Quentin Tarantino

21/04/2004 | Categoria: Outros textos

Biografia revela perfil de cineasta autodidata e profundamente interessado em cultura pop

Por: Rodrigo Carreiro

Quentin Tarantino é um típico produto do século XXI. O diretor, nascido e criado na cidade rural de Knoxville, nos estado conservador do Tennessee (EUA), em 21 de março de 1963, é um sujeito para quem uma vasta bagagem de cultura pop, muito mais do que a teoria e do que os estudos técnicos sobre o cinema, foi o maior de todos os trunfos profissionais.

Um filme biográfico sobre Quentin Tarantino poderia se chamar “A Vingança dos Nerds”. Apaixonado por cinema desde criança e freqüentador inveterado de videolocadoras, Tarantino nunca foi muito bom em esportes e decidiu trabalhar com cinema muito jovem.

Apesar de nascido numa área rural, Tarantino se mudou com a mãe para South Beach, uma cidade portuária na região metropolitana de Los Angeles, aos dois anos. Foi lá que viveu durante toda a adolescência. Foi lá, também, que decidiu tentar a vida como cineasta, logo depois de completar 18 anos. Era um autodidata.

Tarantino começou a sua carreira fazendo pontas em filmes de baixo orçamento e séries de TV, como ator. Ele fez o curso de direção do Sundance Institute e, para se sustentar enquanto batalhava para conseguir trabalho como roteirista, arrumou um emprego de balconista numa videolocadora chamada Video Archives. Lá, ele aproveitava para passar os dias assistindo a milhares de filmes obscuros, desde longas de artes marciais asiáticos até faroestes italianos (dois dos gêneros que ele mais gosta).

A experiência funcionou quase como um curso de cinema. Tarantino organizava minicursos e sessões especiais de filmes asiáticos, que assistia nas chamadas “grindhouses” (cinemas de bairro), e estabeleceu um grupo que escrevia roteiros de forma autodidata. O cineasta Roger Avary foi revelado nesse grupo, co-escrevendo o roteiro do “Pulp Fiction” e dirigindo outros filmes depois disso.

Essa experiência acabou sendo decisiva para seu trabalho como cineasta. Os filmes que dirige são verdadeiras colagens de influências, misturando ao acaso produtos de alta cultura (Jean-Luc Godard, Akira Kurosawa) com estilos cinematográficos de segunda e terceira categoria (animes japoneses, filmes de kung fu).

Em 1990, Tarantino criou espaço para si mesmo ao vender dois roteiros, “Amor à Queima-Roupa” (1993), de Tony Scott, e “Assassinos Por Natureza” (1994), de Oliver Stone. Os textos que considerava melhores, porém, estavam na gaveta. Um deles foi parar, através da amizade de um colega de curso de interpretação (o produtor Lawrence Bender, até hoje com ele) com uma garota de Nova York, nas mãos do ator Harvey Keitel. O astro leu o roteiro de “Cães de Aluguel” e gostou tanto que resolveu produzir e protagonizar o filme. Lançada em 1992, a obra concorreu e fez sucesso em Sundance, além de ter percorrido com autoridade o circuito europeu de filmes independentes.

A seguir, com a carreira consolidada entre os diretores alternativos, Tarantino fez “Pulp Fiction” (1994). A essa altura, mesmo desconhecido do grande publico, já era bastante respeitado na comunidade de atores, que o viam como um sopro de renovação no cinema norte-americano. Bons atores baixavam salários para trabalhar com ele, e o resultado não decepcionou: “Pulp Fiction” venceu a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de roteiro pelo segundo trabalho. E foi considerado o filme mais influente da década de 1990.

A partir daí, o cineasta diversificou os trabalhos, usando seu prestígio para ajudar amigos e cineastas promissores. Assim, ele foi produtor executivo do filme “Parceiros do Crime” (1994), do co-roteirista de “Pulp Fiction”, Roger Avary. Topou atuar em filmes do iniciante Robert Rodriguez, “A Balada do Pistoleiro” (1995) e “Um Drink no Inferno” (1996), conquistando um grande amigo. Depois, dirigiu um dos episódios da comédia “Grande Hotel” (1995), com outros diretores iniciantes.

Em 1997, Tarantino voltou a dirigir um longa-metragem, “Jackie Brown”, adaptação de um livro de certo sucesso do escritor americano Elmore Leonard, uma das maiores influências da prosa verborrágica e bem-humorada do diretor.

Até os 155 dias de filmagem de “Kill Bill”, foram seis anos de farras. Tarantino escreveu um roteiro – ainda inacabado – sobre uma batalha da Segunda Guerra Mundial e aproveitou para badalar muito. Casou e separou-se da atriz Mira Sorvino, namorou muito, tomou ecstasy na Muralha da China e trabalhou como ator para o comediante e amigo Adam Sandler.

Os filmes de Tarantino, que reaproveita estilhaços culturais de diferentes origens para construir um estilo próprio, poderiam ser descrito como produtos verdadeiramente pós-modernos. Sua principal característica é um traço muito apontado por acadêmicos e intelectuais como típico do século XXI: a mistura sem distinção de alta e baixa cultura num mesmo caldeirão de referências.

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