Morgan Freeman

22/09/2003 | Categoria: Outros textos

Astro norte-americano visita o Brasil em 2002 e comenta sobre chances de ganhar Oscar no futuro

Por: Rodrigo Carreiro

Em 2002, o ator Morgan Freeman veio ao Brasil para participar de um debate no Festival de Cinema de Brasília (DF). Ele passou oito dias em terras verde-e-amarelas, e teve diversos encontros com jornalistas. Amável, o ator americano, de 65 anos, teve encontros com Fernando Henrique Cardoso (então presidente da República) e Marco Maciel (ex-vice-presidente) e assistiu a um ensaio da Mangueira, no Rio de Janeiro. Na Cidade Maravilhosa, participou de uma maratona de entrevistas para divulgar o filme “Crimes em Primeiro Grau”. O ator esteve com o Cine Repórter em dois momentos; primeiro, numa entrevista coletiva de 40 minutos, para 60 repórteres, num cinema da Cinelândia; depois, numa mesa redonda de 40 minutos com jornalistas de Porto Alegre, São Paulo e Buenos Aires. Os melhores momentos do papo você confere abaixo.

O Oscar de 2002 fez justiça aos negros, com a premiação de Denzel Washington e Halle Berry?
Morgan Freeman – Obviamente, foi um ponto alto para a indústria do cinema e para a causa dos negros. De qualquer forma, sempre achei que, se você trabalha duro, acaba sendo recompensado por isso. É claro que foi um momento histórico, em especial no caso do troféu da Halle Berry, já que nunca uma atriz negra havia conseguido o que ela conseguiu. Parece que, durante muito tempo, houve uma vibração negativa que impediu os negros de se verem representados na cerimônia do Oscar.

Você vê o Oscar de 2002 como um pedido de desculpas de Hollywood aos negros?
Freeman – Não. Não acredito que tenha sido um ato isolado, mas também não creio em desculpas, inclusive porque os EUA não são feitos apenas por brancos e negros. Existem muitas outras etnias importantes lá: os latinos e asiáticos, por exemplo. Espero que esses troféus abram mais espaço para os negros, mas tomara que haja espaço também para essas outras minorias. É bom para todo mundo que o cinema mostre o país como ele é, na verdade.

Parece que Hollywood já tem muitos e bons atores afro-americanos, mas atrás das câmeras eles são mais raros, não? Além de Spike Lee, outros se destacam?
Freeman – Essa idéia está errada também. Há muitos cineastas negros. Por exemplo, John Singleton. O homem que dirigiu “Crime em Primeiro Grau” é afro-americano também, Carl Franklin. Denzel Washington acabou de dirigir um filme, e aposto que essa estréia vai mudar o rumo da carreira dele. Acho que há espaço não apenas para diretores, mas para toda a gama de profissões que existem atrás das câmeras: produtores, técnicos, existem negros aos montes nesse ramo. Agora, tenho que dizer que não concordo com essa palavra, afro-americano. Ela me soa racista. Você seria chamado de meio brasileiro? Para mim, você é brasileiro ou não. Sou americano, isso basta. Um americano negro, mas americano.

“Crime em Primeiro Grau” começa com a cena de uma prisão arbitrária, mas ninguém parece dar muita importância a ela no filme. Isso já seria um indício da pouca importância que os EUA dão hoje aos direitos individuais?
Freeman – Essa questão vai muito além de minha capacidade como ator, porque aborda uma questão social bem profunda. No fundo, sempre creio que um filme é só um filme. Os significados das cenas são interpretados pelo público de formas diferentes, a partir das experiências e pensamentos de cada um. Creio que, no filme, tenta-se enfatizar uma espécie de justiça poética, não uma interpretação fiel da realidade.

A galeria de personagens que você interpretou desde um presidente dos EUA (“Impacto Profundo”) a detetives (“Seven”). O que o levou a escolher um advogado alcoólatra, dessa vez?
Freeman – Li o roteiro procurando, como sempre faço, uma boa história. Ela estava lá, e existia um personagem interessante. Os atores sempre buscam trabalhos ecléticos para fugir da monotonia; se interpreto um policial, algo que já fiz muitas vezes, tento fazê-lo sempre de forma diferente. Nesse caso tive essa oportunidade.

Você atua quase sempre como coajuvante. Não sente que atores menos experientes (Brad Pitt em “Seven”, Elijah Wood em “Impacto Profundo”) o usam como escada para aprender e subir na carreira?
Freeman – Não concordo. Talvez eu tenha alguma característica que leve uma parte do público a me identificar como bom ator, mas não acho que seja melhor do que esses caras. Na verdade, o que me interessa é o papel; se vou ser protagonista ou coajuvante, isso é pouco importante. Não assino contratos baseado no número de frases que tenho que falar.

Ainda há desafios para sua carreira? Você ainda sente necessidade de provar algo para si mesmo?
Freeman – (sarcástico) Durante muitos anos, nutri o desejo secreto de interpretar o rei Lear, de Shakespeare, mas já superei isso (risos). Falando sério, meu grande sonho é ganhar um Oscar como produtor, receber uma estatueta de melhor filme.

