Eduardo Escorel

29/05/2008 | Categoria: Outros textos

Diretor e montador detalha filme, fala sobre o futuro dos documentários no Brasil e debate o Google

Por: Rodrigo Carreiro

Eduardo Escorel tem um histórico respeitável como montador, e vem atuando no cinema brasileiro há mais de quatro décadas. Ele editou, por exemplo, quatro filmes de Glauber Rocha (inclusive os clássicos absolutos “Terra em Transe” e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”) e outros tantos para Joaquim Pedro de Andrade (“Macunaíma”, outra peça fundamental para entender o cinema brasileiro, entre eles) e Eduardo Coutinho (“Cabra Marcado para Morrer”). Só por esses trabalhos, Escorel já garantiria uma página de destaque em qualquer livro de história do cinema nacional.

Não contente com isso, ele também dirige filmes e comerciais. Em 2008, Escorel retornou ao papel de diretor de documentários, com o lançamento de “O Tempo e o Lugar”, filme que conta a trajetória de um agricultor familiar e líder comunitário do interior de Alagoas. Recife foi a quarta parada de uma turnê de divulgação do longa-metragem, após Rio, São Paulo e Salvador (BA). Escorel chegou à cidade de manhã cedo, pôr as malas na pousada situada no bairro do Derby, em que se hospeda sempre que vem a Pernambuco, e passou na redação da Rede Globo para participar de um vídeo-chat com leitores do pe360graus, o portal da Globo Nordeste.

Entre as perguntas enviadas pelos internautas, fui colocando as questões que o filme me trouxera à mente. Escorel respondeu a tudo com simpatia. Ele é preciso e articulado. Não se alonga nas respostas, mas está longe de ser monossilábico, e não tem medo de dar opiniões, mesmo que às vezes elas possam parecer polêmicas. Durante o papo, ele detalhou os motivos porque escolheu Genivaldo como protagonista do documentário, falou sobre o futuro dos documentários no Brasil e explicou o papel essencial exercido pelo Google (sim, o sistema de buscas!) na pré-produção do filme.

Você tem participado de debates na turnê de lançamento do filme por capitais brasileiras. Como tem sido a repercussão?


“O Tempo e o Lugar” recupera a história de um agricultor familiar da região semi-árida de Alagoas, traça a sua trajetória política – como líder comunitário e integrante de movimentos sociais – e radiografa sua relação com a família. Os debates têm sido acalorados, porque os eventos atraem militantes do MST, o que tem gerado discussões acaloradas. Afinal, o Genivaldo passou cinco anos como líder do MST de Alagoas e depois foi expulso, no início da década de 1990. Esse aspecto do filme tem despertado muito a atenção das pessoas. Os militantes do MST demonstram muita dificuldade em aceitar críticas vindas de um ex-militante.

Como você escolheu o personagem?
Faz 12 anos que o encontrei pela primeira vez. Em março de 1996, recebi a incumbência de ir a Alagoas, dirigir um comercial para a série “Gente Que Faz” com o Genivaldo. Ele tinha sido encontrado pela produção, e eu não o conhecia. Durante as gravações, comecei a sentir que ele tinha uma história interessante, que ia muito além daquilo que o programa procurava retratar. No último dia das gravações, gravei um depoimento em fita cassete com ele, contando a história da vida dele. Guardei comigo esse material durante nove anos. Tinha um compromisso comigo mesmo de, um dia, voltar a procurá-lo para fazer um filme.

Você não manteve contato nenhum com ele durante esses nove anos?
Nenhum contato. Quando decidi procurá-lo, no final de 2004, os telefones que eu tinha já não funcionavam. Só consegui localizá-lo graças ao Google (risos).

