Maurício Farias

25/01/2007 | Categoria: Outros textos

Desafio do diretor foi fazer em ‘A Grande Família’ algo que fosse além da TV

Por: Rodrigo Carreiro

Maurício Farias não costuma ser citado entre os cineastas da nova geração brasileira. Isto ocorre por duas razões: primeiro, porque apesar de jovem, ele já é veterano, com 15 anos de serviços prestados à televisão, onde assinou sucessos como a série “Hilda Furacão” e a novela “A Viagem”. Em segundo lugar, porque tem seu nome associado diretamente à TV Globo, onde dirige trabalhos como o seriado “A Grande Família” desde 1992.

Ele falou com o Cine Repórter por telefone, numa conversa rápida que durou pouco mais de quinze minutos, no início de uma ensolarada tarde de quarta-feira. Mesmo cansado pela bateria esmagadora de entrevistas que vinha dando para jornais do Nordeste (e que continuaria pela tarde à fora), Farias, não se esquivou de nenhuma pergunta. Articulado e falante, ele detalhou todos os passos do projeto e explicou que o maior desafio foi filmar uma história que não pudesse ser contada na televisão.

Por que fazer um filme de “A Grande Família”?


Principalmente pelo desejo da equipe que realiza o programa na televisão. Posso dizer que em qualquer filme, quem está fazendo se identifica com o produto, e acredita que a história merece ser contada.


 


Existia a necessidade de que a história fosse contada no cinema, e não na TV?


O projeto não nasceu do enredo em si, mas da vontade que todos os envolvidos tinham de expandir os limites do programa. Na verdade, no fim de 2003, já discutíamos a possibilidade. Naquele momento, fizemos uma reunião – eu, o Guel Arraes, o elenco, os produtores – e decidimos que não faríamos um filme. Estávamos diante do sucesso de “Os Normais”, mas achávamos que não havia sentido em migrar para o cinema, apenas por razões econômicos. Tudo o que poderia ser dito no cinema era viável na televisão. Mas a pulga ficou na orelha de cada um. Ao fim de um ano, as pessoas começaram a mudar de opinião. Fizemos outra reunião e chegamos à conclusão de que todos nós gostávamos muito daquele universo de ficção. Tratá-lo com uma dramaturgia mais sofisticada era uma idéia muito sedutora.



Que tipo de diferença pode-se encontrar entre o filme e a versão da TV para “A Grande Família”?
Eu poderia ficar 20 minutos respondendo essa pergunta…


Vamos começar então da narrativa não-cronológica, que parece ser o maior diferencial. Você não tem medo de que isso confunda um pouco o espectador mais conservador?


Este é um diferencial claro mesmo. A estrutura da história, em espiral, não se adequa muito bem à TV. Na televisão a audiência é mais dispersa. As pessoas começam a ver um episódio pela metade, se levantam para beber água. Com uma história desse tipo, você precisa de uma platéia prestando atenção do primeiro ao último minuto, uma platéia que interaja com o filme inteiro. Ou seja, tinha que ser no cinema.


 


E as outras diferenças?


O tema, mais dramático, é uma diferença. Ao escolher o drama como ponto de partida (a possibilidade de Lineu ter câncer), a gente potencializou a comédia e abriu espaço na dramaturgia para trabalhar com a emoção de uma maneira mais intensa. Queríamos fazer um filme que emocionasse. Isto também dá aos atores a chance de humanizar os personagens, mostrar facetas dele que o público não conhece.

A parte visual…
Sim, a arte do filme tem um tom bem diferente da TV. Lá o programa acaba se estilizando pelo formato de produção. Você não pode ir filmar na rua, tem uma série de limitações. No cinema, a gente procurou filmar em espaços abertos, pudemos usar efeitos de computação e iluminação especial, utilizar uma cidade cenográfica maior, colocar a casa da família dentro da cidade, fazer cenas externas.


