O Senhor dos Anéis – Bastidores

19/12/2003 | Categoria: Outros textos

Produção gigantesca da trilogia ocupou diretor e equipe técnica durante sete anos

Por: Rodrigo Carreiro

A produção da trilogia “O Senhor dos Anéis” é uma saga comparável à saga do herói Frodo Bolseiro rumo à destruição do artefato mágico. Ao todo, o envolvimento com o projeto tomou sete anos do cineasta neozelandês Peter Jackson, 40 anos. Até o final de 2004, ele ainda vai estar ocupado com a pós-produção dos DVDs e edições especiais do último filme da trilogia.

Jackson tem uma boa idéia do que o espera em Hollywood. “Daqui para a frente eu vou ladeira abaixo”, reconhece, sem hesitação. “Cuidar desse projeto foi o céu e o inferno ao mesmo tempo”, diz. “Ser capaz de estar ao lado de Gandalf foi maravilhoso, mas eu precisava cuidar de tantos detalhes que não tinha como descansar”, revela. Afinal, Jackson precisou de 274 dias apenas para completar as filmagens, sem contar todo o longo processo de pós-produção (três anos).

A operação montada pelos produtores, que envolveu a construção de 350 cenários e o uso de 20 mil figurantes em algumas cenas, foi o ápice do projeto, mas não sua fase mais complicada. O processo de definição do orçamento, esse sim, traz más lembranças ao diretor. Jackson se comprometeu com a trilogia ao conversar, em 1996, com o produtor Saul Zaentz, que havia comprado os diretos de “O Senhor dos Anéis” em 1969, pagando ao professor J.R.R. Tolkien a bagatela de US$ 14 mil.

Filmar a obra de Tolkien era um sonho do cineasta desde que ele tinha 18 anos. Os dois fecharam acordo com a produtora Miramax, em janeiro de 1997, para condensar a trilogia em dois filmes. Quando começou a escrever o roteiro e a definir os custos, porém, Jackson viu o tempo fechar. “A Miramax começou a pedir para fazermos um só filme, mas isso era impossível”, revela.

A sorte grande veio após um reencontro com o amigo Mark Ordesky, então já ocupando o cargo de presidente da divisão de filmes independentes da mediana New Line. O neozelandês falou do filme e das dificuldades que vinha tendo com a Miramax. Interessado, Ordesky agendou uma reunião de Jackson com o presidente da New Line, Robert Shaye. Ao fim do encontro, em agosto de 1998, o estúdio topou assinar um acordo com a Miramax.

Por US$ 10 milhões, Jackson estava livre para tocar seu projeto sob a batuta da New Line, e ainda tinha sinal verde para fazer três filmes, como queria desde o começo. Nesse momento, o cineasta tomou a decisão mais importante: filmar os três capítulos de uma vez só, como se fosse um único filme. Uma decisão inédita na história do cinema.

A fase seguinte não foi menos complicada. Jackson começou a testar e convidar os atores com quem queria trabalhar. Aí começaram os contratempos, porque pouca gente queria e estava disponível para passar 14 meses na Nova Zelândia, onde Jackson sabia que estavam as paisagens naturais perfeitas para recriar a Terra-média de Tolkien.

Ian McKellen, chamado para fazer o mago Gandalf, foi obrigado inicialmente a recusar por causa do contrato que havia assinado para “X-Men”, mas ficou tão interessado que conseguiu convencer a Fox a liberá-lo para “O Senhor dos Anéis”. Já Elijah Wood, que acabou com o papel de Frodo, contratou um especialista em sotaque inglês e pediu ao amigo cineasta George Huang que o dirigisse no vídeo-teste. Jackson testou 150 atores, mas escolheu exatamente Elijah.

O elenco pingava a conta-gotas: Cate Blanchett (Galadriel), Liv Tyler (Arwen) e Christopher Lee (Saruman) assinaram sem pensar duas vezes. O mesmo ocorreu com os novatos Orlando Bloom (Legolas), Dominic Monaghan (Merry) e Billy Boyd (Pippin), descobertos na TV e no teatro da Grã-Bretanha. Na verdade, a fase da escalação do elenco levou um ano inteiro, porque o cronograma da superprodução parecia impossível. Viggo Mortensen, convidado para o papel de Aragorn quando o irlandês Stuart Townsend revelou-se má escolha logo durante a primeira semana de filmagem, a princípio recusou. No fim, topou o desafio. E deu tudo certo.

Enquanto isso, doze meses antes das filmagens começarem, a empresa de efeitos especiais de Peter Jackson, a Weta, já trabalhava duro. O diretor Richard Taylor dividiu os 120 técnicos em seis departamentos: um deveria elaborar o visual das criaturas; outro faria os efeitos especiais ganharem vida; um terceiro criaria maquiagens e próteses de borracha; o quarto forjaria armaduras e armas; o quinto trabalharia com miniaturas; e o último seria responsável pelos cenários em maquetes.

Antes, para facilitar, Peter Jackson havia contratado os dois maiores especialistas em desenhos baseados na obra de Tolkien, Alan Lee e John Howe. A dupla criou centenas de esboços, rascunhos, desenhos e storyboards para definir como cada raça, cada cenários e cada criatura seria visualmente definida.

