James Ellroy – Uma Biografia

10/10/2006 | Categoria: Outros textos

Romancista que inspirou ‘Dália Negra’ e ‘Los Angeles – Cidade Proibida’ é um homem obcecado

Por: Rodrigo Carreiro

Para a maior parte de nós, a morte da mãe pode ser uma das piores experiências que se pode viver. O caso do escritor James Ellroy, no entanto, foi um pouco diferente. O assassinato da mãe dele, em 1958, foi obviamente terrível. Além do mais, se existe algo pior do que perder a mãe, é perdê-la assassinada brutalmente por um serial killer misterioso cuja identidade jamais foi descoberta. No entanto, ao longo dos anos, o próprio Ellroy chegou à conclusão de que o crime, pelo qual se tornou obcecado, também foi a melhor coisa que lhe aconteceu. O homicídio, jamais solucionado, se acabou sendo responsável por tirá-lo de uma vida marginal, recheada de álcool, drogas e pequenos crimes, e colocá-lo no caminho da literatura salvadora.

Quando a enfermeira Geneva foi morta, Ellroy tinha 10 anos e morava com ela em El Monte, subúrbio vagabundo de Los Angeles. Desorientado e sozinho, ele foi morar com o pai, um contador que não tinha muito tempo para o filho, mas lhe deu de presente, alguns meses mais tarde, um livro chamado “The Badge” (algo como “O Distintivo”), que contava a história do Departamento de Polícia da cidade. O menino ficou fascinado, e não demorou muito para fazer a ligação entre um dos casos narrados no romance e a morte da mãe.

Para Ellroy, era evidente que o mesmo homem que matara Geneva havia assassinado Elisabeth Short, a chamada a Dália Negra. O crime foi um famoso assassinato não resolvido, ocorrido em janeiro de 1947. Até hoje, o escritor mantém a convicção de um único assassino. Tanto que décadas depois, no começo dos anos 1990, quando já era famoso e rico, Ellroy arregaçaria as mangas ele próprio e passaria meses debruçado sobre arquivos policiais antigos, tentando descobrir ligações entre os dois casos –um elemento qualquer que permitisse a identificação do criminoso. Uma busca infrutífera, narrada na autobiografia “Meus Lugares Escuros”, de 1996.

Durante a adolescência, o futuro escritor foi expulso da escola e de casa. Virou um sem-teto, dormindo em parques e debaixo de pontes. Costumava roubar lojas de conveniência e invadir apartamentos vazios para dormir, além de surrupiar calcinhas de garotas da vizinhança. Alistou-se no Exército, mas não por muito tempo; logo tinha se tornado alcoólatra e voltara a roubar. Nesta época, foi detido mais de 70 vezes, embora costumasse passar horas lendo na biblioteca local. Quando pegou pneumonia pela segunda vez, decidiu que era hora de se cuidar. Passou a freqüentar os Alcoólicos Anônimos, arrumou um emprego de carregador de tacos de golfe e começou a escrever. Tinha 30 anos quando vendeu o primeiro romance, publicado em 1981.

O estilo telegráfico de Ellroy, com frase curtas e incisivas, sem adjetivos, cativou de imediato o público fascinado pelos antigos escritores noir, como Dashiell Hammett e Raymond Chandler. O estilo duro, derivado de Hemingway, e o senso de humor cortante e ferino, roubado dos antigos mestres noir, ajudaram. Em 1997, já era um dos mais importantes romancistas dos Estados Unidos quando Curtis Hanson fez “Los Angeles – Cidade Proibida”, baseado num livro dele. O filme ganhou os Oscar de roteiro e atriz coadjuvante (Kim Basinger) e alavancou o nome de Ellroy direto para o mundo das celebridades.

O romancista não mudou seu estilo de vida. Vive até hoje em Kansas City, numa fazenda, onde gosta de escrever pela manhã. Tem posições políticas consideradas conservadoras, mas não exibe a menor cerimônia em atacar posturas tradicionais de gente com quem compartilha essas posições – é vegetariano convicto, por exemplo, e contrário à venda de armas. Trabalha atualmente no terceiro volume de uma trilogia que reconta a história americana dos anos 1950 e 60, misturando personagens de carne e osso – os irmãos Robert e John Kennedy incluídos – e fictícios. E continua obcecado pelo caso da Dália Negra.

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