 


Houve uma preocupação específica em diferenciar o filme do programa de TV?
Sim, essa foi uma preocupação essencial. A gente faz muito sucesso na TV, as pessoas se identificam muito com o programa. Sabemos disso. Por isso, existia um desafio enorme: tínhamos que fazer um filme que não fosse apenas um episódio ampliado do programa. Tinha que ser algo que o público não ficasse se perguntando, no final, porque havia saído de casa para ver algo que poderia ter visto na televisão. Ao mesmo tempo, também não podíamos fugir dos personagens e do humor que eles praticam. Afinal, o público vai ao filme para ver as pessoas que ele conhece, mas ao mesmo tempo eles querem ver mais do que vêem na televisão. Então o desafio era surpreender a platéia, e ao mesmo tempo manter a identidade da série da TV.


 


O roteiro foi escrito especificamente para o filme, ou nasceu de uma idéia que inicialmente seria destinada à televisão?
Para o filme. A gente decidiu pelo filme no início de 2005. Na época já havia a idéia básica da história. Aí Guel Arraes e Cláudio Paiva sentaram e escreveram o primeiro argumento. O texto passou pela mão de todos, os envolvidos, inclusive do elenco, e voltou para os roteiristas com sugestões. O sinal verde mesmo para fazer o filme saiu em setembro de 2005. No final do ano o roteiro estava bem adiantado. A versão final foi escrita no primeiro semestre de 2006. O texto ficou pronto em julho, começamos a gravar em agosto.


 


O filme foi feito em paralelo com o programa do TV?
Os atores não agüentariam isso. O que aconteceu é que nós antecipamos o cronograma da televisão. Começamos a gravar os programas de 2006 em janeiro, dois meses antes do normal. Ficamos com onze episódios de adiantamento. Quando terminamos de gravar todos os 27 episódios da temporada de 2006, sobraram sete semanas para o filme. E os atores ainda puderam ensaiar durante um mês e meio.



Os atores tiveram que estudar personagens que conheciam tão bem?
Ah, sim! Eles entraram no espírito da coisa, que era ir além do programa de TV, mostrar coisas que na telinha não conseguíamos. Então cada um tinha que trazer coisas novas para cada personagem, acrescentar coisas novas à personalidade de cada um. Na minha opinião, eles conseguiram. O filme tem grandes interpretações.


 


Como você, Maurício, compara os dois filmes que fez, em relação ao trabalho que desenvolveu na TV?


(longa pausa) Eu sinto o trabalho em televisão e no cinema da mesma maneira. Na TV, tenho uma preocupação de unir boa audiência com qualidade. Este é o maior compromisso. Posso dizer que neste estágio da minha carreira estou satisfeito, estou conseguindo. No começo era difícil. A TV é uma indústria, e você termina sendo escalado para projetos com os quais você não se identifica muito. No que se refere ao cinema, uma mídia não tão popular, a qualidade passa a ser a preocupação absoluta. E isto é ótimo para um diretor. Mas minha abordagem é a mesma: tento sempre equilibrar audiência com qualidade.


 


A montagem do filme foi uma etapa fácil?
Fácil nunca é, mas acho que foi rápida. Começamos a montar o filme no fim de outubro de 2006, e estamos estreando em janeiro de 2007.

É pouco tempo…


Pois é. E ainda tivemos a possibilidade de fazer uma exibição-teste, no final de dezembro. A recepção foi ótima, ficamos surpresos de ver que o público estava entendendo rapidamente a proposta da narrativa não-cronológica, o que nos possibilitou cortar algumas cenas, tornar tudo mais ágil. Saíram elementos que estavam enfadonhos, fruto do medo de que as pessoas não entendessem logo a proposta. Mas eles entenderam. Foi muito bom.

Você é a favor de exibições-teste?
Quando o filme é feito rapidamente, você fica tão envolvido com o processo que perde o distanciamento crítico, perde o foco, a noção de como anda o trabalho. Se você tem bastante tempo dá para ter esse distanciamento, mas nesse caso tudo foi muito rápido. Não havia ninguém para olhar de fora, com distanciamento, e a exibição-teste serviu para isso.

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