucedidos, como “Deus É Pai”. O que você pensa do atual estágio da animação nacional? É possível criar um mercado para esses filmes aqui?
Saldanha – Procuro sempre me manter informado do progresso da animação no Brasil. Tento manter bastante contato com as pessoas engajadas no assunto, e sempre que posso vou ao Brasil fazer palestras e dividir um pouco do que aprendi ou desenvolvi com os animadores daí. Acho que temos talentos incríveis e a cada ano que passa, com a ajuda de festivais como o AnimaMundi, no Rio, o mercado se profissionaliza e se amplia. É difícil comparar o mercado americano com o brasileiro, mas acho que é possivel fazer algo similar. Existe talento, mas falta apoio financeiro.

Seus próximos projetos profissionais são todos ligados à Blue Sky? O que podemos esperar das futuras animações da empresa?
Saldanha – Estou na Blue Sky há nove anos e cresci com a companhia. Sou cria da casa e tenho bastante liberdade criativa para fazer projetos que me inspiram e me mantêm apaixonado por animação. Espero poder continuar a dirigir muitos mais projetos de animação pela frente.

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


19 comentários
Comente! »