Eduardo Coutinho

18/01/2006 | Categoria: Outros textos

Mestre do documentário brasileiro fala sobre as filmagens de ‘O Fim e o Princípio’, no Sertão da Paraíba

Por: Rodrigo Carreiro

Eduardo Coutinho é uma unanimidade. Mesmo assim, enfrenta uma simplificação curiosa. Referência maior do documentário brasileiro, poucas vezes ele é chamado de cineasta. As pessoas costumam classificá-lo com o rótulo limitado e simplificador de documentarista, como se o documentário fosse uma arte menor. Coutinho é mais do que documentarista; é grande cineasta, um dos maiores que já nasceram no Brasil. Começou na TV, foi perseguido pelo regime militar e depois engatou uma carreira sensacional, com base numa habilidade anormal para descobrir gente fascinante. Fez nove longas-metragens, a maioria genial, como “Cabra Marcado Para Morrer”, de 1984, e “Edifício Master”, de 2002.

Coutinho esteve no Recife no dia 17 de janeiro, para participar da pré-estréia de “O Fim e o Princípio”, filme rodado no Sertão da Paraíba. O Cine Repórter o encontrou num final de tarde, num hotel à beira-mar, em Boa Viagem. Coutinho tinha acabado de acordar, mas estava de bom-humor. Preocupação apenas com a qualidade do som da sessão, que seria seguida de debate, no Cinema da Fundação (o motivo você confere a seguir). Foi tranqüilizado pelos jornalistas que estavam lá para conversar com ele (além de mim, Luiz Joaquim, da Folha de Pernambuco, e Carol Almeida, do Jornal do Commercio). Eu e Carol tínhamos visto o filme pouco antes. O som estava bom. Ele ficou tão satisfeito que dispensou o teste de som que faria depois da entrevista.

Aliás, chamar de entrevista a conversa de uma hora que se seguiu é um exagero. Foi mais um bate-papo, no bar do hotel. Coutinho é ótimo de conversa, mas não tão bom como entrevistado. O problema é o oposto do normal: ele fala pelos cotovelos, mas suas respostas são longas e às vezes tomam atalhos completamente diversos das perguntas que lhes são feitas. Durante a conversa, o diretor fumou sem parar. Foram sete cigarros Marlboro, do mais forte, o da caixinha vermelha, com a fumaça soprada diretamente no meu rosto. Sem probemas, embora o cigarro deva ter tido culpa no acesso de bronquite que teve durante as filmagens de “O Fim e o Princípio”, cujo resultado final, ele não esconde, o agradou bastante. A seguir, você confere os melhores momentos da conversa.

Você fica preocupado com o som do filme em todas as exibições?


É que o áudio de “O Fim e o Princípio” foi captado em Mono. A captação é ótima, mas tem entrevistados que falam para dentro, resmungam, e não dá para entender mesmo. Na pós-produção, chegaram com colocar legendas no filme, já pensou que absurdo (risos)? Foi contratada uma mulher e ela ficou lá, escrevendo as legendas, e aí empacou na entrevista com o poeta. Ela não conseguia entender nada. Mas não era mesmo para entender! Ele não estava falando direito, estava resmungando, com enxaqueca. E o linguajar é aquele mesmo. O esforço para entender faz parte do filme.

Aqui em Pernambuco estamos perto da Paraíba, então para nós não é difícil entender, mas imagino que no Rio ou em Porto Alegre (RS) fica complicado mesmo…


Dane-se! (risos). Peraí, não é que dane-se não. A verdade é que a linguagem corporal é importante, a palavra é importante, a oralidade é essencial. Há coisas que precisam ser ditas com a boca e com o corpo. Esse esforço para compreender os personagens é saudável.

Um dos temas do filme parece ser isso, a falta de comunicação. A dificuldade para se fazer entender.
Isso não foi intencional. Tem personagens que não queriam dar entrevista naquela hora e deliberadamente falavam resmungando, mas depois se soltavam. Um deles gagueja no começo, mas depois pede para recitar um poema e aí a voz dele fica clara, normal. Sabe o que eu acho interessante mesmo no filme? É o uso não-intencional de palavras difíceis, palavras que não se usa nas cidades grandes. Não é que eles sejam intelectuais, que estejam procurando falar difícil. É o vocabulário deles. Lá, por exemplo, eles usam “sobejo”, em vez em “restos”. Isso é puro século XVI. Nenhuma pessoa de classe média ou estudante universitário no Rio de Janeiro sabe o que é “sobejo”. “Pedra”, para eles, é “seixo”, e na pronúncia deles fica “xeix”, bem complicada. Às vezes é difícil de entender. Mas eu não chamaria isso de falta de comunicação. Foi até fácil eles falarem comigo, especialmente em temas delicados como a morte; eles falaram normalmente comigo coisas que talvez não falassem com uma pessoa mais jovem. Para mim, o que ficou do filme foi a necessidade de comunicação.


 


A cena em que fica evidente que o documentário achou seu rumo é o momento em que Rosa, a guia de vocês, desenha o mapa do Sítio Araçás, com os nomes dos moradores. No momento da gravação da cena, vocês já sabiam que o documentário seria filmado ali ou ainda estavam à procura?
Ali é o roteiro do filme. Naquele momento a gente já sabia que o filme era naaquela comunidade. No terceiro dia de filmagens, a gente sabia que o filme seria ali. O que não estava definido era a presença maciça de entrevistados acima dos 70 anos. Na edição final, acho que o entrevistado mais novo tem 55 anos, e só três estão abaixo dos 70 anos. Tem uma mulher com 97 anos.

