Cinema X História

08/10/2003 | Categoria: Outros textos

Papel crescente dos filmes como material didático para ensinar episódios reais preocupa historiadores

Por: Rodrigo Carreiro

Cena do épico “Pearl Harbor” (2001): os aviões japoneses já destruíram muitos navios na base militar de Pearl Harbor e, agora, passam sobre o hospital da ilha de Oahu. Em meio às bombas e rajadas de metralhadora, uma enfermeira – personagem coadjuvante de importância no épico do diretor Michael Bay – cai morta. A cena causou um contra-ataque inesperado ao filme mais badalado do momento. O bombardeio ao filme não vem dos críticos de cinema, mas dos historiadores, que acusam o filme de deturpar a História. O motivo? Os japoneses não bombardearam hospitais e não há registro da morte de nenhuma enfermeira entre as 2,4 mil vítimas do ataque.

A vítima fictícia foi considerada a mais grave imprecisão histórica da produção de Jerry Bruckheimer, mas não a única. Especialistas apontam muitos erros e omissões na obra. “O filme é uma ficção, e quem desejar aprender a verdade sobre o ataque a Pearl Harbor deve consultar um livro de História”, defendeu Bruckheimer, com o discurso-padrão de Hollywood em uma briga que existe há decadas: o embate entre cineastas e historiadores em torno dos freqüentes erros históricos cometidos por filmes que tentam retratar episódios e personagens reais.

Embora insistam em justificar as liberdades criativas que distorcem fatos verídicos, em maior ou menor grau, diretores e roteiristas são constantemente criticados porque ignoram a importância dos filmes no aprendizado de História de boa parte da população atual. O escritor Gore Vidal já chegou a propor que o sistema educacional norte-americano aposente os professores de História e passe a adotar filmes para ensinar os adolescentes sobre o passado do planeta. A solução radical ainda não foi adotada, mas o uso de filmes como material didático já está difundido no mundo inteiro.

O ensaísta e historiador Mark Cristopher Carnes, estudioso da relação Cinema X História e autor de um dos livros mais interessantes e ilustrativos sobre o assunto, não hesita em apontar Hollywood como, mesmo inconscientemente, responsável pela falta de conhecimento histórico dos adolescentes atuais. “Professores vêm dedicando bom tempo de aula a filmes como “Gandhi” e “Malcolm X”. Filmes antigos reprisados na TV funcionam como uma escola, um repositório de consciência histórica em nossos Estados Unidos da Amnésia. Para muita gente, a História hollywoodiana é a única História que existe”, escreve ele, no prefácio do livro “Passado Imperfeito – A História no Cinema”, uma coleção de artigos de historiadores que aponta erros e omissões em mais de 100 filmes famosos.

No decorrer da análise apresentada no livro, editado no Brasil pela Record em dezembro de 1997, o historiador Eric Fones apresenta o grande impasse sobre o tema: a falta de diálogo entre os objetivos financeiros de Hollywood e os objetivos educacionais dos historiadores. “Já ouvi produtores dizerem inúmeras vezes que a única maneira de um filme funcionar nas bilheterias é colocar no anúncio a frase baseado em uma história real”, explica o diretor e romancista John Sayles.

Por outro lado, atéque ponto esses produtores estão sendo éticos ao apresentar como reais episódios fictícios que surgem em filmes como “Pearl Harbor”, “Gladiador” e “O Resgate do Soldado Ryan”? Nesses três filmes, existem personagens inventados que interagem com homens reais, cujas personalidades foram manipuladas para servir aos roteiros. “Por que Spike Lee fez um filme chamado “Malcolm X”? Porque não criou um líder negro fictício e chamou-o de “Joe Qualquer Coisa”? Dar a um filme o nome de um indivíduo real é pretender uma espécie de verdade”, avalia Fones.

A discussão levantada pela dupla, que discute sobre a maneira como Hollywood trata os temas históricos numa longa introdução aos artigos do livro de Mark Carnes, é periodicamente reavivada, com a chegada de filmes que abordam episódios reais aos cinemas – esse foi o caso de “Pearl Harbor”. Os homens de Hollywood argumentam que seria impossível atrair a atenção do público sem utilizar duas técnicas que estão no centro das críticas: a simplificação de verdades históricas, geralmente complexas e repletas de contradições, e a redução donúmero de personagens, para facilitar a compreensão do espectador. “Acho que usar a palavra ‘responsabilidade’ na mesma frase de ‘indústria cinematográfica’ simplesmente não combina. Uma coisa não está entre as prioridades da outra”, alerta John Sayles.

É bom ressaltar que o ardor com que os historiadores reclamam das imprecisões de filmes como “Pearl Harbor” só existia, até um passado relativamente recente, nos círculos acadêmicos. O maior exemplo disso é a criação de verdadeiros mitos, especialmente nas primeiras décadas de Hollywood, baseados em perfis cinematográficos de figuras históricas que não correspondiam aos verdadeiros personagens. O maior exemplo disso é o xerife Wyatt Earp, o mais famosos dos delegados do século XIX e verdadeiro ícone da parte da História norte-americana que trata da colonização do Oeste.

Earp foi tema de mais de 20 filme e pelo menos um seriado de TV nos EUA, desde a década de 1930. Em todos eles, foi apresentado como um xerife destemido, um ás do gatilho de pontaria infalível, honesto mas implacável.Na verdade, o historiador John Mack Faragher afirma que Earp foi delegado por um curto perído e passava mais tempo jogando pôquer do que cuidando da segurança dos cidadãos. Pior: tinha relações pouco recomendáveis com cafetões e prostitutas e chegou a ser preso por roubo de cavalos. Na verdade, o xerife foi alçado à glória por um escritor chamado Stuart Lake, que criou uma biografia romanceada e inventou a maior parte das aventuras do mítico caubói.

Se analisados com isenção, poucos clássicos de Hollywood resistem ao crivo histórico. Um bom exemplo é “A Imperatriz Galante”, interpretada em 1934 pela linda e elegante Marlene Dietrich. Na verdade, segundo a historiadora Carolly Erickson, de linda e elegante a imperatriz Sophia Fredericka (nome verdadeiro da filha de um nobre falido alemão que acabou como governante da Rússia, após um golpe militar, em junho de 1762) não tinha nada. Quando adolescente, era gorducha e escrevia longos ensaios filosóficos, sua grande paixão. No filme, ela vira loira e linda, e ganha o desejo de ser bailarina clássica.

Os cineastas podem argumentar que escalar um atriz corpulenta no lugar de Marlene Dietrich para o papel-título iria afugentar as platéias, mas isso tornaria o episódio da história russa mais fiel à realidade. A verdade é que os diretores do cinema comercial não se importam com verossimilhança histórica, embora tenham consciência do papel não-oficial de professores que exercem sobre os espectadores. O mestre John Ford, autor de 56 westerns e um dos maiores cineastas do século XX, é o maior exemplo disso. Irritado com as críticas do pesquisador cinematográfico John Tuska à inexatidão histórica dos filmes que dirigiu, ele não hesitou em colocar sua resposta na boca de um jornalista, em “O Homem Que Matou o Fascínora” (1962): “Quando a lenda se torna fato, imprima-se a lenda”.

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