Snuff movies: lenda ou realidade? I

01/01/2004 | Categoria: Outros textos

Investigações policiais jamais conseguiram provar a existência de filmes que mostram assassinatos reais de seres humanos

Por: Rodrigo Carreiro

Quando o inglês Thomas DeQuincey publicou, no início do século XIX, o romance “Do Assassinato como Uma das Belas Artes”, ninguém o levou a sério. Naquela época, um ensaio filosófico que dava ao ato de matar um ser humano o status de arte provocava gargalhadas. Quase duzentos anos depois, no entanto, ninguém ri de uma afirmação desse tipo. É o caso do detetive Tom Welles, personagem de Nicolas Cage em “Oito Milímetros”, filme de Joel Schumacher. Na trama, Welles é encarregado de investigar um filme que mostra o assassinato real de uma mulher. O filme seria o primeiro exemplar de um aterrador subgênero do cinema mantido até hoje nos subterrâneos das grandes cidades: os snuff movies, ou filmes que mostram homicídios verdadeiros.

A investigação de Welles no filme de Joel Schumacher é, na verdade, uma personificação de uma busca que já dura pelo menos 24 anos. Data de 1975 a primeira investigação oficial em busca de filmes snuff. Durante cinco meses, o FBI e a Polícia de Nova Iorque investigaram as denúncias do presidente de uma associação chamada Cidadãos pela Decência Através da Lei (Citizen for Decency Through Law). Raymond Gauer garantia que, apesar de não ter visto nenhum filme, tinha indícios concretos da existência de uma rede de distribuidores que espalhavam essas fitas nos EUA.

Nessa época, começava uma verdadeira caçada. O FBI investigaria a existência dos snuffs em várias ocasiões, sempre com resultados negativos, enquanto os rumores se espalhavam. Já em 1976, policiais que haviam participado das primeiras investigações diziam ao New York Post que estavam convencidos da existência de filmes mostrando imigrantes mexicanos sendo mortos. Os agentes diziam que era quase impossível prová-lo, porque a indústria dos snuffs seria controlada pela máfia.

Em apenas uma ocasião o FBI chegou perto de comprovar a existência de um filme desse tipo. Em 1986, em Albuquerque (EUA), um comerciante chamado John Zinn contratou três homens para raptar uma mulher e fazer um snuff. Os assassinos acabaram presos, mas haviam desistido de filmar a morte da estudante Linda Daniels por causa da repercussão do seqüestro.

Fora do círculo policial, os indícios da existência dos snuffs são raros. Em 1994, o jornalista Rider McDowall, do San Francisco Chronicle, passou seis meses tentando encontrar um filme snuff. Para isso, entrevistou policiais, agentes do FBI, donos de motéis, produtores de filmes pornô, proprietários de sex shops. Não encontrou nada. “Vi vários filmes e achei que estava assistindo a crimes autênticos, mas nenhum resistiu a uma análise de especialistas. Tudo era truque”, escreveu.

Já o psicólogo Ted McIlvanna, presidente do Instituto for Advanced Study for Human Sexuality, vai mais longe. Depois de 25 anos de pesquisas, ele reuniu 289 filmes de sexo e mais de 100 mil vídeos, mas nunca chegou a um snuff. “Vi apenas três mortes: dois acidentes e uma cerimônia no Marrocos onde um garoto doente era sacrificado”, explica.

Já outros conhecedores do tema garantem que os snuffs existem. O diretor underground Joe Christ, 41 anos, autor de vários filmes em Super 8, tem uma teoria. “No início era um mito, mas a controvérsia e o interesse foram tão grandes que criaram um mercado consumidor. No mundo em que vivemos, sempre que há procura, há oferta”, analisa. Ele garante que já viu um snuff verdadeiro em 1982, em Dallas (EUA).

A boataria envolvendo os snuffs é rica em histórias. Mesmo assim, os únicos filmes descobertos até hoje mostram cenas de assassinatos de animais. Em 1998, a polícia escocesa confiscou nove filmes que mostravam mulheres seminuas matando sapos e ratos. Os distribuidores dos vídeos foram presos e confessaram que os filmes circulavam na Inglaterra desde 1996.

Já os snuffs que mostrariam assassinatos de seres humanos – pelo menos por enquanto – ainda não passam de lenda. Foram agentes do FBI os primeiros a repassar informações para jornais como Los Angeles Times, USA Todas, Chicago Tribune e San Francisco Chronicle.
Segundo a pesquisadora americana Barbara Mikkelson, o termo snuff apareceu em 1970, numa entrevista com um membro anônimo da Família Manson, os psicopatas que assassinaram a atriz Sharon Tate. Na entrevista, o rapaz se referia assim a um vídeo que mostrava uma mulher sendo decapitada.

Depois das primeiras investigações, os boatos começaram a surgir. Segundo eles, boa parte dos filmes snuff seria produzida na América do Sul – especialmente na Colômbia, onde a máfia da cocaína manteria esquadrões para exterminar viciados e ladrões, que atrapalhariam o comércio da coca. Filmar os crimes seria apenas uma maneira de ganhar dinheiro extra.

Já a exibição dos filmes é um processo mais complicado. Para ver um snuff, só em grandes cidades, como Nova Iorque, Amsterdã e Tóquio. Na Tailândia, há informes sobre bares underground onde seriam exibidos. Fala-se que em São Paulo é possível ver um snuff por R$ 100. Mas nada foi provado. Até hoje.

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