Alguma chance disso acontecer?
Freeman – Sim. Estou produzindo um filme chamado “Rendezvous With Rama”. Esse é o projeto mais ambicioso da minha carreira. Trata-se da adaptação de um livro do Arthur C. Clarke (autor de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”) que vai ser dirigida por David Fincher (“Seven”). Estamos atualmente trabalhando no design de Rama, uma espécie de mundo engarrafado. É uma história que se passa no espaço, e acho que vamos mostrar certos aspectos dele que nunca foram vistos no cinema. O orçamento será de US$ 140 milhões e a equipe é fantástica, por isso espero que a Academia de Hollywood leve esse filme a sério.

O elenco já foi escolhido?
Freeman – Só vamos filmar daqui a uns dois anos. O único ator já escolhido sou eu mesmo (risos).

E como diretor, você desenvolve algum plano?
Freeman – Já dirigi uma vez (o filme “Bopha!”, há doze anos) e gostei. Adorei trabalhar com atores, foi uma ótima experiência, mas não pretendo repeti-la. Sou preguiçoso, sabe? (risos). Não é que seja complicado… atuar é um trabalho fácil e curto, enquanto dirigir é fácil e longo (risos). Prefiro terminar logo.

Você é casado e tem filhos, mas seus personagens são sempre solteirões, solitários, nunca têm romances. Por que isso acontece?
Freeman – Vai ver existe alguma conspiração para me manter solteiro nas telas (risos). É coincidência, não sei o porquê. Minha mulher já notou isso e vive me perguntando porque nunca fiz comédias românticas… eu poderia fazer uma, mas nunca me interessei por nenhum roteiro assim.

Quais os momentos cinematográficos mais importantes para você?
Freeman – O papel mais importante foi de um filme antigo chamado “Caminhos Violentos”. Na época, eu dava duro nos palcos de teatro em Nova Iorque e apenas sonhava em fazer cinema. Com esse papel, chamei a atenção dos produtores e diretores e me firmei como ator cinematográfico. Agora, o filme que fiz do qual tenho mais orgulho é “Tempo de Glória”. Acho que esse é o meu filme mais instrutivo, com mais conteúdo.

Por que você escolheu a carreira de ator, e que conselhos daria para os iniciantes no ramo?
Freeman — Não lembro quando escolhi ser ator (risos). Sério! Pelo que me consta, já nasci ator. Agora, preciso dizer que não acho que atuar seja uma arte. Não vejo glamour nessa profissão. Dirigir sim, é uma arte, mas atuar é apenas seguir ordens. Atuar é muito fácil; difícil mesmo é conseguir abrir espaço para firmar uma carreira. Nossa área é dura, complicada de quebrar a barreira inicial. Por isso, meu conselho está numa palavra só: perseverança. Não desista dos seus sonhos, dê duro por eles. Isso vale para todas as profissões.

O que mais te impressionou no Brasil?
Freeman – Se eu dissesse, você me chamaria de machista (risos). O país é muito bonito. Não apenas as mulheres; as paisagens e as pessoas de um modo geral.

Houve chance de conhecer o Brasil?
Freeman – Claro, eu assisti a muita TV! Conheci o Brasil pela TV do hotel! (risos) Tinha que fazer alguma coisa nos momentos de folga! (risos). Falando sério, fiquei impressionado com a discussão que existe aqui sobre a falta de espaço para atores negros. Esse debate foi uma grata surpresa. O mais interessante é que o Brasil é diferente dos EUA justamente por sua grande gama de cores, sua variedade de raças. Aqui existe muito mais mistura de raças do que nos EUA.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 mudaram a mentalidade do povo americano?
Freeman – Todo mundo vive com medo, mas a vida é sempre assim, não? Quero dizer, para mim a guerra é uma condição humana. Sempre vai existir alguém querendo fazer mal a outras pessoas, raças, países. Parece-me uma maneira muito estranha de seleção natural. Toda vez que o mundo passa por explosões populacionais, alguém diz “vamos fazer uma guerra” e sai explodindo tudo.

Você conhece o cinema brasileiro?
Freeman – Um pouco. Alguns filmes brasileiros que adorei: “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Central do Brasil”, “O Beijo da Mulher Aranha”… não sei se vocês consideram “Orfeu Negro” um filme brasileiro, mas é um dos meus filmes prediletos (“Orfeu Negro” é um projeto do francês Marcel Proust, filmado no Rio de Janeiro em 1957). O vi pela primeira vez há 40 anos e de lá para cá já o revi umas dez vezes. A cena em que Orfeu desce ao inferno é uma das mais bonitas que já vi. O problema é que a distribuição dos filmes brasileiros nos EUA é muito ruim. É difícil ver filmes de língua não inglesa por lá. Mas, para citar um filme atual, “Central do Brasil” é muito bom, o que mostra que o cinema brasileiro de hoje permanece muito vivo.

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