Consumidores adultescentes

13/10/2003 | Categoria: Outros textos

Adultos que pensam e agem com adolescentes, mas com poder de compra; esse é o público que compra DVDs

Por: Rodrigo Carreiro

A caixa de DVDs com a trilogia “De Volta Para o Futuro” é um lançamento direcionado ao mercado juvenil, sem dúvida. Mas de que tipo de jovens estamos falando? Será que adolescentes podem mesmo se dar ao luxo de gastar quase R$ 100 num lançamento em DVDs que virou sucesso instantâneo de vendas? Parece que não. Então, quem seria o público-alvo de um lançamento assim? A resposta a essa pergunta pode fornecer uma pista importante para explicar o sucesso de relançamentos em DVD de tantos filmes das décadas de 1970 e 1980, de longe o período cinematográfico mais revisitado pelo formato digital.

O próprio cineasta Robert Zemeckis, ao falar sobre a elaboração do roteiro do primeiro filme da trilogia, nos documentários presentes no pacote, fornece a chave para interpretar o enigma. Ele explica que a decisão de elaborar a trama do primeiro filme no ano de 1955 levou em conta, principalmente, o fato de que foi na mesma década que o adolescente – essa categoria social controversa, de importância crucial para a compreensão da realidade cultural da segunda metade do século XX – ganhou poder real na sociedade.

Talvez não faça sentido imediato uma observação superficial da relação entre o poder adolescente e a trilogia, mas um olhar mais profundo revela a estratégia de Zemeckis. O que ele queria era não apenas flagrar, com sua câmera, um filme tradicional de aventura. A ambição ia um pouco além disso. Zemeckis queria refletir um pouco sobre a trajetória de crescente importância do adolescente para o mercado da indústria cultural. Afinal, se em 1985 os adolescentes começavam a ter voz real através do rock‘n‘roll – e nesse sentido a famosa cena de Marty McFly tocando “Johnny B. Goode” para uma platéia empolgada é emblemática -, em 1985 os teens já vão estar ser os maiores consumidores de artefatos culturais do planeta.

Há um dado a mais no raciocínio que permite uma resposta à pergunta inicial. Ele parte da constatação de que os adolescentes que se amarraram na trilogia em 1985 já estão casados, com filhos e problemas de queda de cabelo. Ocorre que boa parte deles mantém seus hábitos adolescentes sem grandes conflitos existenciais. Historiadores ingleses já até cunharam um termo para esse fenômeno da Síndrome de Peter Pan, ou do adulto que se recusa a crescer: é o adultescente. Ele dá as cartas. “De Volta Para o Futuro” é feito para esse cara.

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