Film noir

25/01/2004 | Categoria: Outros textos

História do gênero põe estética de luz-e-sombras como principal característica desse tipo de filme

Por: Rodrigo Carreiro

Seria o film noir um gênero cinematográfico? Essa questão poderia levar historiadores do cinema norte-americano a passar horas debatendo. Há quem diga que sim; os filmes de estética noir – pesada, esfumaçada, sombria, literalmente “escura” – teriam nascido na década de 1930, logo após a grande crise da bolsa de 1929, e refletiriam um momento de recessão muito particular nos EUA, com ambiente propício para o crime (incluindo aí a Lei Seca, que proibiu a bebida alcoólica e fez a festa de gângsters de leste a oeste do país).

Um detalhe importante é que, na época em que eram produzidos, os filmes integrantes do gênero não tinham essa (e nem outra) denominação. John Houston, por exemplo, jamais tinha consciência de que estava eternizando seu nome na galeria dos maiores autores do film noir quando fez “Relíquia Macabra”, em 1941. Naquela época, a expressão film noir não tinha sido cunhada ainda. Falava-se tão somente de filmes de detetives, ou filmes de gângsters.

Foi o crítico francês Nino Frank, em 1946, que identificou semelhanças estéticas nos filmes norte-americanos dos anos 1930 e 1940, e finalmente batizou esses filmes sob o rótulo, uma variante cinematográfica da expressão “novela escura”, que surgira na França do século XIX para nomear escritores de mistério que gostavam de climas sombrios e oníricos. A turma jovem da revista Cahiers do Cinema (entre eles Jean-Luc Godard e François Trufaut) adorou a novidade e começou a usar a expressão sem cessar. Admirados nos EUA, os críticos franceses acabaram por emprestar o termo aos norte-americanos, no final dos anos 1950.

Do ponto de vista estético, o film noir se caracteriza por atmosferas densas, pesadas. Fumaça e sombras escuras são elementos-chave para compreender o estilo visual adotado pelo movimento, carregado de simbolismos. Essa estética formalista (no sentido de que subvertia a realidade, representando-a na tela de forma onírica e subjetiva) deve demais ao expressionismo alemão, responsável por obras como “O Gabinete do Dr. Caligari” (1919) e sobretudo “Metropolis” (1928), o pesadelo de ficção científica cometido por Fritz Lang, que depois também integraria o time dos autores noir nos EUA.

Há pesquisadores, contudo, que preferem ver o film noir como uma espécie de estado de espírito, que poderia ser aplicado a trabalhos de qualquer gênero, da ficção científica ao romance melodramático. Para esses estudiosos, a caracterização de protagonistas que fossem personagens semi-anônimos, melancólicos, solitários e urbanos, além de um clima permanente de derrota, seriam características essenciais nessas obras. O arquétipo fundamental do film noir, então, está na figura do detetive particular.

O auge do film noir eternizou a figura do detetive com longos sobretudos cinzentos, chapéus, cigarros no canto da boca e copo de uísque invariavelmente na escrivaninha. Ventiladores que se movem preguiçosamente, loiras fatais, policiais corruptos e gatos que chafurdam em latas de lixo são elementos visuais que remetem à estética noir. Tudo isso entope os becos esfumaçados onde, invariavelmente, se localizam os escritórios dos detetives noir.

O gênero é muito revisitado e homenageado atualmente. Basta lembrar de “Coração Satânico” (Alan Parker), de “Chinatown” (Roman Polanski) ou mesmo do curta animado “Uma História de Detetive”, da coleção Animatrix. Mas as obras-primas que o definiram são “Relíquia Macabra” (1941, de John Houston), “Pacto de Sangue” (1945, de Billy Wilder) e “Anjo ou Demônio?” (1946, de Otto Preminger).

O primeiro dos três, por ter sido inspirado pelo livro “O Falcão Maltês” (nome com o qual foi lançado no Brasil em DVD), de Dashiell Hammett, realizou a conexão óbvia com a literatura noir – afinal, veio daí a ligação que relaciona o gênero policial a esse tipo de filme.

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