Quando passaram a construir as criações dos desenhistas, os técnicos da Weta fizeram a megaprodução tomar forma. Ao todo, eles construíram 350 cenários, alguns extremamente complicados. A aldeia dos hobbits, por exemplo, exigiu que jardineiros plantassem grama e vegetação rasteira em 5 mil metros quadrados de colinas, um ano antes das filmagens. Além disso, 68 maquetes de cenários foram construídas para auxiliar nas filmagens dos cenários mais elaborados, como as minas de Moria, a floresta élfica de Lothlórien e a cidade de Gondor.

Os costureiros e ferreiros criaram 15 mil roupas, 2 mil armaduras, 2 mil armas de borracha, 300 escudos e 100 armas especiais, feitas à mão. Os especialistas em próteses montaram uma fábrica de látex e fizeram 200 máscaras de orcs, 1,6 mil pares de pés peludos para os hobbits e o mesmo número de orelhas pontudas.

Quando os atores pisaram nos sets, o trabalho não diminuiu. Para filmar tudo dentro do prazo, Peter Jackson montou cinco unidades de filmagem. Enquanto ele próprio dirigia a principal, dois diretores secundários filmavam paisagens e planos gerais de batalhas, um terceiro capturava imagens dos atores em fundo azul (para depois encaixá-las digitalmente em outras cenas) e uma quarta equipe era responsável pelas filmagens das miniaturas e maquetes. Jackson comandava tudo através de um sistema de vídeo coordenado por satélite, através do qual podia ver o trabalho das quatro unidades secundárias em monitores de TV, enquanto dirigia pessoalmente a seqüência mais importante. “Se visse algo errado, pegava o telefone e pedia para fazerem diferente”, explica.

Mesmo com toda essa operação de guerra, as filmagens levaram 14 meses para terminar, entre outubro de 1999 e dezembro de 2000. Durante todo esse tempo, o roteiro foi continuamente reescrito por Peter Jackson, pela esposa, Fran Walsh, e pela colaboradora Phillipa Boyens. “Eu dirigia durante a semana e mexia no texto no sábado e no domingo”, explica o diretor.

Obcecado pelo livro, Jackson passeava pelos diversos departamentos e colava páginas do romance com trechos sublinhados, para inspirar atores e técnicos. Ele manteve a história básica: o dono do anel mágico, Frodo Bolseiro, enfrenta uma longa jornada até o território inimigo para destruir o artefato. No caminho, encontra elfos, homens, anões e muitas criaturas fantásticas. O script dos três filmes juntos acabou com mais de 400 páginas e teve muitos diálogos em quenya e sindarin, duas línguas faladas pelos elfos.

Para poder fazer tudo com perfeição, especialistas foram contratados para ensinar trinta dos atores a falar nos dialetos élficos. A cantora Enya, que participa da trilha sonora com duas canções, também escreveu letras nessas línguas. Muitos dos corais que compõem as músicas da trilha sonora, assinada pelo maestro Howard Shore e repleta de canções sombrias com arranjos pesados de cordas e percussão, são cantados nesses dialetos. Todo esse trabalho fez o orçamento do projeto completo, incluindo a finalização dos três filmes, subir para US$ 270 milhões.

Se as filmagens na Nova Zelândia correram sem muitos sobressaltos e envolvidas em sigilo absoluto, boa parte dessa culpa pode ser creditada ao revolucionário conceito de marketing utilizado pela New Line para a trilogia. Sabendo do fanatismo que os livros despertam em milhares de fãs espalhados pelo mundo, o diretor de marketing da companhia, Gordon Paddison, decidiu aproximar o estúdios do exército de fãs e fez amizade com dezenas de webmasters de sites que cobriam o andamento das filmagens.

Assim, muitos deles fizeram visitas aos sets e acabaram ficando amigos dos técnicos, deixando de espionar e publicar fotos sem autorização. Assim, Peter Jackson foi capaz de manter os mistérios sobre as mudanças relativas ao livro e, principalmente, sobre a concepção visual das criaturas digitais, como o demônio balrog e os vilões Gollum e Sauron.

Diante de toda a expectativa, e como seria de se esperar, a New Line assinou vários contratos milionários e dezenas de produtos relacionados ao filme estão à venda nas lojas e na Internet. Pode-se comprar réplicas do anel (feitas em ouro) e das espadas mágicas dos personagens (em aço temperado), bonecos, cadernos e agendas escolares, jogos e quebra-cabeças, chicletes e jóias. A JVC lançou modelos especiais de aparelhos de VHS e DVD com motivos do filme, e a Burger King colocou os personagens nas embalagens dos sanduíches. A Nestlé e a Kellog‘s fizeram o mesmo com seus produtos. Todas as empresas, ressalte-se, foram obrigadas a vincular sua imagem aos três filmes de uma só vez.

Nunca é demais lembrar que a pós-produção de cada capítulo da trilogia levou um ano inteiro para tomar forma. Desse modo, 180 técnicos em efeitos especiais passavam 18 horas por dia, cinco dias por semana, dando retoques digitais nas cenas dos filmes, entre 2000 e 2003. Os animadores trabalharam nos estúdios da Weta, na Nova Zelândia, onde Peter Jackson montou um arquivo digital que contém todos os fotogramas das três obras. Lá, o cineasta manteve cópias pré-montadas de todos os filmes. O banco de dados permitia que os técnicos fossem capazes de acessar cada fotograma instantaneamente e de forma individual, para ir acrescentando detalhes digitais e corrigindo minuciosamente os defeitos.

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