Mas essa escolha da faixa etária dos entrevistados surgiu naturalmente ou você fez um recorte intencional?
Não foi intencional, foi espontâneo. Mas deixa eu contar o começo para você entender. A idéia do filme surgiu muito tempo antes, uns nove meses pelo menos. O João (Moreira Salles, da produtora VideoFilmes) me perguntou qual era o meu próximo projeto. Eu disse que queria fazer algo diferente. Não queria fazer nada com pesquisa prévia, um negócio que me enche o saco. Queria pegar a equipe e ir descobrir o filme em campo. Pensei: “Vou aumentar o custo das filmagens, mas vai ser muito mais divertido”. Aí ele perguntou onde eu filmaria. Falei: “no Sertão do Nordeste”. Lá é onde existe a fala mais rica no Brasil, lá eu sei que vou ter um filme. Escolhi a Paraíba porque tenho uma ligação afetiva com o lugar. Então, pegamos o Guia Quatro Rodas e fomos ver onde tinha um hotel legal. Descobrimos São João do Rio do Peixe, que tem um hotel grande e confortável, um lugar que ficou praticamente só para nós durante um mês. Fomos para lá e achamos a cidade que queríamos. Durante as entrevistas é que fomos percebendo que os depoimentos dos mais velhos eram os mais ricos. Os mais velhos foram criados sem televisão, tinham um imaginário mais puro, um vocabulário diferente, uma cultura que está morrendo. Fomos percebendo isso. Mas só tive idéia que a presença dos mais velhos iria ser tão maciça quando fomos editar o filme.


 


O resultado disso é a presença constante da morte como tema.


Veja, eu só perguntei algo sobre a morte para três pessoas. O resto das pessoas que fala sobre a morte, no filme, fala sem que eu pergunte sobre o assunto. Falam por elas mesmas, espontaneamente.

A impressão que dá, olhando o filme como um filme e não como uma coleção de personagens, é que aquele povo está lá, mansinho, esperando a morte chegar…
Não vejo um aspecto negativo nisso, mas é verdade que aquele mundo está acabando.

É exatamente isso!


O mais interessante é que aquela cultura está acabando, mas não é um mundo isolado. A comunidade fica a seis quilômetros de uma cidade. Seis quilômetros! Não é um lugar inacessível, fechado. Os males da civilização já estão lá. Em novembro (de 2005), voltamos para exibir o filme e várias pessoas não puderam ir à sessão porque não tinham com quem deixar a casa e estavam com medo de ladrão. Ladrão é coisa da civilização! É isso e a televisão. Quer dizer, aquele povo assiste à televisão, claro. Eles vêem novela. Uma das velhinhas do filme adorava aquela novela da SBT, a Maria do Bairro (risos). Mas elas foram apresentadas à TV quando já tinham uma cultura e um vocabulário formados. Não foram influenciados por aquele universo da televisão. Os mais jovens já foram. É outra cultura.

Essa temática da morte não seria uma foram de você abordar o assunto porque está chegando numa idade crítica? O filme não seria um reflexo das suas preocupações atuais?


Essa pergunta já me fizeram milhares de vezes (risos). Conscientemente não foi, isso eu garanto. Agora, não tenho dúvida de que o fato de eu ter uma faixa de idade próxima à deles facilitou uma aproximação e influenciou nos assuntos. Eles falaram desse assunto da velhice, comigo, de uma maneira muito espontânea. Havia uma identificação comigo, sem dúvida. O assunto da morte acabou fluindo naturalmente.

Esses personagens sertanejos, de pele rachada, já foram vistos muitas vezes em filmes nacionais que riam deles…
Eu sei, filmes que os vêem como exóticos. Inclusive feitos por diretores nordestinos.


 


Pois é. Como você lidou com essa questão?


Primeiro, eu não quis eliminar o humor. O nordestino é muito rico em humor, e fazer um filme sem humor não refletiria o que o povo é. Entrevistei muitos personagens engraçados, gente com quem você conversa e morre de rir. Pessoas que têm o dom do riso. Entrevistei um cara, o Nato, que é um Chico Anysio. Mas existe um limite. Tentei não ultrapassá-lo. O pitoresco que essas pessoas têm é positivo, alegre, natural. Você procura rir com eles, e não rir deles.

Você já edita o filme mentalmente enquanto está filmando, ou esse processo só acontece na edição?
Enquanto estamos filmando, algumas coisas são óbvias que vão entrar no filme. Os planos de passagem, planos gerais, a gente filma sabendo que vai entrar. E outras coisas a gente sente na hora que faz parte do filme. Por exemplo, nós vimos uma cena na Paraíba que precisava entrar no filme de todo jeito. Vimos um homem pastoreando os animais com uma bicicleta. Eles não usam mais cavalos lá, é mais prático fazer com bicicleta. Quando vimos aquilo, o cara pastoreando com uma bicicleta, eu sabia que iria para o filme. Outras coisas a gente só percebe na sala de edição. A presença maciça dos velhos é um exemplo. Nós entrevistamos jovens, mas eram entrevistas menos interessantes.


 


A tecnologia é uma coisa boa ou ruim para um documentarista?


A ferramenta digital trouxe muita facilidades. Hoje em dia, em qualquer festival de cinema que você vai, 80% dos filmes são feitos em digital. Filmar em digital é muito fácil, um cara que nunca estudou cinema pode fazer um bom filme. Você filma exatamente aquilo que vê, não precisa ficar medindo luz ou trabalhando com o foco. Mas isso é um problema também, tem um lado negativo. Filma-se demais, e mal. Tem muito filme ruim por aí. E mais ainda filme longo. O grande problema do digital também é a grande vantagem. Como é fácil filmar, exageram. A gente vê muito filme com uma hora de duração que deveria ter 20 minutos a menos.

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