Irmãos Coen

22/09/2003 | Categoria: Outros textos

Filmes de Joel e Ethan Coen revelam-se alguns dos mais coerentes, originais e criativos do cinema contemporâneo

Por: Rodrigo Carreiro

A obra completa de Joel e Ethan Coen, analisando-se sem paixão, é uma das mais surpreendentes, coerentes, originais e criativas do cinema contemporâneo. Parece exagero? Não é. Basta dar uma olhada em retrospectiva nos filmes da dupla. Para começar, a temática retrata personagens que revelam muito em comum. Os protagonistas, em geral, são sujeitos normais, representantes anônimos da classe média baixa norte-americana, que se envolvem com crimes quase que por acidente.

Invariavelmente, os filmes dos Coen flagra a trajetória ladeira abaixo desses desafortunados sociais que os americanos gostam de chamar de losers (algo como o lado podre da maçã do Sonho Americano).Eles perdem o controle completamente sobre os destinos e viram joguete nas mãos do acaso. Apesar disso, nada de crueldade: a câmera dos Coen é sempre carinhosa, afetuosa. Não se envolve na ação, mas acompanha tudo com indisfarçável ar de simpatia pelos pobre coitados que protagonizam os filmes.

Além da temática, o visual dos filmes dos irmãos Coen também bebe da mesma fonte e revela uma coerência ímpar. “O Homem Que Não Estava Lá”, por exemplo, é um legítimo representante tardio do film noir, mas passa longe de ser a única obra dos irmãos Coen a apresentar influência clara desse gênero de filmes. Na realidade, a estréia dos dois no cinema, com Gosto de Sangue, em 1984, já tinha sido saudada pela crítica como um exercício noir em cores. Em várias outras obras, a dupla utilizou elementos e ambientações que remetem à estética noir. “Barton Fink”, um clássico contemporâneo, é uma delas. “E Aí Meu Irmão Cadê Você”, com seu verde desbotado (e genial), emula o gênero. Mas o melhor exemplo talvez seja “Na Roda da Fortuna”, também de 1994, ambientado na década de 1950, que tem figurinos e personagens inspirados diretamente no gênero.

O projeto de “O Homem Que Não Estava Lá”, aliás, apresenta uma curiosa ligação com “Na Roda da Fortuna”. Durante as gravações desse filme, que aconteceram em 1993, os irmãos Coen se depararam com um pôster, numa barbearia que servia como locação do trabalho. A ilustração mostrava diversos tipos de cortes de cabelo usados na década de 1940. Foi daí que surgiu a idéia do personagem que se tornaria Ed Crane, e desse ponto de partida os Coen desenvolveram o primeiro rascunho do roteiro que viria desembocar na obra-prima em preto-e-branco.

A carreira dos irmãos, por sinal, é bastante respeitável. Embora seus filmes não costumem render grandes bilheterias, eles formam uma obra coerente, com destacada predileção por anônimos fracassados, onde o crime sempre surge como um elemento ao acaso. Amigos do cineasta Sam Raimi, de “O Homem-Aranha”, os dois começaram atuando como assistentes de montagem na estréia trash de Raimi, o terror cult “Evil Dead”, em 1983. Logo depois, trataram de produzir seu primeiro filme, e alçaram vôo próprio rapidamente.

Os Coen costumam assinar os filmes sempre da mesma forma (Ethan como produtor, Joel como diretor e ambos como roteiristas), mas os atores que trabalham com eles testemunham que os dois dividem todas as tarefas. Prêmios importantes são rotina: Ethan já faturou uma Palma de Ouro em Cannes (por “Barton Fink”, um filmaço, ainda não encontrável em DVD no Brasil); Joel venceu em Cannes como diretor duas vezes; e a dupla tem um Oscar de roteiro original (por “Fargo”, outra obra-prima, essa à disposição dos cinéfilos em qualquer locadora ou loja de varejo). O mesmo filme também deu um Oscar de atriz à esposa de Joel, Frances McDormand. Como se pode ver, os dois gostam de filmar em família. Quem pode condená-los?

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