Clint, o imperdoável

04/12/2003 | Categoria: Outros textos

Carreira sólida como ator de ação deu lugar a um diretor maduro e cheio de talento

Por: Rodrigo Carreiro

O diretor Sergio Leone estava em busca de um rosto americano e desconhecido para protagonizar o faroeste Por Um Punhado de Dólares. Tinha que ser um desconhecido, porque ele só podia pagar US$ 15 mil ao sujeito. E deveria ser americano porque Leone estava confiante de que o filme faria sucesso na Europa. Nesse caso, não haveria problemas em lançá-lo depois nos EUA, com os diálogos no inglês original (o filme foi dublado em italiano). Foi quando viu um episódio da série de TV Rawhide, que fazia sucesso na América do Norte, e gostou do rosto sério e anguloso de um dos detetives do programa. Era Clint Eastwood.

Até chegar à TV, no entanto, Clint havia batalhado um bocado. Nascido em 31 de maio de 1930, era o filho mais velho de um casal californiano que era obrigado a mudar-se quase todos os anos, quando o pai ficava desempregado. Nessas andanças, ele conheceu o jazz e se apaixonou pela música. Aprendeu piano e tocava em clubes de San Francisco quando percebeu que não tinha talento suficiente para ser músico. Trabalhou depois como lenhador, bombeiro e salva-vidas, e decidiu tentar a TV.

Clint começou fazendo figuração e foi contratado pelo salário mínimo do Sindicato dos Atores para fazer “Rawhide”. O sucesso na trilogia de Leone, no início, não lhe trouxe fama entre os americanos. Somente em 1967 os três filmes estrearam por lá, de uma tacada só, e todo mundo ficou surpreso quando a bilheteria conjunta ultrapassou a marca dos US$ 200 milhões. Cansado das negativas, foi a vez de Clint dizer não às ofertas dos grandes estúdios e fundar uma pequena empresa, a Malpaso, para produzir seus próprios filmes.

A essa altura, era uma unanimidade negativa: todos os críticos dos EUA lhe baixavam o sarrafo sem piedade. “Ele é um ator de duas expressões: uma com o cigarro na boca, a outra sem”, dizia o próprio Sergio Leone, tirando sarro do estilo minimalista de interpretação de Clint. O americano não se importou. Explodiu na década de 70, com os filmes em que interpretava o detetive durão Dirty Harry, e construiu a fama de bom ator de faroestes e policiais violentos. De qualquer forma, era muito popular junto ao público de cinema. Tão popular que enveredou pela política na década seguinte, entre 1986 e 1988, e foi prefeito da cidadezinha de Carmel, onde tem um rancho.

Eastwood também é um diretor eficiente e foi nessa função que dobrou a crítica: a partir da cinebiografia sensível do saxofonista Charlie Parker, “Bird”, mostrou uma sensibilidade insuspeita, a ponto de conseguir cooptar astros do porte de Meryl Streep (“As Pontes de Madison”), Kevin Spacey (“Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal”) e Sean Penn (“Sobre Meninos e Lobos”) para trabalhar em seus filmes, sempre em troca de salários bem mais baixos do que a média usual de Hollywood.

Em 1992, o auge dessa carreira apareceu com o Oscar nas duas maiores categorias, de Filme e Diretor, com o western “Os Imperdoáveis”. De lá para cá, Clint imprimiu um ritmo constante à carreira, fazendo filmes, em média, a cada dois anos. Atuando ou não em frente à câmera, os longas-metragem que dirige sempre têm tons de tragédia, em que seres humanos brigam contra a vida, mas sempre perdem. Ele é casado com a jornalista Dina Ruiz, com quem tem uma filha, Morgan. Além dela, tem outros seis filhos de quatro casamentos.

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