Hitchcock/Truffaut

20/08/2004 | Categoria: Outros textos

Livro essencial para amantes do cinema ganha reedição de luxo no Brasil

Por: Rodrigo Carreiro

Um conhecido ditado costuma dizer que um livro não pode mudar o mundo, mas pode mudar as pessoas – e estas mudam o mundo. A obra-prima “Hitchcock/Truffaut – Entrevistas” talvez seja o melhor exemplo dessa situação aparentemente improvável. A história do livro comprova isso. A obra resultou de um projeto, organizado pelo cineasta e crítico francês François Truffaut, com a intenção de provar ao mundo do cinema que o inglês Alfred Hitchcock era o maior cineasta do planeta. Truffaut conseguiu.

“Hitchcock/Truffaut” ganha relançamento de luxo no Brasil. Editado por aqui em 1985, em uma edição da Brasiliense, logo esgotou nas livrarias. Tornou-se artigo raro mesmo em sebo de livros, pela importância história para os amantes da Sétima Arte. “Hitchcock/Truffaut” desfruta do status de um dos melhores tomos sobre cinema jamais escritos. Talvez por isso, a Companhia das Letras caprichou no lançamento. O livro é ricamente ilustrado com mais de 100 fotografias, possui projeto gráfico impecável e uma tradução inteiramente nova. Trata-se de um tesouro para cinéfilos e obra obrigatória para quem tem um interesse maior do que o trivial sobre filmes.

A história do livro é curiosa. Truffaut lançava o filme “Jules e Jim” nos EUA, em 1962, quando percebeu que sempre era questionado, nas entrevistas, a respeito da sua paixão pelos filmes de Hitchcock. Para o francês era claro como água: Hitchcock dominava os componentes do filme (roteiro, direção, cenários, figurinos, música, efeitos especiais, luz, fotografia, montagem) melhor do que qualquer outro cineasta no ramo. Pelo fato de fazer filmes de suspense, no entanto, era desprezado pelos críticos dos EUA, que consideravam o estilo algo menor. Aí surgiu a idéia: por que não escrever um livro, com base em um longo depoimento do mestre do suspense, que curasse a miopia cinematográfica dos descrentes?

Truffaut escreveu a Hitchcock e expôs o plano. Queria que o diretor inglês arrumasse tempo para lhe responder a um questionário sistemático de 500 perguntas. Hitchcock, emocionado com o interesse, fez melhor: chamou Truffaut a Los Angeles e reservou duas semanas para a empreitada. As sessões de entrevistas foram gravadas nos estúdios da Universal, enquanto Hitchcock montava o filme “Os Pássaros”. Os dois conversavam durante oito, nove horas por dia. Dessas sessões, registradas por um engenheiro de som, resultaram mais de 50 horas de entrevistas. Truffaut levou quatro anos para decupar as fitas e transformá-las em livro. Lançou “Hitchcock/Truffaut” em 1967.

Nos anos seguintes, o livro conseguiu seu intento. Praticamente a fórceps, mudou a concepção que os especialistas em cinema tinham sobre Hitchcock. O mestre do suspense ganhou crescente interesse da crítica e acabou reconhecido como um dos grandes nomes do cinema em todos os tempos. O entrevistador, por sua vez, virou exemplo perene de um amor incansável e ardente pelos filmes. É provável que não exista, nem venha a existir, nenhum ser humano mais apaixonado por cinema do que Truffaut. Quem já assistiu a “A Noite Americana”, filme que lhe deu o Oscar, sabe disso.

“Hitchcock/Truffaut” está organizado de forma cronológica, em forma de perguntas e respostas, com capítulos que examinam minuciosamente cada um dos 53 filmes dirigidos por Hitchcock. Truffaut, é claro, não é um entrevistador comum; demonstra extraordinário conhecimento cinematográfico e uma enorme generosidade diante do seu inspirador. Assim, o livro é tanto uma aula completa de cinema quanto um testemunho de fé no ser humano.

– Hitchcock/Truffaut – Entrevistas
Companhia das Letras, 368 páginas

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