Drácula: uma história

28/01/2005 | Categoria: Outros textos

Conde vampiro é o ser mitológico mais popular do cinema em todos os tempos

Por: Rodrigo Carreiro

“Drácula não é apenas o mais sexual de todos os nossos anti-heróis modernos, mas também um dos seres mais sensuais da Literatura. Sem dúvida, o vampiro é um dos mais populares personagens cinematográficos do Mundo”. A frase é do diretor norte-americano Patrick Lussier, responsável por “Drácula 2000”, um dos mais recentes filmes a alimentar o mito do aristocrata romeno que se alimenta de sangue humano.

Se não chega a ser novidade, a explicação de Lussier para o sucesso do conde-vampiro esclarece o motivo porque os produtores cinematográficos não deixam Drácula descansar em paz, mais de uma centena de anos depois de ser morto pelo professor Abraham Van Helsing. Pelo menos na telona, a luz do sol ou uma estaca no coração nunca foram capazes de parar o vampiro, como ocorreu em 1897, quando o inglês Bram Stocker publicou o romance pela primeira vez.

Não há dúvida: Drácula é o mais popular de todos os personagens-mito da História do Cinema. Frankenstein, Joana D’Arc e mesmo Jesus Cristo podem até chegar perto, mas o morto-vivo tem um currículo invejável. Segundo o site Internet Movie Database (www.imdb.com), o maior banco de dados sobre cinema do planeta, já foram produzidos nada menos do que 106 filmes sobre o Conde Drácula até o ano 2000.

Um dos primeiros – e certamente o mais importante deles – teve o roteiro inteiramente mudado, assim como o nome do personagem, devido a problemas do diretor com a família do escritor Bram Stoker. Nosferatu foi feito pelo alemão F.W. Murnau, em 1922, e apresenta um vampiro torturado e solitário. O curioso é que o chupa-sangue foi tão bem representado pelo ator Max Schreck (em sua estréia na telona) que uma lenda inacreditável passou a circular no meio cinematográfico: Schreck seriam um vampiro de verdade interpretando a si mesmo.

A lenda é tão curiosa que, no ano passado, o diretor E. Elias Merhige filmou “Shadow of the Vampire”, uma espécie de confirmação em celulóide da tal estória. É claro que ninguém nunca conseguiu provar que Max Schreck era um vampiro de verdade. Se foi mesmo, ele derrubaria facilmente um dos maiores trunfos do conde Drácula: a imortalidade. O ator alemão morreu em 1936, em Munique, de ataque cardíaco, depois de uma carreira prolífica, com 21 filmes no currículo. De qualquer forma, o filme de Murnau estabeleceu um padrão visual para os filmes de terror que viriam a seguir, com grandes contrastes entre luz e sombras e imagens desoladoras.

Apesar do pai dos vampiros ter chegado ao cinema apenas na década de 20, as criaturas da noite já apareciam em filmes mudos, tanto americanos quanto europeus, desde 1896 – um ano antes de Bram Stocker publicar seu livro, portanto, já existia um filme que abordava a lenda dos vampiros: o francês “Le Manoir du Diable”. Entre 1909 e 1920, os americanos produziram nada menos do que 19 filmes sobre o assunto. Na Dinamarca, saíram dois filmes; na Suécia, mais um; na Hungria, em 1921, Drácula apareceu pela primeira vez com seu verdadeiro nome. Mas todas essas obras tiveram circulação limitada e hoje não estão mais disponíveis.

Em 1931, o conde apareceu como protagonista pela primeira vez num filme americano. E o ator que o interpretou se tornaria um dos rostos mais conhecido do vampiro no Cinema: o húngaro Bela Lugosi. Foi a imagem de Drácula neste filme que o mundo passou associar aos vampiros: seres aristocráticos, rejuvenescidos, de olhar hipnótico e usando longas capas esvoaçantes. Lugosi repetiria o papel mais uma vez e viraria ícone dos chamados filmes B, de baixo orçamento, até a década de 1950, quando entrou em decadência absoluta e ficou desempregado de vez. Falido, viciado em morfina e solitário, Lugosi trabalharia até com “o pior diretor do mundo”, Ed Wood, antes de morrer.

A essa altura, o cetro já havia passado para o inglês Christopher Lee, que interpretou Drácula pela primeira vez em 1958. Até o fim da década de 70, ele vestiu a capa preta com forro vermelho do conde em dezoito obras. Seu sotaque carregado e a voz grossa deram a entonação sensual definitiva ao personagem. Assim como Lugosi, Lee também sucumbiu à maldição do vampiro e ficou confinado às produções B. Somente nos últimos anos ele vem voltando à ribalta cinematográfica: as séries “Star Wars” e “O Senhor dos Anéis” certamente lhe garantirão a imortalidade que o vampiro talvez não tenha sido capaz de dar.

Entre produções paupérrimas italianas e infindáveis roteiros americanos reciclados, o conde Drácula chegou a virar motivo de piada. Foi preciso que Francis Ford Coppola fizesse a versão definitiva baseada no livro de Bram Stoker, em 1992, para que o vampiro retomasse a aura sensual e aristocrática que havia perdido, no decorrer do século. A produção de Coppola traz o inglês Gary Oldman numa interpretação de primeira classe e o visual, requintadíssimo, é literalmente de babar. Depois desse clássico, Drácula ainda surgiu em comédias e filmes menores. Parece que esse mito é mesmo imortal.

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