Como assim?
Coloquei o nome lá e descobri que ele tinha sido candidato a prefeito de Inhapi (AL), em 2000, pelo PT. O site de buscas também relatava a participação dele em um seminário, aqui no Recife, e foi através dos organizadores deste seminário que consegui os contatos do Genivaldo. No início de 2005, voltei a Alagoas. Para surpresa dele, inclusive, que jamais esperava que voltássemos a nos ver. Foi uma surpresa e uma alegria muito grande. Em 2005, eu gravei com ele um novo depoimento, em vídeo. Foi quando consegui que ele se abrisse mais, narrasse aspectos mais íntimos da trajetória, o que confirmou que a história rendia um filme.

Dez anos é um período longo. Todos mudam durante uma década. Genivaldo deve ter mudado, você também, e conseqüentemente o filme também. Gostaria de saber como você foi construindo o fio narrativo do filme neste período.
Eu pensei nesse projeto de várias formas. Cheguei a escrever um roteiro de ficção, que abandonei, e pensei em fazer documentários sobre histórias que ele tinha me contado, e nas quais ele nem teria uma participação grande. Foi depois de muito tempo, e muita reflexão, que decidi centrar o filme na trajetória dele, na pessoa dele. Pouco tempo antes de vir a Alagoas, em 2007, para fazer o filme, eu ainda tinha uma concepção um pouco diferente do projeto. Este é um dos aspectos mais interessantes do documentário: a possibilidade de descobrir, enquanto está fazendo, que filme é aquele, que caminho seguir. A equipe é muito pequena, o custo fica reduzido, o que abre as possibilidades. Para você ver, eu era o diretor do documentário e também o diretor do carro da equipe, porque o motorista fui eu mesmo (risos).

Como foi dividida a equipe?
Éramos quatro pessoas: eu, o operador de câmera, o técnico de som e um assistente. Uma equipe pequena dá mais mobilidade, permite experimentar e descobrir aos poucos quais os caminhos a seguir.

Eduardo Coutinho costuma dizer que o documentário, muitas vezes, nasce no processo de montagem. Neste caso, você chegou à sala de edição tendo na cabeça o filme que queria, ou descobriu muita coisa nesta etapa do trabalho?
Esta é outra característica do documentário. A edição tem uma importância muito grande, talvez maior do que em um filme de ficção, no qual você parte de um roteiro, de um planejamento maior. Em “O Tempo e o Lugar”, havia alguns elementos que a gente já imaginava. Mas eu gravei aproximadamente 80 horas de material durante três semanas. É muita coisa. Havia, naturalmente, muitas opções, muitas alternativas sobre o que fazer. Graças a Deus, hoje em dia existe o recurso dos extras do DVD, onde você pode encaixar muita coisa interessante que sobrou da montagem. Eu saí da sala de montagem com o filme, e mais uma hora de material pronto para inclusão no DVD, inclusive depoimentos de Genivaldo. Depois de o filme pronto, por exemplo, eu o levei ao Rio para ver o filme, e gravei as primeiras reações dele ao que viu. Esse material vai estar no DVD.

E ele sentiu falta de algo?
Não. A primeira coisa que ele me falou foi exatamente isso: “por mim, não faria nenhuma alteração”.

O Brasil tem vivido, no momento, uma fase muito boa de documentários, embora o gênero tenha enfrentado um grande problema de distribuição, que continua a ser o grande calo do cinema nacional. Como você vê essa fase do documentário brasileiro?
É uma contradição, de fato. O que se está fazendo no Brasil de mais interessante, em cinema, é no documentário. Por outro lado, é preciso ser honesto, existe muita dificuldade em levar esse cinema até os olhos do público. Há um impasse aí. A médio e longo prazo, só vai ser possível continuar produzindo documentários no Brasil se o gênero encontrar um público que lhe permita seguir em frente sem dar prejuízo. Porque atualmente, a verdade é que o documentário dá prejuízo. O cinema no Brasil, em geral, não é rentável, mas a situação do documentário é pior. O fato é que, atualmente, nós temos uma cultura do documentário. Existem festivais, gente fazendo, sites, críticos especializados, cursos de cinema documentário. Existe um debate em torno do documentário que é um movimento de idéias muito interessante.

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